Hugo Lourenço é um jovem autor português. Aos 25 anos, Ruínas é seu romance de estréia [Editora Esfera do Caos, 2017].

A sinopse indica que a obra tem como tema central a precariedade laboral e a realidade de uma juventude assolada por falsas promessas de um futuro algo distante das incertezas que a sociedade contemporânea impõe. Contudo, talvez bem se possa dizer que a história do livro trata, essencialmente, da memória. Aquela a representar a coletânea dos fatos de uma vida e aquela que, mediada pelo inconsciente, ajuda a filtrar o que se pode lembrar e o que é preciso esquecer. A lembrança do que é vivo caminha lado a lado com a hipótese de que haja algo esquecido a também integrar o enredo.

É assim que, na trama central, o autor-narrador faz-se acompanhar dos amigos de infância, Daniel e Ricardo. Daniel é o menino confiante e ousado. Enquanto Ricardo representa a figura conformista, o garoto estranho que tem um amigo imaginário.

Enquanto esses personagens são construídos com características muito próprias, o personagem narrador vê-se como só mais um mas, já à partida percebe que essa condição pode não ser de todo negativa. Mas até onde a tranquilidade no temperamento pode se confundir com a apatia? Com foco nos dois personagens masculinos que são relembrados conforme avança o processo de narração, a escrita em primeira pessoa aponta para a inclusão de uma história aparentemente esquecida: a pessoal..

No cenário da infância, o colégio, percebem-se as primeiras tensões e oposições. Ali, os meninos vão criando ficções, ensaiando a vida adulta, quer pela exacerbação do corpo, quer pelo centramento às emoções.

O início da vida adulta, entretanto, parece não guardar para nenhum deles o cenário ideal de liberdade que, espera-se, possa ser propiciado pelo fim da infância. O personagem narrador, por exemplo, torna-se um entediado vendedor de bilhetes de cinema enquanto sonha ser escritor.

Apesar da formação em Letras, ele não ganha a vida com as palavras – a repetição mecânica é que garante seu sustento. E enquanto realiza um trabalho que em tudo parece inútil, a substituição por uma máquina parece ser o que lhe reserva o futuro. Assim, o tema da memória surge sobre outra perspectiva: aquela que poderemos ou não criar a partir do momento presente.

O texto guarda uma crítica ao empobrecimento de perspectivas que as tecnologias e o ensino produzem na sociedade atual, mas as digressões apontam para uma história que deseja, por caminhos próprios, alcançar o drama pessoal do narrador.

Uma ida ao parque como possibilidade de encontro com alguma lazer gera uma interrupção da rotina. Com esse gesto, torna-se possível para o jovem evocar as próprias memórias, mesmo aquelas que não incluem os amigos, devolvendo seu corpo adulto à possibilidade da criança que ainda se lança à experimentação.

É para retornar a sentimentos difíceis de serem traduzidos que o personagem narrador se vale da figura quase alegórica dos amigos Ricardo e Daniel e estabelece contrapontos a partir das diferenças entre ambos – um brilhava pela luz, o outro pela força, um era dia o outro era noite.

Nesse ínterim, recortes da própria infância, a perda do avô: a sensação antiga da morte como abandono. Para criar novas conexões, a escrita surge como forma de não mais enrolar-se nos lençóis como menino assustado dentro do próprio quarto. No mundo,  a escrita é descoberta, redoma.

Quando o personagem narrador encontra Joana (talvez um encontro com o desejo?) a interlocução alcança o tempo mais imediato. Novas possibilidades se abrem com a percepção de que para cada amizade para a qual nada mais há por ser dito e cujo destino é a despedida surgem outras. Para cada momento de felicidade deixado no passado (como sentir o cheiro de gasolina em um posto à beira da estrada em uma viagem na infância) é possível somar a perspectiva que se teve às palavras ditas sobre ele. A memória, aqui, deixa-se de se ligar aos fatos e passa a ser tomada como uma representação quase fugidia e sempre presente também do aqui e agora. Como estabelecer quais são os limites entre a memoria individual e a coletiva?

A escrita, em Ruínas, se apresenta como forma de dar a conhecer uma parte do passado e uma parte de si – indivíduo ou sociedade. A escrita como uma possibilidade de reconciliar-se com ruínas, portanto. As ruínas, então, deixam de ser os restos de um desmoronamento e passam a ser entendidas como reflexos, vestígios capazes de produzir sentido no tempo.

A quantidade de reflexões filosóficas e diálogos construídos pelo autor torna a leitura menos fluida em alguns pontos e cansativa em alguns trechos. Ainda assim, Ruínas é um romance filosófico que diante de um mundo capitalista e de excessos cumpre a proposta de tocar temas como os lutos da adolescência, a desigualdade social, o amor físico e ideal, a morte, a violência (doméstica e além muros) e as influências do ambiente sobre os indivíduos.

→ Leia também: Entrevista com Hugo Lourenço




• Hugo Lourenço, nascido em 1992, formou-se em Tradução e Escrita Criativa, tendo mais tarde tirado uma Pós-Graduação em Artes da Escrita. No mundo laboral tem trabalhado sobretudo como livreiro, mas também já desempenhou vários outros trabalhos, como operador de parque de estacionamento ou assistente de check-in no Aeroporto de Lisboa.


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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