A história do Zurich Café começa lá nos anos 80. Tempos nos quais a cidade era outra, em expansão, com outros contornos e exigências. Era o tempo das confeitarias e das casas de chá. Dias que mais facilmente faziam caber um “chá das cinco” e um encontro presencial. As opções de estabelecimentos comerciais não eram tão variadas e os cardápios ofereciam menor variedade de opções.

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O Zurich foi inaugurado, então, pela necessidade de uma nova confeitaria capaz de atender o público da região do Batel na qual o comércio começava a se desenvolver. Com a ideia de servir, Dona Suzi foi a primeira responsável pelo espaço, inspirada nas tradições e receitas suíças deixadas pela avó. Na medida em que a passagem do tempo pedia que as toalhas quadriculadas e a decoração temática dessem espaço a um ambiente mais eclético e atento às mudanças do mercado, a filha Ana Lucia – que já não era mais a menina dos primeiros anos do café – abraçou o estabelecimento e assumiu inteiramente as atividades.

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Abraçar no sentido de tomar para si a responsabilidade, ao mesmo tempo que envolver-se de modo próximo e afetivo. Mais ou menos como quem assume uma casa e quer dar a ela o seu jeito, transformando-a à seu modo e com o desejo de fazer suas próprias marcas sem perder de vista o respeito àquilo que chegou como um legado. Fica o que fizer sentido ficar. Tanto assim, jeito de coisa sua, que Ana Lucia trazia ao café tudo que lhe agradava. Em tudo que via em outros horizontes, via também o café e a possibilidade de torná-lo mais agradável. Nas viagens o café foi junto – e voltou sempre com algum recordo e regalo. É no lazer, mesmo distante de Curitiba, que Ana se inspira a trazer novos produtos e outros conceitos – porque o Zurich quer ser, também ele, o lazer de alguém.

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O espaço do café como destino, um lugar para ir – não mera passagem – ainda que o ir seja fruto de algum acaso ou intervalo. Muitas vezes pensamos os cafés como lugares para um petisco, um lanche rápido, nos minutos entre um compromisso e outro. Mas podemos pensar cafés como lugares para investir algumas horas na leitura de um livro, em uma experiência gastronômica.

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O Zurich tem jeito de café europeu. Ao mesmo tempo, é possível encontrar um doce de leite mineiro delicioso – mais uma descoberta da Ana Lucia. O que está em questão, segundo Ana Lucia, não é vender um modelo e um padrão, mas oferecer um jeito novo de pensar a nossa relação com o espaço de um café e com os sabores disponíveis.

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Na variedade no menu, a possibilidade de apreciar um vinho num sábado a tarde, por exemplo. Por que não? O Zurich fica no Shopping Novo Batel, com fachada aberta para a Alameda Dom Pedro II. Nas mesas que divisam a calçada, a possibilidade de apreciar o movimento da rua. E brindar alguma coisa – nem que seja o ócio de um dia de sol e folga, que permite acontecer a reunião.

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Mas que não seja a inspiração européia a tentar competir com a simplicidade da coisa. Nas receitas, a maioria delas tradicionais, não há adornos e fru-frus: o requinte fica por conta da qualidade dos ingredientes e do preparo. Com a alegria genuína de quem deseja mostrar e dividir com o outro algo especial, Ana nos serviu uma torta de ricota e um strudel.

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Esperou ansiosa nossa reação – porque a nossa satisfação importava. Na troca de olhares, a confirmação de que nós também sabíamos que aqueles doces, feitos de ingredientes verdadeiros e receita tradicional, eram um prazer simples mas raro, capaz de nos remeter a um tempo que já não existe mais – e não me refiro ao tempo das casas de chá! – mas a memória afetiva de cada um quanto aos sabores do passado que vivemos ou imaginamos como seria ter vivido.

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Falamos também sobre os produtos de hoje: quantos corantes, pós, aromatizadores e massas aditivadas! Quem não está cansado disso? Saborear uma receita que leva ovo, leite, manteiga, farinha, é, assim, lembrar que a história de comer com os olhos não sobrevive à primeira garfada e que a apresentação de um prato é importante, mas o conteúdo precisa ter sentido. Precisa ter sentido. Como acontece com tudo na vida.




Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotografada: Ana Lucia Muller Branco
Agradecimento: Zurich Café


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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