Instigada pela polêmica booktuber me ocorreu a pergunta: quanto as redes sociais e as tecnologias nos convocam cada vez mais a colocar o próprio corpo em cena?

Comum a todo booktuber é ter de colocar a própria imagem como parte, por vezes decisiva, do maior ou menor sucesso que o seu canal terá. Não são apenas as resenhas e indicações que precisam cativar, é o quem, em suas especificidades de voz, cara, gostos, corpo, trejeitos.

Nesse ponto, não sei se uma das bases da polêmica é, como foi muito apontado, um conflito geracional ou certo elitismo. O que parece haver é certa dificuldade (de todos “os lados”, de todos nós) em suportar que cada um tem uma forma de encarar essa demanda pelo corpo, como puder, quiser e estiver disposto, também para construir um trabalho que tenha a literatura como eixo.

Experiências como ler Clarisse por anos e um dia topar com aquela entrevista dela na TV Cultura e sentir profunda confusão (ou desilusão?) ao ver seu corpo em cena (ou o que ele encena) são e serão cada vez mais raras. Aliás, como em todas as outras áreas da vida, a literatura (seja quanto aos escritores ou quaisquer outras partes da “cena literária”) anuncia (e já faz tempo) que o apelo a uma confluência entre o “quem” e a obra se estreitam num ciclo no qual o “quem” alimenta a notoriedade da obra e a obra alimenta a notoriedade do “quem”.

Hilda Hilst, sacadíssima, soube fazer-nos pensar sobre como o “ser reconhecido” por qualquer trabalho dentro do próprio tempo, qualquer seja esse tempo, depende de saber (ou poder) jogar algum dos jogos desse tempo.

Quando depois de 40 anos de carreira e com peças inéditas lança o seu Caderno Rosa, ela diz mais ou menos assim numa entrevista à TV Cultura: “é uma banana que dou aos editores, ao mercado editorial (…) tive um excesso de seriedade e não aconteceu absolutamente nada”(…) “o escritor deseja ser lido, essa é a meta. Não adianta nada ser excelente (…) eu espero que dessa vez me leiam no bonde e nos banheiros também”.

Hilda também diz que enquanto os críticos afirmaram ser aquele um trabalho mal-escrito e repugnante, as pessoas gostaram muito e os editores também.

Corta pra 2018: quem não tiver talento, interesse ou identificação para buscar público para seu trabalho via canais como o Youtube, em alguma altura há de sentir alguma inveja (pelo menos despeitinho?) por quem consegue dispor-se para a coisa. Afinal, quem, desejoso de trabalhar com literatura, não gostaria de receber livros em sua caixa postal, ser convidado para eventos e até, quem sabe, ter melhoradas as chances de publicar material próprio? Para ser considerado alguém na noite é preciso, cada vez mais, ser alguém nas redes… Talvez publicar o seu próprio Lori Lamby, como aponta o gesto de Hilda?

Ao lado dessa invejinha de quem por qualquer motivo sabe que não será youtuber jamé e que, portanto, não gozará de tais “promessas” no horizonte já tão difícil dos livros, não descarto que a resistência dos que se recusam colocar o próprio corpo em cena seja também coisa que incomoda muito. Porque colocar o próprio corpo em cena é de alguma forma fazer uma renúncia. Nem que seja porque, subjetivamente, ser lido por milhares de pessoas talvez tenha uma natureza simbólica diferente de ser visto e reconhecido por milhares de pessoas; e conquistar a segunda é em alguma medida abrir mão da primeira. Ao mesmo tempo, recusar a segunda pode ser conservar a esperança de alcançar a primeira. Isso vale para escritores e aspirantes e também críticos e aspirantes.

Talvez o número crescente de booktubers derive do bom traquejo e do gosto pelas novas mídias, e também da recompensa narcísica que as redes oferecem em doses maiores para aqueles que, além da palavra, colocam o próprio corpo em cena. Mas de certo que também há os booktubers para quem a escolha por essa linguagem é espécie de sujeição: preço que se paga para dar visibilidade ao próprio trabalho.

O preço por estar dentro ou fora das redes é sempre alto. Literatura, bem antes de qualquer mercado, é desejo; e bancá-lo cobra sempre um preço alto, resta escolher qual se pode ou qual se quer pagar.

No ar, a sempre ilusória ideia de que o outro tem um gozo a mais, e eu um gozo a menos – de que o corpo do outro ocupa ou quer ocupar um espaço maior que o meu na cena. Enquanto nos lançamos em uma discussão sem fim para concordar ou discordar de uma posição, mesmo com argumentos mais racionais parece que, no frigir dos ovos, o que se quer tentar assegurar, em toda parte, é não haver demérito.

Mas Hilda antes e depois – em razão e também a despeito de Lori Lamby – foi e é genial. Isso já devia ser o bastante para apaziguar ânimos. Foi também ela quem disse: “A verdadeira natureza do obsceno é a vontade de converter”.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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