A primeira vez que vi Marcos Neguers ele cantava Tim Maia. Que voz! Era sábado no bar Ornitorrinco e já passava da meia noite quando, depois de todos os bis possíveis, a banda teve de encerrar a apresentação, debaixo de chororô do público.

Desde os quatro anos de idade é que o homem canta, o que talvez explique a intimidade com o palco. Filho de pai músico, um dia, em Iracema do Oeste, o menino participava de uma espécie de festival-comício quando ganhou o equivalente a cinquenta reais por vencer um concurso musical. Pensou em gastar o prêmio com um lanche na padaria, mas percebeu que o valor rendia também para uns brinquedos ou roupas. De posse daquela pequena fortuna a impressão de ser possível viver de cantar? Simbolicamente, é possível dizer que o prêmio rende até hoje: o prazer daquele evento favoreceu o reconhecimento de que, antes do dinheiro, outra coisa muito boa e ainda mais importante era sua: uma voz.

Com ela, Marcos seguiu carreira. Foi crooner de bandas de baile. Em Foz do Iguaçu integrou a banda Visão Alternativa. Aliás, ao dizer o nome dessa que foi sua primeira banda “séria”, ele faz uma pausa e sorri, pensando talvez em qual significado já tem, teve ou pode vir a ter esse olhar implícito e desviante contido nas duas palavras que a batizaram, palavras que sinalizam a possibilidade de mais de um olhar e caminho.

Sobre ramificações: nos anos 2000 foram tantos os deslocamentos a trabalho para Curitiba que Marcos resolveu se mudar para a cidade. O movimento do desejo abrindo filiais em novos territórios – e se dividindo em outras frentes. Entram aí a faculdade de Letras em espanhol e Dom Bernardino, o alfaiate. A aprendizagem de Marcos no feitio de roupas também data da infância: desde os oito anos, quando recebeu sua primeira caixa de costura. Na família dele, fato comum que os meninos arranjassem suas roupas, cuidando dos próprios ajustes e remendos; conhecer e lidar com os tecidos nunca foi atribuição exclusiva de mulher. A criação familiar livre de estereótipos e preconceitos, entretanto, não excluiu da pauta as lições da avó, uma líder comunitária, sobre os tantos preconceitos que o menino poderia vir a enfrentar. A existência do racismo, experiência vivida pelos negros sempre desde muito cedo, era a base de uma das recomendações dela: vestir-se sempre com elegância, cuidar sempre do aprumo e do perfume. O ensinamento transmitido aos netos, mais do que regra de etiqueta ou refinamento, tinha a ver com proteção: andar na estica como estratégia para um homem negro driblar a violência. As roupas alinhadas como escudo, tentativa de fazer com que uma segunda pele – a do estilo – pudesse neutralizar o preconceito..

A história daquilo que está na raiz do percurso que tornou Marcos um homem capaz de criar e montar ternos finos e de corte perfeito é muito representativa do que é, ainda hoje, ser negro no Brasil: ter de transformar violência e opressão em matéria prima para o bom e para o belo.

Aquilo que você passou

Foi feito de real valor

Serviu também pra te ensinar

Pra te botar no seu lugar

De onde você vai sair

De onde você vai crescer

De onde você vai subir só

Pra mostrar que o negro é bom

(Trecho da música Real Valor)

O talento para a criação de moda levou Marcos a seguir carreira também como supervisor comercial de marcas de roupas e óculos nacionais e internacionais. Durante esse período, com uma agenda de compromissos e viagens ainda mais intensa do que um dia tinha sido a dos shows, a música seguiu como companhia discreta. Morou no Rio de Janeiro, conheceu de perto a beleza e os abismos da cidade maravilhosa – e voltou para Curitiba, como filho que à casa torna.

A partir de 2015 a música e a alfaiataria voltaram a ocupar o centro da vida – enquanto isso, a quantidade de atividades a orbitar só aumentava. Marcos Neguers também é modelo comercial, ator e, nas horas vagas – se elas existirem – ataca na fotografia e na edição de vídeos.

Das paixões que dão sentido à sua vida, a esposa e as duas filhas são a melodia doce que atravessa o relato. Não foi preciso perguntar a ele sobre elas: foram muitos os assuntos a permitir que ele as trouxesse para sua fala, para a fala destinada a dizer [de] quem ele é. E falar de amor – ou de amores – me faz lembrar o que disse Marcos sobre as músicas de Gregory Porter: elas pegam a gente pelo amor.

Entre as coisas que pegam pela razão e aquelas que pegam pelo amor, arriscaria dizer que Marcos, ele mesmo, tende aos arrebatamentos. Prova disso, talvez, é que ele ainda se recorda empolgado da capa de um disco do Wando – aquela da maçã, acho que o nome do disco era Imoral. Resolvi me dar ao trabalho de procurá-la. O disco não se chama “Imoral”, mas… “Obsceno”. E a maçã, ao contrario do que pensei, não está mordida. Reluz inteira na mão do Wando enquanto ele apoia o rosto em uma das mãos e lança um olhar indecifrável para a câmera. Lembro, então, do que também disse Marcos à propósito dela, lançada em 1989: é pena que hoje basta que as coisas pareçam bonitas, independente ao que remetam. A capa do CD do Wando é um apelo ao não-óbvio – e talvez a confusão de Marcos entre Obsceno e Imoral não seja mero acaso, mas acerto. Se imoral é tudo aquilo que vai contra as regras de conduta vigentes numa determinada época, é realmente uma falta de pudor, hoje, imaginar alguma coisa que se construa pela sutileza, pela sugestão, pelo conteúdo a que remete – ou até mesmo pelo brega, como fez Wando e sua célebre história com as calcinhas. Fim de contas, somente a desconstrução de estereótipos é o que permite a possibilidade de um ganho artístico e emocional – é por isso que a capa de Obsceno não passa despercebida se prestarmos atenção nela. E é por isso que Marcos, talvez, nos encante: seu jeito e seu repertório desbravam caminhos e se distanciam do mainstream.

Para perceber a estreita ligação entre as atividades de Marcos, ele nos ajuda a ir além do óbvio quando fala do que para ele é uma tríade poderosa: Castro Alves, Miles Davis e os alfaiates africanos. A palavra, o ritmo, o corte – tudo faz melodia, cria estética, percebe? Tá tudo interligado, uma bela trama; trama como é a trama dos bons tecidos.

Entre algumas estéticas que agradam Marcos, a de Capitães de Areia, de Jorge Amado – ou a do escritor Ferréz. Músicos como Solange Knowles, Esperanza Spalding e Jose James também são nomes lembrados por ele, que, aliás, gosta de fazer referência aos artistas que admira e que, sempre que possível, convida para dividir o palco. É comum, durante uma apresentação, chamar alguém pra cantar junto e fazer crescer a festa – e a pluralidade de vozes. A interação com outros músicos e com a plateia segue pelo diálogo intimista, assistida pelo volume agradável do som – ideal pra curtir.

Durante a caminhada que fizemos juntos – olhando a rua, as casas e falando da vida – detivemo-nos diante de duas caçambas. Numa delas uma mala, noutra um armário. Isso faz Marcos relembrar do resgate do espelho – na rua, às vezes, a gente acha o que procura, a gente vê o nosso reflexo. Arriscaria dizer que, simbolicamente, a gente sempre acha. Na paisagem urbana, nos abandonos, no desprezo. O valor de alguma coisa é sempre tão relativo pra que a gente, sem pelo menos um segundo olhar, chegue a dizer “não quero”.

Talvez seja por isso que Marcos confesse: não, não jogo fora nenhuma letra de música que escrevo. Ele pode até não mostrar aquelas de que não gosta, nem tudo vira música. Mas é preciso ter gavetinhas. E uma pequena marcenaria se houver quintal – pra restaurar espelhos, talvez? E uma mesa grande – moldes, cavas, botões, silhuetas. Um bom corte define: uma boa resposta, uma boa roupa, o melhor ritmo e até mesmo o ponto onde terminar um videoclipe? Um bom corte [de]marca a possibilidade de escrever um destino a partir de novos lugares. Feito por mãos humanas é marca registrada [no desejo e nos trabalhos todos] de Dom Bernardino – e de Marcos. Vejo as mãos dele nos tecidos e no microfone grande, vintage, estilo condensador. Elas abraçam. Duas artes de corpo e alma feitas pelas mãos de um só homem, múltiplo em talentos – e vontades.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbado: Marcos Neguers

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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