Gostaria de pensar alteridade e diversidade como mistério. Mistério que, por alguma fé, pode ser revelado. Fé no outro, fé na gente. Eu quero falar da gente como um corpo que aceita homeostase. Eu quero falar do outro como aquele que traz o que eu não sei, que traz aquilo que eu não sei que traz, que eu não sei o que é.

Muitas vezes quando somos procurados por alguém, nos perguntamos: o que essa pessoa quer de mim? E é como se começássemos, imediatamente, a cercar quem somos e o que temos ou talvez tenhamos – como se estivéssemos, até, em vias de perder algo. Sermos procurados quase nunca soa como dádiva. Não se faz o cálculo da troca, menos ainda o do mero e indolor empréstimo. Talvez porque o inferno esteja cheio de boas intenções. Ou porque é sumário demais o julgamento que fazemos sobre a conveniência de permitir que sejamos alcançados. Talvez porque em tempos de carência excessiva a gente mesmo e o outro passam a exigir mais do que a benignidade de uma relação suporta. Talvez porque nos julguemos especiais demais, detrás dos altos muros do individualismo.

O estranho que chega é sempre o estereótipo dos vendedores de assinatura de revista em saguão de aeroporto. Nada partindo dele pode ser grátis – nada é verdade e tudo é engano até que se prove o contrário. E entre o desconforto de render-se a um equívoco e o esforço esperançoso de uma escuta, a pressa nos diz para seguir adiante com os mesmos passos e com as mãos vazias.

Tamanha dificuldade de acesso, sempre tão cheio de ressalvas que o outro está quanto a nós ou tão ávido em suas tentativas de nos engolfar em seu querer, torna comum que sucesso nas relações interpessoais e na conquista daquilo que se deseja, não coincida sempre com boa intenção, seriedade e compromisso naquilo a que uma pessoa se propõe a oferecer.

A autoproclamação está na moda. Crescem os especialistas. Cresce a turma do “bom conselho”, do “cola em mim que você passa de ano”, dos “dream makers”. Precários que somos, assustados sempre pelo olhar de quem nos olha, preferimos nos juntar àqueles que balançam uma isca para nos fazer brilhar os olhos e nos tirar da toca. E o que tanto temíamos, às vezes acontece: de tanto não querermos o engano, damos de cara com ele. Investimos pouco em relações genuínas que possam viver num território calmo, a meio caminho entre a amizade-para-toda-hora e o mero networking. Porque a palavra de ordem é seguir ou ter seguidores. E a palavra “seguir” está relacionada a uma continuidade, a simpatizar. Supõe, sempre, alguém à frente. Supõe que devamos ser ou ter admiradores, quando deveria bastar que tivéssemos parceiros que nos reconhecem por algum motivo que é nosso e também deles.

A autoproclamação é uma boa estratégia para o ego. Desfiar sobre as próprias qualidades pode ser muito confortável. Filiar-se aos autoproclamadores, mais confortável ainda. Porque enquanto os primeiros vendem uma imagem, os últimos, ao comprá-la, firmam um pacto com as coisas que não precisam ser, bastando que pareçam ser. Quando admito que o outro conceda a si mesmo uma posição e a anuncie publicamente sendo isso o bastante para que eu o autorize, dou a mim mesmo o aval para performar no campo dos discursos vazios. Parece mais fácil nos autorizarmos a ser quem não somos do que nos autorizarmos a ser quem somos.

Nós, que tanto criticamos sistemas de ensino no qual as escolas e os professores aprovam alunos que não teriam notas para seguir adiante, geralmente procuramos performar na vida como estes alunos, quando preferimos nos ligar a pessoas que não questionem o mérito dos méritos que achamos que temos, tampouco questionem as posições que achamos que ocupamos ou desejamos ocupar na vida. Talvez se brade tanto em prol da meritocracia por ser ela o engodo que nos permite fazer sempre menos ao invés de nos obrigar a fazer sempre mais. Vivemos tempos nos quais pagamos às pessoas (concreta ou simbolicamente) para que digam o que desejamos ouvir. E há especialistas nisso.

Saber “se vender” não é nenhum crime, mas quando a forma pode valer mais que o conteúdo, é preciso considerarmos a necessidade de uma nova perspectiva de olhar ou de escolhermos novos critérios para nos oferecermos às pessoas ou ao trabalho, assim como revermos nossa visão a respeito de como escolhemos amigos e parceiros para relações de toda ordem.

O que o outro traz para mim só pode ser o que não espero trata-se de começar a perceber que talvez seja preciso adotarmos uma postura mais neutral e, ao mesmo tempo, mais curiosa sobre as pessoas que pintam na nossa jornada. Esse é um modo de nos entendermos mais como parte de um coletivo maior, que ultrapassa a vizinhança e o nicho dos contatos de um grupo homogêneo.

Na prática, seria mais ou menos como aceitar aquele convite para uma festa na qual não se conhece ninguém e, a partir desse lance no escuro, encontrar pelo esforço da palavra e do contato as parcerias que procurava. Somos habituados ao pensamento binário de que se fulano é vendedor de couves, é somente a respeito do assunto feira que podemos tratar com ele. O que acontece, e muita gente não se deixa perceber, é que o fulano das couves, pode ser o fulano que toca violino em festas de casamento e cuja irmã faz convites lindos e cujo pai conserta máquinas de lavar e cujo irmão é advogado e cuja tia é administradora e cujo filho, ora, ora: é solteiro, lindo e gente boníssima.

Basta conversarmos um pouco com as pessoas da nossa cidade, trabalho ou família, para descobrimos que conhecemos alguém em comum. As redes sociais não nos deixam mentir sobre esse fio invisível que, por algum caminho desconhecido, conecta, na vida real, muitas histórias.

Deixo, então, o convite a que ao invés de superestimarmos nossas habilidades conquistando seguidores e seguindo àqueles que, sabe-se lá por qual trajetória estão em destaque, sejamos mais modestos a respeito de nossas próprias competências, dando um tempo no lero automático que usamos para arrebanhar uns aos outros. Optemos, quem sabe, por valorizar o que o outro faz de bom e deixar que, quanto ao nosso trabalho ou nossas qualidades, o reconhecimento venha silencioso e produza os frutos que tiver de produzir. Que o nosso corpo possa ser uma moeda a passar de mão e mão e circular livre sem a pretensão de ser, ele mesmo, comprado.

Deixo o convite a que percebamos que o verdadeiro sucesso é construir conexões autênticas a partir daquilo que realmente vivemos e do que espontaneamente os outros enxergam em nós e nós enxergamos neles. O que o outro traz para nós só pode ser o que não esperamos. É pela surpresa e pelo imprevisto que temos a chance de nos encantar pelas pessoas e reconhecê-las; é quando lhes damos a chance de mostrar que são capazes de fazer mais do que poderíamos imaginar pelas nossas vidas e nós pela vida delas.

 
Foto & verbo: Andressa Barichello

Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>