O encontro com Paulo Venturelli não é evento único, é parte de uma construção, meio narrativa experimental; é capítulo de uma história cheia de fragmentos, na qual o personagem principal vez por outra aparece como figura sedutora, convidativa.

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Explico: faz uns anos, ao espiar imagens do projeto “Sujeitos Leitores” realizado pelo colégio Medianeira, topei com vídeo no qual um tal Paulo Venturelli dá algumas palavras sobre sua experiência enquanto leitor. Gostei.

Noutra ocasião, sabe-se lá por qual razão, de novo surge menção ao professor. Lecionou também nas Letras da UFPR. Hum. É quando consulto meu irmão, seu ex-aluno, para colher algum detalhe sobre quem é esse que eu vi. Sem muitos pormenores afora um por causa dele conheci Hilda Hilst, mantive a reverência. Porque gostei do que ouvi.

E gostei outras vezes.

De tanto gostar, depois de uma noite assistindo Paulo – agora apenas Venturelli – no projeto Um escritor na Biblioteca promovido pela Bblioteca Pública do Paraná, me ofereci [querendo que ele me oferecesse a possibilidade de visitar sua biblioteca]. Orelhas em pé resolvi, por que não?, nomear um querer: Venturelli em sua Biblioteca. Mais tarde, ele mesmo confirmaria a licitude desse meu deslizamento, afinal Admirável Ovo Novo parte de Huxley que por sua vez encontra eco na última peça de Shakespeare. Em literatura a gente sempre surfa nas deixas de um outro – assim é que é.

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Querendo dar continuidade a esse jogo do uma-coisa-leva-a-outra e assim vai, chegamos pontuais ao endereço combinado. Tocamos o interfone mas a ansiedade fez com que nos apresentássemos quase à porta dele, numa carona com vizinhos, portão-aberto. Essa entrada antecipada por um outro-acaso enquanto esperávamos que um nome próprio nos abrisse a porta tem algo que ver com Paulo, quer dizer, com Venturelli. Porque tenho a impressão de que para ele a leitura sempre foi essa porta privilegiada; a diferença capaz de antecipar oportunidades que, de outro modo, chegariam mais tarde e sem a magia que é a palavra quando se atravessa à nossa frente, com certa dose de susto.

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Causa certo susto perceber-se dentro de um apartamento que não é um apartamento residencial, sabe? Mas até nisso Venturelli é tinhoso. Na imaginação do visitante fantasmam a cama, o guarda-roupa, a mesinha de cabeceira que poderiam estar mas não estão. No nosso imaginário a ideia de um apartamento é estável – e o apartamento-biblioteca de Venturelli desmancha essa espécie de certeza porque se trata de um real que nos remete à ficção. Ou seria de uma ficção que nos remete ao real? Bem, o fato de haver na sala de estar à porta de entrada um jogo de sofá e uma televisão, talvez seja jeito de amaciar um primeiro impacto. Mas, quanto a mim, segui cômodo a cômodo atada à fantasia do porvir: embora soubesse que seriam livros, talvez esperasse outra coisa. Não sosseguei antes de constatar o que era feito da cozinha. Estaria lá?

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Ora, estava sem estar. Estava porque a imaginei. Há outro jeito possível de as coisas existirem? Na visita ao Venturelli, a crescente sensação de que as coisas são a depender do lugar onde as colocamos, a depender de nossa capacidade de podermos imaginá-las. Disso, cresce também uma ambivalência gostosa ainda que desestabilizadora. Mas, sacudir é o que Venturelli gosta. Foi assim toda-vida. O que sempre quis nas aulas subversivas dos tempos do Sion ou Medianeira foi colocar a garotada pra pensar. E se numa turma de cem apenas um, unzinho, estivesse afim, já tava valendo!

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Para Venturelli não importa quão grande seja a ousadia da missão: como humanos não podemos mesmo abarcar a totalidade. Faz-se, apenas. O quanto esse fazer conseguir alcançar é suficiente. Porque a palavra, ela mesma, nunca é todo mas é toda-via.

Sobre essa possibilidade de construir uma vida – e uma literatura – feita de partes, lembro do Venturelli-pai. O pai que nasce precário, quase ele mesmo menino, e que quebra sua casca junto à casca do filho, um pouco mais crescido. Um aposta no outro porque ali supõem palavras. Mas existirá, afinal, outro modo de ser pai ou filho? Existirá, afinal, outro modo de ser?

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À nossa frente aquele homem é. Um senhor comum no corte de cabelo, nas vestes, no fato de ter um cão-de-companhia. Um professor casado, aposentado, com um currículo respeitável. Essa aparência ordinária é cortina de fumaça para o que há de extraordinário ali. Perscruto, então, uma confissão hippie, a construção de um tipo transgressor… mas Venturelli quando moço não foi mais que um fumeiro semanal. A transgressão dele desde antes é tal que sequer permite atender ao estereótipo do que seja um grande escritor.

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Sabe de uma coisa? Um grande escritor talvez seja aquele capaz de conservar a pureza de uma criança. E Paulo me inspira um terno quando – para a capa de um caderno de anotações mole – recorta e cola pequenas fotografias dos escritores que ama e, com elas [ou eles?], monta um relicário capaz de reatualizar todos os dias seu lugar no mundo: o lugar das palavras. Venturelli também tem o divertimento de um caderno de rua, para acolher as notas tomadas durante caminhadas, viagens de ônibus…

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Mas, quer um exemplo escrachado? Pense comigo: você está em casa, dentro da sua unidade condominial… Está no seu andar, digamos que o terceiro, entre tantos pavimentos. Está no seu apartamento, o de número trezentos e tal dentre tantos apartamentos. Mas você, ao contrário de todos os seus vizinhos, tem uma chave extra. E essa chave não é a da área de serviço, nem uma cópia da sua chave da porta da frente. Essa chave é uma chave-outra, de quem tem um cômodo extra, quer dizer, um apartamento extra. De quem, enfim, tem um extra. De quem, enfim, tem um apartamento – agora do verbo apartar, mesmo. Um lugar difícil de explicar, que não está tão perto quanto um quarto, nem tão longe quanto um fora. E que, então, é fora e dentro, dentro e fora, num jogo sensual. Algo como um paralelo, uma porta-falsa. E tendo esse outro-lugar, em fração de minutos, basta querer e você se descola do seu sofá para lá. E então: tem coisa mais lúdica?

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Mais lúdica do que a construção de Venturelli [homem, escritor, apartamento], talvez seja a metáfora: é justamente a partir da porta-falsa que ele vai ao encontro daquele tal portão-aberto, de modo que verdadeiro e falso podem ser nada além de narrativa. Lembro, então, do livro que Venturelli confessa ser o preferido: Dom Casmurro, de Machado de Assis que tem uma arquitetura que nossa!

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Segundo conta, a leitura dessa obra – lida mais de meia duzia de vezes – é sempre uma nova viagem. O que instiga não é o drama de verificar se Capitu traiu ou não traiu… Porque o que interesse em matéria de literatura, lembra?, não é o todo, é o parcial. Também nesse caso emblemático a ideia não é extrair qualquer verdade, mas deter-se diante da epifania que é, em meio à dúvida sobre uma traição, perceber que mesmo amando o ser humano tem em si a potencialidade para trair. O ser humano, tendo a língua como massa de manobra, é parcial – e falhado.

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E por falar em falha, penso no divertimento de Venturelli quando num riso malicioso [ou lúdico?] comenta suas experiências e interlocuções com as lentes da psicanálise. A fala dele, toda ela provocativa, quer mobilizar em nós algo que esteja dentro e fora – dentro da gente, fora da razão. A fala dele, toda ela uma chama que se acende porque supõe sejamos nós, ouvintes, algo como querosene. Querosene, essa coisa líquida empregada na iluminação. As palavras de Venturelli, repito: a chama, não o combustível. A veemência, a chama, partem dele – mas o candeeiro, de fazer luz, somos nós. A certa altura de nossa conversa, Venturelli faz uso de uma expressão que fazia parte do vocabulário de meu pai mas que, hoje, não chega a ser de uso corrente. A expressão é: em polvorosa. Ficar em polvorosa, caso alguém aí não saiba, é ficar em grande agitação. Então, na rotação das palavras, é isso que temos: a polvorosa de  Venturelli transita em mim como pólvora, substância explosiva sólida, para nesse texto chegar a tentar ser traduzida em palavra que designa substância inflamável e líquida: querosene.

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A literatura para Venturelli tem esse quê de uma-coisa-leva-a-outra capaz de produzir mais do que uma ordem, uma verdadeira organização em meio ao caos. E se viver é todo dia – e se o caos é todo dia – há que se escrever todos os dias. Mas que a urgência não seja confundida com pressa.

Assim faz o professor: primeiro um fluxo de ideias no papel, depois uma caligrafia mais arranjada e, à seu tempo, a cerimoniosa transcrição para o computador. Mas que o ritual não seja confundido com uma repetição ou algo previsível: no ato de escrever é que se descobre o que se tem para escrever.

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Venturelli, então, talvez seja um grandessíssimo gerúndio: não é, tá sendo.

E se essa noção de transitoriedade alguma vez o deixou muito pra baixo, hoje é injeção de adrenalina: é preciso aproveitar o tempo que se tem para legar.

Em matéria de transmissão [esse ligar] de nada vale a ilusão da quantidade. Há que se medir o êxito pela degustação. Degustação, por que não? – a construção de uma relação com a literatura se trata mesmo de provar e tomar gosto por algo, testar sabores – e é preciso que haja fome. Por isso é que quando se pensa na formação de leitores é preciso tangenciar palavras como estímulo, mediação – apetite. Passar de uma amolação lida como a chatice e maçada das tais leituras obrigatórias para uma amolação outra: aquela da afiação. E que esse dar fio possa em alguma medida significar dar linha, dar linha até finalmente pescar jovens mais aguçados, amplamente sensíveis, capazes de, eles mesmos, fazerem o corte. A literatura está para a psicologia, a geografia, o urbanismo, a política. É um jeito de aparar arestas e modelar o mundo.

Mas não existe início fácil. No início da alfabetização a leitura é uma tarefa difícil e se não houver teimosia, o potencial leitor desiste fácil-fácil.

Aliás, história que ilustra isso, colhi lá mesmo, na biblioteca do Venturreli: teve um tempo em que ele não queria mais saber de cachorro. Porque os cachorros se vão antes da gente e a gente fica tão triste… Mas houve um dia, como são todos os dias nos quais a palavra é antecipação, que em resposta à teimosia da esposa, Venturelli disse: e se ele se chamasse Moreno? A palavra que batiza, se não for início-puro, pode contar: é recomeço!

A hora do Moreno chegou e, depois dele, à seu tempo, veio o Nino – novo recomeço, nova palavra-viva. Nino, o ciumento. Quando as visitas chegam ele quer colo. A gente só não sabe se pra ficar à altura das bocas e participar do bate-papo ou se pra fazer-um com o Venturelli – o Nino, que também sabe dessa coisa divida que é ser, que também sabe dessa divisão a causar o desamparo que a gente se esforça tanto em amainar.

Venturelli me faz crer que o escritor muitas vezes é isso: essa figura capaz de fazer amainar as distâncias entre o que somos e tudo mais que poderíamos ser. Madrugada de Farpas, como um imã, vai também como parte desse jogo.

Se faço menção à dita literatura adulta é porque, acredito, a função de Venturelli não é prolongar infâncias – já dissemos que essa é uma parte da vida um tanto difícil na qual vamos montando as palavras na busca desesperada por sentidos. A função de Venturelli é tão somente prolongar o lúdico. E se afirmo assim, de modo direto, é porque ele o fez em mim. Explico: dentro do apartamento-biblioteca, porta de armário aqui, porta de armário acolá, antes da partida quando quase nada se espera, ele me presenteia com alguns exemplares de seus livros, vários. Sem consultar quantos restam antes de optar pelo gesto, ele não teme que faltem para alguma futura ocasião. Porque o prazer de fazer circular as palavras, para ele, é hoje. Assim como é hoje, para mim, a chance de fruir o prazer das coisas ganhadas, das coisas-surpresas, saídas de um vazio; como saem coelhos do fundo das cartolas, as alianças do fundo das caixinhas estofadas, as pérolas das ostras.

É de mágicas, casamentos e dores que se trata essa história.

E o negócio das ostras, ah!, sabe de onde arranjei?

Na capa de um de seus tantos blocos Venturelli colou um recorte cujo texto começa assim: “Ostra feliz não faz pérola”. É uma citação de Rubem Alves, que o Venturelli, atacando de tradutor, encerra: Gente feliz é besta!

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Venturelli: escrevo esse texto com medo de que seja um texto besta e por isso corro o sério risco de que ele seja mesmo. Mas esse texto – você precisa saber – é uma simples resposta ao texto que você escreveu para nós naquela noite de quinta (é mole um trocadilho desses a essa altura?). Tomo a liberdade de escrever esse texto como resposta pois quem originalmente disse que um texto é resposta a outro texto – de Ulisses o mito grego, ao mito Joyce – foi você!

Com essa batata quente batendo fervura na Grécia, chego ao percurso de fim. Mas a diversão não termina. Sei que há possibilidade de conversão nesse caminho. Falo da rotação, do giro, da curva suave, feita a partir de uma certa missão sua, a conversão pela literatura – essa sim, percurso de grandes revoluções.

Se nada disso fizer sentido, ainda tento como saída um grand finale – propor ao leitor que tenha mente duas coisas (a primeira fruto da Ciência, a segunda, a fala de uma professora do Venturelli-menino, da qual sua iniciação nas letras é fruto):

* Ler traz vitalidade para o cérebro;

* “Quem quiser ser inteligente na vida tem que ler pelo menos um livro por semana”.



  • Foto: Paulo Andrade
    Verbo: Andressa Barichello
    Fotoverbado: Paulo Venturelli
    Agradecimento: Luci Collin

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    Sobre o Autor Andressa Barichello

    Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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