Falei com minha mãe depois do almoço. Que dia é hoje?, ela me pergunta. 13 de julho, mãe. Sexta-feira treze, descobrimos ambas, muito bem.

Fui à livraria para o pouco elegante mas viciante costume: ler quando o que se espera é o escolher e comprar.

Farejando as novidades encontrei Laços, de Domênico Starnone. Os adultos acreditam que o melhor que podem fazer pelas crianças é não desejar. E as crianças, enquanto isso, só precisam que eles desejem.

Atordoada com essa ideia, subo as escadas rolantes que saem bem no meio de uma praça. Está dia ainda, embora contraditoriamente possa-se considerar que já seja noite, e não quero ir para casa. Para não renunciar a esse pequeno desejo que existe mas não tem destino, invento o mercado como destino; falta ainda meia hora para que feche. Um mercado é um bom lugar para fazer do fazer hora uma hora útil. Levaria só o que coubesse na bolsa. Segui para a esteira com dois croassaints, um cacho de bananas, um pacote de rosquinhas e um spray tira manchas.

À minha frente um casal e, na esteira, à frente dos meus produtos, os deles: um queijo, uma garrafa de vinho, outra de água com gás e uma barra de chocolate. Ela lança a ele um olhar de ódio, ele desvia, iniciam do nada uma discussão em uma outra língua, mas escuto pouco porque além de não entender as palavras, o casal prefere, em suma, se enfrentar como os alces: as testas coladas lutando contra o efeito da força entre dois polos iguais.

Ela se afasta com as mãos a apartar o peito dele e segue rumo a porta que se abre sozinha para que passe. Ele deixa as compras na esteira e vai atrás. Será que foram buscar dinheiro? Ou será que ela resolveu ir embora e ele também deixou as compras? Torço pela primeira hipótese e acredito na segunda.

A atendente do caixa não viu nada, está num tal estado de atenção de só e tão somente ver o que tem debaixo do nariz que chego a invejá-la. Entrego as minhas compras nas mãos dela enquanto explico que um casal saiu. Digo, olhando para os produtos na esteira, que aquilo não é meu. Ela entende que o que não é meu é o que lhe entreguei nas mãos. Então atira o meu tira-manchas na pilha de um carrinho de desistências.

Esclareço, em tempo, quais coisas são minhas e quais não são e ela, já mal humorada, age como se me acusasse por um abandono sobre o qual não tenho culpa.

Guardo tudo na bolsa menos o resgatado tira-manchas, porque se a boca vazar há de envenenar os meus croassaints. Não vou comprar um saco só para eles então sigo, sem saco, e faço com o dedos indicador e do meio um gancho onde apoiar o produto de limpeza no caminho até em casa.

Não me importo se acontecer de quem me veja se perguntar por qual razão eu carrego assim, filho único, um tira manchas. Ninguém tem nada com o meu prazer em borrifar a espuma em mangas, colarinhos, calcinhas e roupas brancas em geral porque eu, que amarelo sempre e em tudo, não suporto que os tecidos garrem odores, marcas de uso, lembranças de um corpo.

Na quadra seguinte dois homens caminham em minha direção e imagino que se qualquer coisa desagradável acontecer tenho o spray tira manchas, não é um spray de pimenta mas serve a atingir os olhos.

Debaixo da ponte escura meus olhos são atingidos por um cartaz que anuncia o show do Natiruts. Penso se os meus projetos literários iriam melhor se eu ousasse fumar maconha, mas amarelo sempre e em tudo, afinal. Também penso que Natiruts não é certeza de maconha é só certeza de reggae. Vem na minha cabeça as reggae nights do Jimmy Cliff e vou caminhando contente por essa possível substituição de breguenights por regge nights no meu psicológico.

O meu psicológico já ia assim esquecendo aqueles dois, o casal na fila do supermercado, ó miúdos mais sem educação, confirmou a senhora atrás de mim na fila.

O nosso encontro parecia terminado quadras antes, sob a luz branco testemunhal do estabelecimento às vésperas do fechamento, mas não. Pouco mais à frente de mim, na esteira da rua, lá vão os dois. Caminham de mãos dadas, balançam as mãos entrelaçadas como se dentro da mão de cada um houvesse uma das mãos de um filho que quer se balançar. Olham-se, riem. E já vão desaparecendo no escuro enquanto eu, à distância, penso se vale a pena avançar e cutucar o ombro de qualquer deles com a pistola do meu tira manchas, posso saber que palhaçada foi aquela de largar as compras na esteira?, que ninguém aqui, quer dizer, lá no mercado, é palhaço! Mas amarelo sempre e em tudo.

Além disso hoje é sexta-feira 13: não quero abordá-los incorporando o azar. Fora isso, que é o de menos, caminho para casa reverberando ainda a história de Starnone. E por causa dela concluo que o tal casal ter deixado as compras na esteira e que se lixe não há de ter sido gesto de todo mal.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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