Conheci Vera Barbosa durante uma exposição de pinturas do artista Saulo Silveira, em Lisboa. Do acaso fizemos encontro. Fomos ao apartamento onde Vera vive e onde costuma criar. Poderia escolher as palavras tocar, compor, cantar ou trabalhar, mas escolho a palavra criar. Criar, aqui, não tem apenas a ver com o sentido mais comum, o imaginativo. Criar também é, de algum modo, alimentar. A imagem das orquídeas que a artista cultiva próximas a uma janela [e que já estão em segunda florada], é algo representativa do movimento de sintonização com a jornada do amanhecer ao por do sol, das estações, dos ciclos.

É a uma ordem que respeita as necessidades de nutrição subjetiva que os trabalhos de Vera pertencem. Por isso, durante um tempo o violão deu lugar a um processo de imersão na música clássica. A música como uma relação; outro com quem dialogar olhos nos olhos, vez por vez.

Vera é naquele momento o meu outro. Sua casa, também um outro. Vez por vez, olhos nos olhos, divido atenção entre a mulher e o espaço, entre os objetos que pertencem a ela, ciente de que um conta sobre o outro ou, ao menos, que um é contraponto do outro. Aliás, para Vera é sempre contra alguma coisa que o corpo se move, antagonismo e resistência; assim é a física e há que se contar com esse invisível. No invisível, portanto, o equilíbrio. E no silêncio interno, a música. No que há de inapreensível, no que fica fora do controle, o mais interessante: a cena não repetível. Quantas vezes toque ou cante uma mesma música e uma diferença surgirá. Trabalharão as energias, trabalhará o corpo, o instante, a poesia.

Não importa que não se possa uma segunda vez, mais vale o processo, o desalinho, a nota que escapa, a emoção do que é sempre primeira vez, novo movimento que desafia a inércia, mulher que caminha mata adentro, a encantar-se pelo não pronto que é o embrenhar-se no trabalho, na vida, avançar no tempo que avança como um lobo.

Numa das paredes do apartamento, vejo uma coleção de pequenas cuias trazidas do Brasil, artesanato indígena. Poderiam ser usadas como vasilhas, mas foram reconhecidas como poesia; esses inutensílios, como diria Paulo Leminski. Leminski que com o poema Mais Ou Menos Em Ponto é presença no mais recente álbum da artista, batizado Dança Negra. Levar a música ao poema, levar a música do poema, levar o poema à música? Não sei se importa saber. Em oito faixas poéticas, um convite a que também coloquemos o poema à mesa para fazer dele criação; invento, propagação ou alimento.

Ainda diante das cuias, que se propagam e formam um conjunto, a artista admira as linhas, as da geometria e também a dos poemas. A potência humana é causa de um bom espanto. Talvez seja por isso que Vera tenha apreço pela lapidação da contingência. Ela se detém diante do que a convoca, como quem interrompe uma caminhada para espiar entre os respiros de um portão maciço, para observar a beleza de uma flor no mato.

Do mato, o curso dessa história segue para a natureza. As pedras, a água, os elementais. Uma evocação aos sons da floresta acompanha o vogal, o nasal, o gutural. Na arte de Vera, música e palavra, explora-se muito o sentido. O sentido enquanto significado, sim, mas, especialmente, como sensação corporal. A textura da pedra, o escorregadio, o gota a gota, a vibração no cristal, a aceleração, o tempo para que tudo silencie e volte ao estado de pausa. Longe do racional, da força do ego, há o que é próprio da vida – um corpo disponível às emoções: é lá que Vera quer chegar.

Bem, como chegar? Vera nos dá pistas: ao mostrar, cantando, antecipa que o fazer pode dizer mais do que uma explicação.

Beira do mar, lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar

À beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul
A água bateu, o vento soprou
O fogo do sol, o sal do senhor
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo sai

Enquanto falávamos de caminhos, Lugar Comum de Gilberto Gil foi a música que saiu do violão. E então a conversa vai ao começo do caminhar, finais da década de 70, o Brasil ainda sob a Ditadura Militar e Vera, na estrada, a fazer commedia dell’arte. Aprendo ali mesmo que a commedia dell’arte é uma forma de teatro popular, itinerante, na qual o cenário viaja junto com os atores que precisam ser bons improvisadores. As experiências desse início de carreira parecem ter sido a cinética [movimento mecânico e também a ciência das forças] que se estende no fluxo que alcança o hoje; como o soltar de uma pequena bola de gude pelos vincos de um mapa.

Falar em mapa remete a território. Enquanto conversamos, Vera se movimenta pra lá e pra lá. Apresenta a casa, reposiciona o violão, ajeita um quadro, mexe os discos, coloca o corpo em cena, não importando que tenha na plateia apenas uma dupla de curiosos que faz do seu sofá as poltronas de um teatro imaginário. Desde o princípio da carreira e até hoje, vale sempre armar o circo. Divida entre São Paulo, Lisboa e Nova York, cidades onde atualmente mais trabalha, Vera consegue transmitir, sem precisar dizer, a ideia de que é preciso estar onde está o corpo, ocupar o presente, não importa em que canto do mundo ele aconteça. Talvez seja por isso que diante da estante onde vemos alguns livros infantis pertencentes ao filho adulto que já não mora em casa, ela faça poesia ao dizer que a criança ficou em casa. O corpo, a lembrança e o infantil corporificados pelas palavras.

Aliciada pelas artes, Vera é alguém que preferiu o nômade ao estável, o carregar de todas as máscaras e estruturas na bagagem, como naquela commedia dellarte, tendo a noção do risco e encarando – ou encarnando? – a metamorfose. E pra que? Ora, ela responde: o ator é um bailarino, dá osso, dá sangue para as grandes obras.

Pergunto a ela qual foi seu critério para ao longo de uma carreira que já completou quatro décadas, escolher em quais novelas e peças atuaria, em quais produções colaboraria, como saber o momento para cada coisa? Ela não hesita: eu quis as grandes obras. Foi assim com o musical Memorial do Convento de José Saramago, em Belém do Pará, em parceria com a Fundação José Saramago, entre tantas outras. No currículo, trabalhos com textos de autores como Antonio Lobo Antunes, Luis Fernando Veríssimo, Gilberto Freire, Garcia Lorca, Eça de Queiros, Victor Hugo, Leon Tolstoi e Guimarães Rosa.

Colocar a obra em cena, explorar o sensorial, o folclórico, o ancestral, tudo isso que é duradouro, tradicional, consolidado, imperecível mas que pela arte pode fazer brotar o efêmero, um novo corpo que se lança e alcança, nesse impulso, um extra e depois se dissolve. A música vai no extra, é uma expressão que ouvi de Vera e que, sem pedir a ela explicações, entendi como sendo um lugar imprevisto que se alcança, onde se cai, após realizar um salto artístico. O artista em pleno voo, instante cadente, guardado pra sempre em quem viu. O corpo das palavras inflado de espírito quando alguém ousa.

Ouso então aceitar um café ou chá e estender um pouco o encontro embora saiba já avançar o horário combinado. E a conversa termina à mesa da cozinha. O início e o fim desse texto a resvalar no que é apetite, alimento. Vera prepara um chá e serve bolachinhas. Conta do seu prazer em cozinhar. Falamos de sonhos, expectativas e da importância de um continuidade no fazer. É preciso somar obstinação à potência de cada um. É preciso ter fé na arte, porque para toda arte há um público.

O pires recobre as xícaras para que tudo de bom da camomila repouse, aglutine e depois evapore, a um só tempo, em aroma. Brindamos. Bebemos. E partimos.

Dias depois, partiu o vôo de Vera para Nova York. Nessas outras terras o caminho tem sido voltado ao autoral. Poesia e música em formato teatral formam a linguagem dos trabalhos que desenvolve no momento. O espetáculo Shadows and Light, no teatro do Village, foi o primeiro. Mas não houve tempo para falarmos sobre ele – e sobre tudo. O que é do tempo presente é movimento, história pra outro dia.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Vera Barbosa

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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