Poesia em dois tempos

Ramiro S. Osório e Sebastião Belfort Cerqueira: dois poetas que se reúnem para nos entregar um jogo, ou seria… para nos convidar a um jogo? As raquetes de pingue-pongue que estampam a capa da obra mais parecem um par de pegadas. Elas nos convidam a entrar, mas não sabemos em qual terreno pisaremos; será terra-firme, ou talvez o mar?

Desde as primeiras páginas de RSO&SBC [Douda Correria, 2018], única certeza é a de que na vida não se pode jogar sozinho. A condição humana vai se assinalando como uma espécie de misto de ecos, ganchos, desdobramento – e mergulhos.

São duas as nossas mãos, formam um par. Mas duas também são as mãos quando uma das nossas liga-se à de outra pessoa; no cruzamento de duas subjetividades, o nascimento de um livro com nova combinação de genes: os de um poeta aluno de Barthes, 22 anos exilado em França, unem-se aos de um jovem doutor de 30 anos de idade, licenciado em Românicas. Esses dois poetas poderiam ser pai e filho, professor e aluno, mas são apenas dois homens que, no tempo presente, desafiam um ao outro a rebater palavras. É preciso dizer que nesse jogo o marcar ponto não tem a ver com vencer o outro, mas vencer junto ao outro: cumprir o que a cada um compete, a pontuar sentidos e suportar a enrascada das palavras dentro de si mesmo.

Ao pontuar meus próprios sentidos na leitura dessa obra, anoto à parte a palavra MAR. Quero entender o que resta dela após o meu duelo com as páginas. Debaixo d´água, em outras camadas mais profundas, o mar que é o inconsciente sem nunca deixar de ser a simples praia turística, litoral , a praia que é nada além de mar e areia.

Se num dos poemas Ramiro diz que não há fronteira entre o puro e impuro, estamos diante de uma escrita capaz de criar a imagem do mar; não apenas do mar-oceano com a visada das ondas a quebrar na praia. Mar no sentido inverso ao do espectador que só observa: somos conduzidos da areia para dentro, rumo aos empuxos, a vida como um nado, um ingresso do corpo no imenso – primeiro as canelas, depois os joelhos, até chegar a empreitada dos que nadam com água até o tronco e sem temer o submerso (o subverso, ou até o sub-verso?).

Os dois poetas, cada um a seu modo, jogam com o inglês e o francês, valorizam a sonoridade. Decompõem palavras, olham debaixo das conchas – investigam a sério. E, assim, vão ao encontro daquilo que flutua, nau-fraga-tas do rio Tejo. Esse que para tantos estrangeiros parece mar, mas é rio. À superfície de poemas que divertem e comovem em ondas imprevistas eu, leitora, afundo e rio, a brincar, também, com as palavras.

No horizonte, a vida que não sabemos se prossegue além dessa linha. Mas poetas, afinal, são aqueles que linha por linha desconfiam e fazem da desconfiança vaga-lume. O mar é matéria de transmutação, destinada a carregar e metamorfosear, nunca emudecer.

Pode ser mar, pode ser marte, pode ser morte; à dupla de poetas parece que só lhes interessa navegar. Assim podemos encontrar em um dos poemas de Sebastião:

Tenho estado entretido com a ideia
De aprender a ficar

Sem medo da náusea, estamos diante de um livro que se permite as idas e vindas dos significados. Afinal, nas palavras de Ramiro: quem tem boca vai até ao fim do mar.

O que encontro no livro faz vir à tona o poema “A flor e a náusea” de Carlos Drummond de Andrade, porque os poemas de Ramiro e Sebastião são poemas escritos sem a pré-tensão de serem bons poemas. São poemas que, mesmo tão bons, não se importariam caso não o fossem, aceitariam ser alucinação e espera. E por isso furam o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Durante a leitura desponta uma palavra desconhecida: badagaio. Socorrida pelo dicionário, descubro que o significado é chilique, desmaio, e, muito especialmente: “sensação ilusória de movimento do corpo ou movimento à volta do corpo”. Talvez isso que dá-nos o mar, o estar sobre o mar?

Sobre as páginas de RSO&SBC vou do lanchar-comer ao andar de lancha. Pela palavra lanchada ou lançada, no sentido de lançar como deitar fora ou arrojar, os poetas seguem cientes ou não de que arrojos são atrevimento, coragem, ousadia… e também os destroços de um naufrágio arrojados à praia. Um livro sobre subterrar sobre terrar sobre ter ar sobre teimar sobre ter mar.

Nos poemas que marcam as últimas páginas do livro os poetas por vezes despejam uma lista de palavras, como lançassem novos ingredientes à receita ou esvaziassem os bolsos. Às tantas, fala-se em espelho, num giro de 360 graus. E sentimos nos aproximar de um certo retorno ao ponto de partida. O mar traz o mar tira; martírio.

Nas palavras de Ramiro: quando é que vamos considerar esta conversa uma conversa acabada? E penso, então, que acabado é uma palavra que está para o que é completo, perfeito. Terminado é que mais se parece com aquilo que é findo. O poema e a troca poética acabam, acabam, acabam. E quando acabam? No máximo a ideia de que acabam quando terminam, mas será que terminam?

→ Leia também: Entrevista Ramiro S. Osório e Sebastião Belfort Cerqueira




• Ramiro S. Osório nasceu em Lisboa (1939), exilou-se em Paris durante 22 anos. Seguiu Barthes no Collège de France e formou-se arquiteto nos Beaux-Arts. Mais de 20 estadias ao Brasil, onde chegou a dar aulas, no Rio. 14 livros publicados.

• Sebastião Belfort Cerqueira nasceu em Lisboa (1987). Licenciado em Românicas, é também autor dos livros O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-Pé, 2011) e El Segundo (Edição do Autor, 2015)



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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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