O Fotoverbe-se! apresenta hoje na série Mural, o trabalho de imagem e palavra da sensível artista Miriam Parker Dunin.

“Gertrud” é uma narrativa inspirada no livro “Sonhos de Einstein” de Alan Lightman.

Como é um tempo que nunca passa!? Qual a nossa relação com o tempo e os lugares?

A partir da permanência de um momento-estanque, Miriam oferece novas possibilidades para pensarmos as horas, os fatos e o transcorrer da vida.

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Gertrud – por Miriam Parker Dunin

Nesse mundo, sonhado por Einstein em 15 de junho de 1905, o tempo é uma dimensão visível. Os habitantes desta cidade, ao olhar para determinada direção, avistam funerais, casamentos, separações. Eventos por vir que darão corpo a suas vidas. Consideram-se abençoados. Sabendo o que lhes acontecerá podem demorar-se mais ou menos, segundo suas vontades, em um momento qualquer do tempo. As tragédias pessoais, em outros lugares tão inesperadas e bruscas, despem-se do caráter dramático nesta cidade pois são conhecidas desde sempre. Os momentos felizes, voláteis e efêmeros para outros, para os habitantes daqui revelam-se constantes e duradouros, vivenciados muitas vezes, imaginados antes de vividos.

Foi assim que o farmacêutico demorou-se o máximo possível em seu casamento de fim previsto. Apaixonado por sua mulher que sabidamente lhe trairia na ocasião de sua viagem de negócios, adiou-a o máximo que pode com desculpas descabidas, gozando ao máximo do naco de alegria que lhe era destinado. Ao fim de dez meses, pressionado, realizou a tal viagem. Assassinou sua mulher assim que retornou, matando-se em seguida. Em seu bilhete de despedida, concebido muitos anos antes, afirmava ter sido feliz enquanto viveu.

Até onde eu saiba, todo morador da cidade usufrui, até certo ponto, da possibilidade de determinar o ritmo com que vive os acontecimentos de sua vida, mas cumpre seu destino desde cedo avistado. Não meu filho. Ao entrever seu futuro por breves minutos, quando na biblioteca da escola politécnica, meu filho escolheu não vivê-lo: teve medo. Não que avistasse um futuro nefasto. Não. Apenas teve medo. Foi assim que, ainda bem jovem, permaneceu sua vida toda naquele instante, o da tese de doutoramento, acolhido pelo calor da biblioteca e pela paciente orientação de seu professor.Julgou-se protegido e acomodou-se.

Parou de viver, sem contudo estar morto.

Passou-se muito tempo. Seus colegas terminaram suas pesquisas e se foram, rumo a seus futuros. Alguns casaram-se, tiveram filhos. Outros mudaram-se para outros países, carentes de jovens pesquisadores ou de profissionais competentes. Deslocaram-se rumo a um futuro que, mesmo entremeado de percalços, lhes pareceu valer o risco. Não meu filho. Como disse, teve medo.

No entanto, ainda que estacionado no tempo, não se conservou jovem. Ao contrário, envelheceu por demais. Nada viveu de nenhum futuro possível, mas curiosamente, envelheceu. Imaginávamos, ele e eu, que ao se recusar a mover-se de seu eterno presente – o do aconchego da biblioteca aquecida – preservaria sua juventude. Não correria riscos, não colheria desilusões, não sofreria os desgastes que, impostos pelas experiências, todos sofremos. Afinal, uma vida sem nenhum tipo de emoção ou sentimento – do tipo que nos faz acelerar o coração e armar-se de medo ou derreter-se de amor e entregar-se por meses a gastura de uma paixão – haveria de preservar, qual formol, seu corpo e sua alma numa juventude se não eterna, longínqua.

Mas envelheceu.Nem parecia meu filho; antes um tio, um avô. Na verdade, entendo agora, meu filho envelheceu por repetição. Como não se deslocava para momento algum, todos os segundos e minutos eram iguais. O amanhã igual ao ontem e ao depois de amanhã. Confundidos assim os ontens, hojes e amanhãs se faziam todos ocos mas iguais a si mesmos, multiplicados a enésima potência. Para ele, um minuto equivalia a todos os minutos de sua existência e se fazia denso de experiência nenhuma, vazio, mas potencializado.Viveu todos os minutos de sua existência a cada minuto, todos os seus dias a cada dia, repetidas vezes. Por isso desapareceu: de velhice prematura.

Pobre filho! Jovem velho de vivência alguma: nada almejava, nada pensava, se repetia, para que nada sentisse além do suceder dos dias. Tudo o que experimentou foi essa repetição idiota, inútil e sem sentido de coisa nenhuma. E eu, sigo cumprindo obedientemente meu destino… Compreendo meu vizinho, também fui desvairadamente feliz.

Fotos e verbo: Miriam Parker Dunin

Você conhece o livro a que fizemos referência? Qual a sua versão!? Quais impressões o trabalho da Miriam inspira em você? Conte pra gente!

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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