Na mesa de trabalho ao meu lado está sentado um homem jovem. Não instala sua parafernália tecnológica, organiza seus muitos papéis.

Além do estojo de pano de onde tira canetas, lápis, borracha e uma régua, abre uma embalagem plástica cheia de canetinhas coloridas. Aquelas de tinta molhada cuja cor, a depender da firmeza do pulso, atravessa o papel.

A mesma embalagem que serve de guarda tem uma lingueta que, dobrada, a faz montada à disposição: todas as cores em pé, a serem pinçadas como batatas fritas. Por último, o essencial: destrava e abre as argolas do ficheiro para tornar disponíveis as folhas do separador laranja.

Prostrada em frente a uma tela me sinto como parada diante de uma televisão enquanto espio invejosa esse vizinho que parece armar o palco para uma brincadeira.

Sou criança posta diante da TV para não incomodar os adultos. Ele, corajoso, é o menino criado na rua: dá serviço aos braços, produz sons mecânicos e inventa uma nova ordem.

Quase paralisada, movimento um dedo, sempre o mesmo, o indicador. Bate na tecla, sempre a mesma, a de atualizar.

Mas a caixa de entrada sempre vazia. E os emails lidos ainda não respondidos. Só por hoje ou pela semana. Quem sabe assim durem mais, pudessem se tornar mais reais pela demora. E caem no esquecimento.

Os papéis dele não. São companhia e tarefa, enquanto a minha tela é adiamento. Como farinha, açúcar óleo e ovo de um lado e de outro apenas um livro de receitas. A gente tem desaprendido aquela história de botar a mão na massa.

A vida é mais fácil de usar quando exige alquimia, nem que seja testar a combinação duvidosa entre o verde e o roxo que ele usa para sublinhar uns parágrafos.

Lutar contra a régua que escapa e quase faz a letra cair no fosso do sem pauta. Suportar a bundinha de todas as letras saindo quadrada se não puder usar a linha física como simples norte e, com dedos pesados, fazer da régua a ancoragem do que se teme possa, sem ela, ficar meio torto.

Se eu escrevesse à mão a minha caligrafia subindo e descendo morros estaria comigo enquanto durmo. Se eu escrevesse à maquina, ela, ao meu lado, na escrivaninha, a espreitar-me na cama e com os papéis na boca à espera que eu trate dela; como os gatos quando arranham a porta e sobem na cama as 7 da manhã.

Eu nunca tive um gato porque eles são traiçoeiros e o que apareceu filhote na minha casa e subiu no meu colo e ligou seu motorzinho junto à minha barriga eu não deixei que ficasse. Eu também nunca tive uma máquina de escrever porque um dia comprei uma pela internet e o dono dela ao entregá-la disse que pertencera à sua falecida mãe e com uns olhos tristes falou como quem pede: que você escreva coisas muito felizes.

Eu nunca soube se o muito felizes dele queria dizer coisas exitosas e espirituosas ou apenas o contrário do triste, do melancólico. Não percebi que a tristeza não era da máquina era dele em se despedir dela, não a máquina, mas a mãe de quem tinha sido a máquina que ali era dele e passaria a ser minha.

Então não aguentei. Não dormi a noite inteira e a deixei à venda no sebo já no dia seguinte. Porque parecia felina a tarefa de impor as minhas palavras à fita. E porque a mãe dele pareceu vir junto e mãe já tenho a minha e mãe é bom é lindo é tudo mas já basta uma com histórias desconhecidas a nos anteceder.

Eu queria uma máquina de escrever sem mãe, uma máquina de escrever virgem e um gato que não fosse traiçoeiro? Talvez seja por isso que esteja aqui nos meus ensaios diante de uma tela em branco, realidade e abstração, enquanto escuto o cochicho da canetinha nas mãos dele, aqui e agora, a riscar o papel…

Tão bom quanto batata frita.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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