Nunca vi uma nascente de rio. Mas imagino alguma porção de terra, pedras e a água, um fio, brotando cristalina. De dentro do chão, o devir, o molhado, o fluxo do que avança, porque as coisas vivas avançam, naturalmente: o adiante, às vezes líquido, nem sempre é linha reta mas é direção única, não importa ao encontro de que.

Passo a passo rumo ao que está uma posição mais a frente, algo no presente-diante então se adianta: a verdade. As figuras nas obras de Vera Lilia não posam, não pousam – nem repousam: elas saem, elas partem. E nascem. À semelhança dos materiais que lhes servem de suporte ao longo do processo de produção, podem ser robustas e frágeis, não importa: à partida insistem.

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Na firmeza do barro, do alumínio e do bronze, o movimento de um emergir remanesce, como remanesce em nós a expressão dos corpos – conhecida porque humana; mas reconhecível nas obras tendo como condicional o olhar: para cada ângulo de onde parte o observador o que se vê representado é outra cena.

A tridimensionalidade nos faz um convite à investigação, a um segundo olhar. De modo sutil, ao circundar as obras, as imagens de um mesmo trabalho se tornam quadros múltiplos na retina. Submissão e força, resistência e redenção, ternura e desamparo, entrega e traição, erótico e solidão. No jogo da memória aberto em nós por Vera Lília, a formação dos pares não segue a lógica dos sinônimos ou antônimos, apenas incita novas formações- não espera decifração [decifra-me ou te devoro], cria novas cifras e composições.

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As obras de Vera Lília, assim como esse nome composto que a constitui, são composições. Porque não surgem de uma ideia pré-concebida mas de um desejo de fazer. É no durante que o barro vai ganhando a forma, que a harmonia vai se arranjando, assim, no gerúndio. É a partir da disposição – tanto física quanto emocional – para laborar na composição de uma linguagem muda que os trabalhos existem.

Assim, composição aqui não quer dizer apenas modo de reunir partes, mas a arte de batizar e, por que não, de escrever música. Essa linguagem muda é também um poderoso caminho de comunicação – o expectador, olhando e sentindo, é quem trabalha e verdadeiramente está em movimento; até porque o bronze, se necessário, atravessa o tempo indiferente ao clima, ao solar-noturno – o bronze, sem pressa alguma, diz ela: não acaba. O bronze quando muito, encerra. É que nas esculturas ele representa a última parte do processo de construção de peças feitas primeiro em barro, transferidas ao gesso, ao silicone, à cera e finalmente ao material refratário.

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Arrumam-se encaixes, aparam-se arestas, finalizam-se detalhes e então tudo fica de cabeça para baixo no preenchimento líquido. É então que temos um fim. Rainha da paciência – e da própria casa e ateliê – Vera Lília cuida de cada detalhe pois sobre as texturas e cores há sempre uma intenção. Aliás, desconfio que a artista guarda um segredo ou, ao menos, permite que em nós paire a provocação de um suposto-saber, afinal, quando ouve de nós algum comentário sobre o que vemos em suas obras, deixa escapar um seguro eu sei o que eu fiz, mas…

Eu sei que fiz? Eu sei o que quis? Para Vera Lília parece mais importante ouvir o que o outro diz, o que diz o olhar de quem observa. Ainda que esse outro lhe atravesse uma fala como aquele inesquecível “você tem coragem de se expor tanto?” ouvido de uma mulher desconhecida à época de uma de suas primeiras vernissages.

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Lá em 1991 uma das peças realizadas para a exposição chamava-se Prisioneira – acho que eu devia estar meio medrosa. Mas, na mesma ocasião, não demorou a surgir a Liberdade. É de liberdade que parecem se tratar, sejam quais forem os seus nomes (e todas tem um nome), as obras de Vera Lilia – ainda que liberdade enquanto licença.

Porque o sair pressupõe uma passagem, um pôr-se à caminho, um revelar-se, um tirar-se de onde se estava. O sair, aliás, tem a ver também com aquilo de dizer algo inesperado e até mesmo com um certo tipo de performance.

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Os trabalhos de Vera Lília parecem ter a ver com um desejo que é êxito mas também hesitação. Com aquilo que se apresenta mas, quando necessário, sabe se colocar em fuga. O corpo da mulher, o corpo. O feminino, indubitável nas formas do corpo, vacilante nas intenções: serão amantes, irmãos, mães-e-seus-filhos? Haverá nessas formas alegrias ou perdas?

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Das perdas, chegamos às faltas e, um pouco mais adiante, às falhas: nos trabalhos que envolvem as araucárias, a presença dos pinhões graúdos e daqueles que não vingaram. As araucárias, você sabia?, são plantas gimnospérmicas, o que significa que suas sementes não se encerram num fruto. Os pinhões ficam ali, dentro da pinha que, quando se parte, permite que as sementes saiam para fazer nascer novo pinheiro.

A artista relembra a infância, as cavalgadas na terra pertencente ao avô – tudo ali, nas imediações. A alegria que era aquilo. Aquilo que fica sem nome, num tempo sem data, para sempre simbolizado na casca de uma arvore típica, centenária. Os pinhões na boca dos pássaros e roedores, debaixo da terra com suas raízes chamadas de nó. É quase um delírio o pinhão, bendito pinhão, que resolveu até nascer em meio às flores, à porta de casa, onde não podia – nova interdição. A imagem do pinheiro, em tudo quanto pode, nunca interdita, não é uma ficção, mas talvez uma fricção. Atrito sobre uma parte do corpo? Resistência entre duas superfícies?

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Qual seria, afinal, a diferença entre um pinhão que germina e um germinar, verbo transitivo, que se dá no corpo de uma mulher? A resposta talvez esteja na marca, peito ao meio, incisão em toda-escultura. Vera, por que essa divisão, essa marca no corpo dessas mulheres, como divididas?

É quando ela de repente se ausenta – há de nos servir uma água – e nos deixa ali, em silêncio, em interrogação.

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Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Vera Lília


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Sobre o Autor Paulo Andrade

Acredita que fotografar é olhar com a alma. É eternizar um momento. É extrair a grandeza de algo singelo. Petrificar uma sensação. Enxerga na fotografia muitas possibilidades, acima de tudo: felicidade! É fotógrafo e consultor tributário.

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