Uma construção sobre o público e o privado, sobre desejo e renúncia, sobre naturalidade e interdição, sobre razão e instinto, sobre os dilemas da vida em sociedade e, por que não, sobre um inusitado encontro entre ex-amantes, cada qual numa nova relação.

 

Eram bichos de sangue quente;
bichos
sem pai nem religião

Eram bichos;
desses que conversam-se por gemidos,
E nem se acham sabidos do que fazem
Se fazem corpo; paixão

Até que um dia
vieram eles…

Eles!
a instalar leis, regras,
pudores

Renúncias,
Deveres
Temores…

E agora os bichos aí:

Domesticados, vestidos…
Sentados à mesa
sob o estralo do chicote que retesa
só falta mesmo aprender a comer
De garfo e faca

Se já aprenderam a submeter-se à palavras
A não ser tão reféns de certas pulsões escravas…
Neste entreolhar-se tímido
Que não mais reconhece
qualquer coisa de selva, por mais pequena…

Mas já repararam como
estes bichos de circo
Nos causam sempre certo orgulho
E alguma pena…?
É porque sabemos: Jamais perdem os seus instintos.

Eis, talvez, o dilema pelo qual encontram-se
Uns aos outros sempre
sob a interdição furtiva do público:
Mesmo quando rendidos sob a lona,
indiferentes à toda soma,
Comportados como semi-gentes
É certo que devem nunca
ser trancados dentro de uma mesma jaula.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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