Miriam Biencard possui formação em Design da Comunicação. Seu interesse pelas artes começou por volta dos oito anos de idade. A menina que pensava em ser arquiteta mostrava curiosidade pelos objetos, suas formas e cores. Graças à sensibilidade dos pais que a ofertaram um curso, iniciou sua formação artística com aulas de pintura. Primeiro em curso regular, depois no atelier de uma pintora. Data desse tempo, ainda dentro da infância, a descoberta do que é uma vernissage.

Os quadros todos, a circulação das pessoas, as conversas, os movimentos que a arte pode produzir em um núcleo: tudo isso foi percebido por Miriam ainda  menina quando junto aos colegas expôs seus trabalhos pela primeira vez. Desde 1999 é que a artista compartilha os frutos do seu criativo. Sua produtividade e compromisso em democratizar o acesso à arte faz com que tenha no currículo mais de quarenta exposições. É preciso fazer pelo outro e para o outro. Só no ano passado passou por mais de vinte locais, com as mais diversas séries, produzidas a partir dos mais variados materiais.

Da exposição 3 R´s da criação artística, na biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa.

O primeiro contato que tive com seu trabalho foi na exposição “Os 3 R´s da criação artística”, na biblioteca Orlando Ribeiro, na cidade de Lisboa. Com essa proposta, somos conduzidos a um universo de fundo de mar. As obras são produzidas em três dimensões, ora como esculturas, ora como instalações. Embora seja nítido o cuidado de Miriam com cada uma delas, é permitido ao público tocá-las para senti-las, para entender como são feitas, para explorar texturas.

Naquela ocasião um dos trabalhos que mais chamou minha atenção foi um polvo articulado, construído com materiais descartados e resgatados. Do espaço público saem muitos dos elementos que aparecem tão bem incorporados ao trabalho da artista. O tratamento de cada pedaço, a pintura e a recomposição não nos permitem reconhecer, de todo, qual foi o material ou objeto de origem. A arte como potência a dar nova identidade aos corpos? A arte como potência integrativa? Tampas plásticas, fios e utensílios de pesca encontrados e retirados da praia interligam-se e aparecem enquanto somem; ou seria somem enquanto aparecem?

O que aparece, mesmo, é um importante questionamento: como o mar nos devolverá tudo isso que depositamos nele? Perderemos a fauna, os corais, transformando tudo em plástico em decorrência do consumo e da irresponsabilidade no descarte? Transformaremos vida em plástico, animais em plástico? No caso específico do polvo desenvolvido pela artista, a peça repousa sobre uma velha armadilha para apanhar polvos com formato de gaiola. Armadilha real e polvo “fictício” tornam-se um e nos fazem pensar quão tênues são os limites que separam verdade e mentira, corpos reais e “simulados”. O desgaste produzido pela ação do mar na armadilha para polvos utilizada completa o diálogo entre o real e a fantasia, entre o que de fato passou pelo mar e o que a ele não se deixou que chegasse. Amarrações, transformações – o compromisso de Miriam com as partes soltas que sua criatividade reúne parece ser o compromisso humano ao qual já não podemos faltar.

Os trabalhos dessa série também despertaram minhas memórias afetivas. Ao perceber a capacidade artística de Miriam para manejar as peças recicladas dando-lhes nova vida, lembrei da minha infância, do desejo que eu, assim como todas as crianças da turma da escola, tínhamos: construir nas aulas de educação artística seres cuja aparência representasse aquilo que víamos em nossa imaginação, o lúdico. Que os materiais pudessem ser forjados de acordo com nossas ideias. Fracassávamos sempre. Também para Miriam os materiais nem sempre obedecem aos desígnios da criação, mas os resultados que vemos nos apresentam a visada daquela experiência inalcançável de fazer, experiência só possível para a teimosia do ser artista.

Firmes, cozidos, expressivos – podemos sonhar que, trazidos à cena pela artista, os objetos construídos por encanto, como se no meio da noite junto ao depósito dos materiais recolhidos nas ruas e orlas portuguesas, partes improváveis se juntassem numa dança, dando surgimento ao que, como público, podemos encontrar materializado nas exposições.

Em razão dos materiais com que são feitas, essas obras também emocionam por sua aparência singela, frágil. A riqueza está na transformação. São obras que corporificam o esforço de uma mulher que empresta seu repertório artístico a reunir em algo bonito aquilo que é despojo; insignificâncias que relegadas ao lixo retornariam ao ciclo como detritos, materiais tóxicos para animais marinhos e também para o ser humano. O fundo do mar que Miriam nos apresenta é feito do frágil – como é frágil o mar real, a vida.

O mar, aliás, é velho amigo e conhecido de Miriam. É também desde a infância que um pedaço do seu coração está em Sesimbra. O diálogo com a infância, aliás, faz parte dos planos artísticos dela que também escreve histórias infantis. E que quando escreve não cria objetos. Mas quem sabe um dia, uma certa história na qual há anos ela trabalha, não poderá vir a ser um livro sem páginas? O segredo de como ela fará isso é coisa, por enquanto, de fundo de mar. Construir histórias não será, afinal, construir outro tipo de objeto? Com um sorriso sempre aberto e o olhar misterioso – como o fundo do mar – Miriam é também alguém que gosta de se deixar fotografar e que gosta muito de relógios – uma colecionadora de horas, a fazer o esforço de prender o tempo dentro de objetos, para que o tempo presente não escape. Objetos de pulso são aqueles que adornam seus braços e aqueles que sua arte cria.

O fundo de mar mesmo quando parece ausente, retorna, feito maré. Na segunda exposição de trabalhos de Miriam que visitei, denominada “A forma da cor”, na casa do Alentejo, em Lisboa, embora apresentasse trabalhos em tela, com força geométrica, remetia ao tátil, à natureza na expressão das folhas e flores. Mas também parecem lá estar as janelas, o barcos, suas escotilhas, a sensação do corpo longe da terra, ao ritmo das águas – a pescar, talvez, os elementos para construir animais? São paisagens vistas de cima, corredores, labirintos – as arestas de um mundo que é náusea e calmaria, imenso como o mar que, pela forma, é contido.

Da exposição “A forma da cor” na Casa do Alentejo, em Lisboa.
Da exposição “A forma da cor” na Casa do Alentejo, em Lisboa.

Com responsabilidade social Miriam dissemina o respeito pela arte, democratiza acessos e constrói ao alcance dos olhos e dos dedos a metáfora de que a arte tem um absoluto poder transformador. Enquanto esse texto se construía, outras exposições já foram inauguradas e outras estão em preparação. A arte continua a trabalhar e a inaugurar com novas abordagens e o mesmo compromisso: levar algo de inspirador para o outro.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Miriam Biencard
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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