Talita Barbosa nasceu no interior de São Paulo. Quando era criança, gostava muito de gibis. O gibizinho, lembra? é o que ela me diz, certa de que também eu não esqueci a textura do papel, os balões, a velocidade dos quadros, aquele mundo de cores, personagens e diálogos.

O gosto por histórias em quadrinho costuma ser citado por escritores e leitores quando perguntados sobre suas primeiras experiências com a palavra. Para Talita, essa relação também oportunizou o contato com as imagens. Com elas aprendeu a contar histórias, essa transformou-se na sua linguagem e melhor forma de expressão.

Já na infância surgiram os primeiros desenhos. Seguiu-se como caminho natural a escolha pela faculdade de Artes Visuais. Depois, ainda, o curso de Publicidade – outro jeito de contar histórias?

As cores vivas e chapadas e os contornos fortes um dia encontrados nos gibis que foram sua primeira referência, persistem como marca registrada. As características dessa estética incorporadas e relidas, agora servem a contar as histórias que a artista cria, seja a partir de um tema que a interesse ou do pedido de alguém.

Pergunto à Talita se produzir uma obra por encomenda pode ser desconfortável, algo muito diferente de pintar segundo as próprias vontades. Como resposta, esperei um sim e recebi um não. De posse da técnica e tendo aprendido a ler estímulos, partir de uma demanda própria ou exterior não interfere no resultado do trabalho. Há que se ter confiança na técnica, definir a paleta de cores e colocar a intuição à serviço de transformar a tela em branco no espelho do que se vislumbrou tendo um tema como gatilho. Enquanto uma obra não for terminada, não parte para a próxima – cada história de uma vez.

Mesmo quando produz segundo as próprias ideias de série, é sempre para o outro que a dedicação se destina. Sempre que entrega um quadro ou recebe uma visita em seu ateliê, a artista confessa observar atentamente a reação de quem chega. Procura ver sorriso, brilho no olhar. Um trabalho bem sucedido será aquele capaz de ser recebido com o mesmo prazer com que foi feito. O lugar central que a presença humana tem nesse processo talvez se relacione e de alguma forma justifique a centralidade com que pessoas e rostos aparecem na maioria de suas obras, senão em todas.

Imagem acervo Talita Barbosa

Quem segue a artista no Instagram consegue ver algumas das obras cercadas de verde e hortênsias quando apresentadas no jardim do ateliê. Entre seus seguidores, crianças, jovens e adultos de todas as idades – os ambientes intimistas, misteriosos ou exóticos que vemos nas telas convidam a todos, sem distinção.

A mudança para Portugal, há quase dois anos, potencializou esses encontros que são a razão de ser de sua escolha em se dedicar exclusivamente à arte. A cultura brasileira, entretanto, segue como um dos mais fortes elemento de inspiração. No lugar distante onde nasceu o avô, terra pela qual se apaixonou e onde sonhou morar, Talita encontrou grande receptividade e oportunidades. Morando em uma “quinta” ao norte do país, o silêncio, a natureza e o contato com uma comunidade pela qual já passaram outros artistas até o momento só favoreceram sua produção.

Imagem acervo Talita Barbosa
Imagem acervo Talita Barbosa

O momento feliz e o cotidiano desacelerado não são, contudo, razão para acomodação. Disposta a um ciclo de mudanças e adaptações, não há apego à casa-ateliê ou às obras. Amanhã ou depois artista e obras poderão estar noutro lugar; quanto as obras, aliás, é bom que estejam mesmo espalhadas por aí.

a disseminação de seu trabalho, a experiência de Talita com o objeto-produto no ramo da publicidade, despertou o desejo de pensar formas de, em breve, vir a fazer a inclusão de sua arte em objetos de uso do dia a dia. Que bom seria suas pinturas circularem por aí em cadernos ou camisetas, por que não? Longe de causar desconforto, a possibilidade da reprodução causa na artista a alegria de pensar que, com mais arte, a vida por ter mais vida. Há que fazer parte da missão do artista pensar meios de se comunicar com o seu público, atento às possibilidades de seu próprio tempo. A impossibilidade de adquirir um original não pode ser barreira à fruição.

Imagem acervo Talita Barbosa
Imagem acervo Talita Barbosa

As telas cujas bordas são preenchidas acompanhando o traço do que é plano e fazendo do que é plano uma fuga para o infinito parecem sempre olhar em direção ao público que se vê frente a frente de imagens que, embora paradas, pelo estalar de dedos da imaginação podem estar animadas, corpos prontos a mudar de posição. Corpos em cenas provisórias que pela arte se tornam a fotografia de um cotidiano comum e ao mesmo tempo extraordinário, no qual reconhecemos elementos do nosso.

Pelas cores das obras de Talita quem sabe também possamos olhar ao redor e enxergar uma realidade mais alegre, mais vibrante. Porque a vida, da infância à velhice, vibra antes ainda da cor, embora seja pela cor que possamos mais facilmente perceber o bem humorado, o psicodélico e os contornos intensos que dão forma ao mundo – o real e o das telas.





Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Talita Barbosa
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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