Sempre ouvi dizer que 1- o amor exige sacrifício 2- a paixão tem prazo de validade: dois anos, com margem de um ano para menos ou para mais. Concordo quanto a primeira afirmação. Quanto a segunda, discordo. Dois anos e uns quebrados talvez seja o prazo de expiração do lote da fantasia. Fantasia, aquela coisa de quando a gente ainda acha que o outro pode ser capaz de refletir não apenas a expectativa nossa sobre ele mas, especialmente, a expectativa dele com relação ao modo como nós o enxergamos. Dois anos é um bom prazo para descobrir que ela faz xixi de porta aberta, que tem fobias estranhas, que não é tão bonita nem tão inteligente. Dois anos é um bom prazo pra sacar que a história dele não é bem a prosa que ele conta. Dois anos é um bom intervalo de tempo pra um já ter feito uma merda grande com o outro e perder, inclusive, a fantasia de que merdas não aconteceriam nessa relação. Fantasia. Aquela coisa que termina de um jeito sofrível, quando parte a parte se revela bicho solto. Quando a gente descobre que não tapa a falta dele, nem ele a nossa – embora alguém tenha levantado a hipótese clichê da plenitude e do casal perfeito.

Paixão é quando acolhemos com alegria a hipótese de que o outro e a vida são permanente incógnita – paixão é o que fica de curioso, intrigante, imperfeito. Paixão é não perecível, para quem conseguir preservá-la com algo mais do que calcinha fio dental, declaração de amor surpresa e viagem romântica uma vez por ano. Amor é quando aceitamos seguir a existência juntos sem a promessa de alguma salvação. Flutuando no vazio que a fantasia deixou ao ir embora. Paixão não depende de fantasia e não se transforma em amor, porque é sentimento de outra ordem. E que não sejamos bobos de acreditar que precisamos escolher entre um e outro porque não se tratam mesmo de excludentes.

Mas se a parte do sacrifício no amor é verdade, o que seria ele? Sacrifício é aguentar mau humor, pum, ronco, chatice, falta de grana, depressão, gênio, repetição, mania, vício, posição política uó, mau gosto de qualquer sorte e toda coisa englobada na categoria das possíveis encheções de saco com as quais a gente se depara no básico do dia a dia? Sacrifício como palavra genérica pra falar das igualmente genéricas aporrinhações? Da igualmente genérica, rotina, paciência, tolerância, renúncia? Sim. Mas seria só isso? Assim, tão objetivamente!? Não. Qual poderia ser, então, a minha própria metáfora para falar do sacrifício, para falar do que seja esse abacaxi chamado amor, a ser descascado dia a dia para perdurar? Abacaxi, essa fruta que a gente nunca sabe se doce ou azeda, até cravar os dentes nela. Essa fruta que é sempre uma questão de surpresa e sorte, mesmo quando a gente experimenta um naco amarelinho e melado de uma unidade da mesma safra cortada pelo moço contraditório do leve 2 por 6 ou 3 por 10. Contradição. Sacrifício é, pois, uma vida inteira vivida em contradição. Uma vida inteira levando 3 abacaxis por 10 reáu na inadvertida certeza de estar no lucro.

O amor é aquilo que te faz viver contrariado e passando raiva, e ao mesmo tempo pensando o quanto a vida seria um atraso sem amar. O amor é comprar sempre e de novo do vendedor ambulante que encosta na pracinha, mesmo que dentre os abacaxis todos do caminhão dele, a gente inevitavelmente leve para casa o mais azedo, não propriamente porque continue a acreditar indefinidamente na sorte e na doçura, mas pelo reconhecimento sincero ao trabalho duro do moço contraditório do 2 por 6 e 3 por 10. Amor é jamais dizer a ele que, na verdade, os abacaxis são mero pretexto e nunca a coisa em si.

Além disso o amor é, em suma, a única coisa pela qual você topa fazer tudo que disse que não faria nem fodendo. O amor é uma pagação de língua diária. A longa estrada por onde a paixão viaja, como um ônibus de linha… Como a gente dentro desse ônibus, levando a sacola com o abacaxi recém comprado numa das mãos – e a bolsa na outra.

O amor é como o bandido que assalta com a pergunta: a bolsa ou a vida? E a gente tendo o salário do mês, o notebook cheio de arquivos e a máquina fotográfica com cartão de memórias lotado dentro, entrega a bolsa porque embora doa pra caramba perder a bolsa dentro da qual se guarda a vida inteira, não dá pra renunciar a porra dos 3/10 de vida real que aos 30 anos ainda resta fora dela. O amor é a contradição. É isso que a gente guarda e gasta, ao mesmo tempo, por alguém. É o bandido. É a sacola com três abacaxis dentro. É não ter mais nada – e ainda tudo – a perder.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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  • Lindo texto, Andressa. Fiquei viajando ao mesmo tempo que lia tudo e como é tudo verdade dessa vida com esse abacaxi diário que escolhemos ter, rssss.
    Muito legal!!
    Valeu demais!! =)

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