No dia 20 de outubro comemorou-se em Curitiba a chegada (ou estreia?) da coleção de bolsas da arquiteta e designer italiana Nadia Calzolari.

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Fotografia ilustrativa da campanha, afixada ao centro da Kraft Home Store, em Curitiba.

Criadas como verdadeiras – embora despretensiosas – obras de arte, as bolsas fazem jus à forma como estão expostas na Kraft Home Store, Av. Batel: lado a lado e disponíveis para visitação como numa galeria.

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Os braços longos dos tão originais manequins que apoiam várias das bolsas talvez sejam o representativo de braços que desejam acompridar-se para alcançar e tocar com as mãos, em cada um dos extremos, Brasil e Itália, querendo forjar novos braços, caminhos, oportunidades. Podem representar, ainda, a grande extensão de trabalhos manuais envolvidos no processo produtivo da coleção; um renque formado de muitos profissionais.

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A partir de uma leitura simbólica podemos pensar também que são braços de tamanho suficiente a alcançar o futuro que as linhas Baco-Seta (bicho da seda), Borsa Viaggio e Borsa Nastri desejam propiciar ao desenvolvimento e valorização do artesanato, especialmente o feminino. Para Nadia, é importante aproximar os trabalhos manuais das novas tendências internacionais para que se criem novidades que aliem tradição e inovação. Os trabalhos manuais são sinônimo de delicadeza e fonte de conhecimentos tradicionais, transmitidos entre gerações e entre membros de uma mesma cultura como representativo dessa mesma cultura, e ferramenta para sua sobrevivência em uma realidade cada vez mais marcada pela produção industrial em larga escala.

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Detalhe para alinhavo manual em bolsa da linha Baco-Seta.

O caráter artístico das bolsas, como dito, ultrapassa o forte criativo envolvido na concepção de peças diferentes das encontradas no mercado nacional. Embora de fato represente um intenso trabalho de pesquisa de materiais, cores, formas e maneiras de apresentação, cada bolsa inclui mão de obra especializada artesanal, com produção desacelerada, à qual se somam o engajamento e a  rica subjetividade das várias pessoas que participam do processo que conduz à complexidade do que se encontra na vitrine.

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Tramas em fio de seda.

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Criadas a partir de materiais tradicionais e duráveis, as bolsas prezam pela sustentabilidade. A parceria com O Casulo Feliz, de Maringá, tem como intuito a utilização da seda de maneira responsável porque recupera fios que teriam o descarte como destino. Os pigmentos utilizados possuem origem natural.

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Quem adquire uma das bolsas de qualquer das três linhas disponíveis investe numa peça autoral, de design, destinada a funcionar como suporte à moda, e não a ter a moda como suporte. Nadia pensa os conceitos de beleza, elegância e funcionalidade como ligados a uma certa atemporalidade e a uma ressignificação do que seja a moda quando pensamos sobre o que esperamos ver e fruir de um acessório cuja função precisa ser mais que decorativa.

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Expostos no ambiente urbano da movimentada Av. Batel os braços do manequim na vitrine fazem como que um apelo físico ao público para reduzir o ritmo, fugir das espirais da velocidade e contemplar por um instante.

Seu desejo é resgatar o conceito de pertence/pertença para aquilo que se refere ao conjunto de objetos pessoais de alguém. Embora possamos dizer que as bolsas de Nadia Calzolari representem de modo icônico o que hoje se liga ao slow fashion, em contraposição à descartalibilidade, está em causa, junto ao eco-design, o ethical design. Ethical-design seria o compromisso de produzir peças que respeitem a ergonomia, a função e a funcionalidade, buscando servir às pessoas e ser coerente àquilo a que se presta a oferecer enquanto objeto. Por isso, além da durabilidade, o conforto é mais uma das marcas fortes das criações de Nadia. Cada peça, para se justificar, precisa estar vestida por um conceito robusto – ou poderíamos dizer por uma poética consistente?

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Chama atenção a possibilidade de uma correlação entre arquitetura e moda se tomarmos o corpo enquanto território no qual habita uma personalidade que dialoga com o entorno, a faixa etária e o ambiente cultural. É possível [e provável] vestir uma cultura e expressões coletivas muitas vezes não percebidas de modo consciente, por isso Nadia se dedica a tentar operar traduções. O espaço urbano pode ser assimilado/refletido pela moda a partir de um diálogo que leve em conta a coscienza onirica del collettivo.

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Linha Nastri, feita a partir do reaproveitamento de tiras de cinto de segurança (sim!)

O resultado palpável das escolhas de Nadia é representado pelo uso de expansores, pela escolha do tecido delicado que reveste as bolsas de trabalho para proteger tablets e funcionar como case, a versatilidade de uma das bolsas da linha Borsa Viaggio, que pode ter seu tamanho consideravelmente reduzido (para o caso daqueles que viajam com frequência e necessitam de uma bolsa compacta para deslocamentos mais curtos ocasionais durante o trânsito).

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Bolsas cujos tamanhos se expandem, diminuem, bolsas em tamanho de fazer caber dentro os compromissos, a despeito do peso do recheio, a leveza. Flexibilidade – eis uma das palavras chaves para o nosso tempo. Nadia dá seu rosto também à campanha Siamo Tutti Insiemi (“Estamos todos juntos”), que evoca também a escansão “Somos todos juntos” para fazer referência à versatilidade do uso (definido por quem as utilizar mais do que pela criadora) e para falar de um design cujas fronteiras culturais são apagadas pelo envolvimento de valores universais. Bolsas para carregar [em] viagens, lazer, trabalho – em todos os sentidos: bolsas para caber uma vida com tudo que uma vida aceita caber.

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  • Nadia Calzolari é arquiteta formada pela universidade de Firenzi; tem Mestrado em Marketing e Economia pela Bocconi di Milano e Mestrado em Curadoria de eventos pela A+A de Veneza. Responsável pelas atividades do Polo Culturale dei Cappuccini dell´Emilia Romagna, idealizou a revista LiberArte, atuando como curadora de livros e catálogos. Trabalhou em diversos projetos criativos com foco na pesquisa de materiais criativos, inovação social e na realização de consultoria para várias frentes de projetos e produção. É particularmente interessada em frutificar relações entre Brasil e Itália nos ramos do design, do design de moda, com especial atenção às formas de produção artesanais, novos nichos e inovação tecnológica.




Foto & Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Nadia Calzolari
Mais em: Kraft The Home Store


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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