Oromance Quase tudo é risível [Ed. Benfazeja, 2016], de Cristina Bresser, tem como eixo central a história de Helena, uma mulher com um olhar positivo diante da vida, que já enfrentou a perda de pessoas queridas, o término de relacionamentos amorosos importantes, e um câncer.

A história de Helena, entretanto, compõe uma trama na qual os papéis pré-fixados, os tabus e alguns medos vão se tornando relativos ou, ao menos, relativizáveis. Essa talvez seja uma das características a permitir que o livro conte a história de muita gente enquanto pareça contar a história de uma protagonista bem definida. Personagens dentro e também fora da narrativa.

Ainda que grande parte dos personagens não seja amplamente caracterizada (e alguns até apareçam em momentos pontuais), é possível intuirmos algo sobre eles; e essa abertura ao complemento da nossa imaginação é a deixa para desconfiarmos: qualquer rótulo ou expectativa sobre desfechos podem ser frágeis.

O livro também percorre a fragilidade das relações: em quem é possível confiar? Ou: a quem é possível confiar nosso corpo, nossas expectativas, nossos segredos? Será que uma traição, um abandono e até um homicídio podem acontecer dentro do espaço familiar? Os laços capazes de manter as pessoas juntas (ou até mesmo capazes de mantê-las vivas) são diversos, porém sutis. E são criados a partir do amor, da amizade, do coleguismo, da contingência – e também do perdão. O perdão que em Quase tudo é risível não surge necessariamente associado à indulgência ou à empatia, mas à capacidade de fazer com que a falta do outro cumpra um papel perante as nossas próprias, sejam elas imperfeições ou privações.

Por meio de uma fotografia encontrada na casa de seus pais, Helena, Maria Helena ou Lena percorre caminhos que revelarão a essa personagem-narradora (e também ao leitor) uma postura ativa diante da vida e daquilo que ela apresenta e uma ponte entre o passado, o presente e a possibilidade de um futuro. A ideia de um retrato do passado que precisa ser lido no presente é, aliás, uma metáfora que transpassa o livro. Quantas são as formas de viver um encontro, um acontecimento? O que resiste ao tempo no panorama das imagens que fazemos dos outros e de nós mesmos?

Um dos pontos altos da obra é a forma como Cristina Bresser insere a voz de Helena em primeira pessoa nos momentos em que a possibilidade de que essa personagem fale torna-se decisiva para que o enredo avance adentrando em territórios novos, nos quais não se sabe o que virá. Esse não saber o que virá, causado por uma doença, um rompimento, uma revelação ou uma reviravolta é causa de desistência para alguns personagens – enquanto para outros é a graça da coisa, da coisa de estar vivo e não recuar. E por falar em recuo, a trama avança e recua no tempo; episódios como um bailinho, uma travessia de ferry-boat ou um perfume marcante funcionam como pontos de apoio na apresentação daquilo que comparece nas entrelinhas.

Mesmo nos momentos mais tensos da narrativa uma rotina subsiste: trocas de mensagens, almoços, uma ida à academia. É possível seguir adiante se no decurso das grandes lutas – e entrelinhas – for possível fruir de pequenos prazeres. O encontro com a comicidade durante diálogos tensos transmite a sensação de que a vida pode ser uma grande investigação (tal como a investigação criminal que encontramos no livro!). A sorte (ou o azar) é que nós, na posição de delegados, vítimas ou testemunhas, somos sempre personagens destrambelhados.

Quase tudo é risível é, portanto, uma história sobre escolhas e perspectivas. Mas também sobre o que é possível fazer com aquilo que não escolhemos: doenças, traições, relações que nos antecedem junto às pessoas com quem nos relacionamos. Entre fatos banais, grandes vitórias e tragédias, tudo é matéria de vida – e de providência, material ou divina.

A multiplicidade de pessoas e histórias que cruzam o caminho da personagem Helena são uma apresentação particular do que é comum a todos: pessoas se cruzam todos os dias, e esses encontros oferecem alívio mútuo ou uma nova perspectiva.

Sem romantizar experiências, a autora passeia – e nos leva a passear – por espaços da cidade de Curitiba e do litoral do Paraná, com direito a um pulinho na Europa e uma voltinha na Argentina. Mas o ponto de chegada, se possível, talvez seja paradoxalmente esse retorno ao princípio: quase tudo é risível. Não porque haja coisas das quais não se possa rir, e sim porque nem sempre somos capazes de nos libertar de certa rigidez a nos impedir de nos relacionarmos com o ridículo no melhor sentido dessa palavra.

O surgimento da palavra ridículo faz lembrar do que disse Álvaro de Campos sobre as cartas de amor (“todas as cartas de amor são ridículas”) e também em trecho de seu Poema em linha reta (“eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo…”).

Quase tudo é risível é um romance que, desde o título (e, portanto, desde o princípio), dialoga muito bem com a perspectiva da galhofa. E é, por isso, um convite a que o sofrimento seja recebido como um blefe e o fracasso como a escorregadela numa casca de banana. Risível é uma palavra que também se relaciona com a palavra escárnio que, por sua vez, pode encontrar eco nas ideias de desacato e desdém. Gracejar, não dar importância, iludir a vigilância, seduzir, não recear.

Helena desacata a morte, desdenha a posição de vítima, não dá importância ao que não lhe faz bem. Uma mulher que baixa a própria guarda diante das pessoas e dos acontecimentos e nos seduz com a questão: em que medida a nossa capacidade de sobreviver depende da capacidade de sermos – ou de ser a vida – um objeto de troça?

→ Leia também: Entrevista com Cristina Bresser




Cristina Bresser é formada em Comunicação pela UFPR e proficiente em língua inglesa. Premiada diversas vezes em concursos literários, tem publicações em revistas/jornais literários do Brasil, Austrália, USA, UK, Grécia e Índia. Seu segundo romance, “Hand Luggage”, será lançado em 2018 pela editora canadense Ricky’s Back Yard/Czykmate Produtions.



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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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