Já diz o ditado: Quem procura acha!

Nunca me ative muito à profundidade dessa sabedoria popular. Talvez porque a frase quem procura acha! sempre chegou como represália às coisas que deixei de procurar, a soar sempre como um sádico tá vendo?.

Depois de muitos objetos meus desaparecerem nos armários de casa ou no acumulado das gavetas, não pude mais contar com a ajuda de minha mãe para procurá-los. Cansada de minha absoluta desorganização, ela reafirma que nessa bagunça que nem parece um quarto de moça, não moverá uma palha. Quando o objeto é reencontrado por mim após uma procura insana na qual me sinto um ladrão em busca de um cofre, a comemoração é berrar o mais alto: porra, achei! tava aqui esse merda! tava aqui!.

Essa comemoração sofre, quase sempre, uma intervenção (agora sim) de mamãe que, vinda do cômodo ao lado, passa diante da porta e afirma irônica: quem procura acha!. Nessas ocasiões tenho a impressão de que ela torce para que a coisa procurada tenha ido parar na dimensão paralela para onde vão os elásticos de cabelo e as tampas de caneta, na esperança de que eu, ao perder algo para sempre, deixe de espalhar papéis, roupas e maquiagem.

Todas as vezes em que encontrei as provas cabais, comemorei a tristeza e a desilusão com meu grito de quem procura acha!, por mais surpreendente pareça a factível possibilidade de se comemorar tristeza e desilusão.

Mas nem só de celulose, poliéster e mica são feitos os alvos da minha procura. Todas as vezes que desconfiei ser vítima de uma traição, fosse quem fosse o traidor, travei a mesma busca insana – nos armários do olhar, nas gavetas da fala, nos cantinhos à meia luz das evidências. Aquela necessidade de nomear a verdade que antecede o anúncio. Todas as vezes em que encontrei as provas cabais, comemorei a tristeza e a desilusão com meu grito de quem procura acha!, por mais surpreendente pareça a factível possibilidade de se comemorar tristeza e desilusão.

Nossos atos antecedem nossas ações, porque atos são, antes, vontades. Já não se quer um emprego ao pedir a demissão. Já não se está casado com o outro ao pedir a separação… E assim vai. Tudo quanto se transforma em palavra ou ação é, por isso, um achado, no sentido da preciosidade que é esse momento de revelação, assinatura.

O significado da expressão quem procura acha! está muito mais voltado ao sentido que damos à vida, às experiências e à relação com as pessoas. Nesse caso, o procurar está muito mais relacionado ao cativar e, portanto, os nossos achados seriam aquilo que nos chega como resposta ao nosso desejo no que dele houver de mais sincero e, por isso mesmo, pouco consciente.

Nossos atos antecedem nossas ações, porque atos são, antes, vontades. Já não se quer um emprego ao pedir a demissão. Já não se está casado com o outro ao pedir a separação… E assim vai. Tudo quanto se transforma em palavra ou ação é, por isso, um achado, no sentido da preciosidade que é esse momento de revelação, assinatura.

Não se trata exatamente de atrair o que se transmite ou tornar-se responsável por aquilo que cativar – é, tão somente, reconhecer que o transmitir ou o cativar são fluxos que extrapolam a razão. Por isso mesmo, talvez, é que o inferno está cheio de boas intenções. Existo onde não penso, disse Freud.

Quem procura no ritmo de uma caçada acha – meramente enquanto achismo e conjectura. Os encontros verdadeiros não exigem procuração – a vida não segue a burocracia dos cartórios e repartições; firmas outras não podem ser reconhecidas por mera semelhança. Na assinatura do querer, só o que for por verdadeiro.

Entre armários e gavetas, as procuras da razão oferecem sempre menos do que as razões da procura; pode apostar.

Ultimamente não guardo muita papelada – quero ter mais o que procurar. Quero a sorte de viver um tanto alheia. Faz um tempo que qualquer coisa, para me dizer respeito, precisa versar sobre algo mais do que meu nome e meus interesses; algo só me diz respeito quando faz questão. Viver um tanto alheia parece ser uma escolha possível para não gastar energia à procura do que não interessa – a vida é cheia de pistas falsas, iscas envenenadas e bifurcações que afunilam até desaparecer mato adentro. Juntei-me aos elásticos de cabelo e às tampas de caneta. Entre armários e gavetas, as procuras da razão oferecem sempre menos do que as razões da procura; pode apostar.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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