Feminino, família, autoria.

Em Memória dos Ossos [Dummar, 2018], Juliana Diniz escreve, essencialmente, sobre quatro mulheres: Zuleika, Ilara, Maria Helena e Marília. Avó, tia-avó e netas. As pequenas e grandes diferenças no funcionamento de cada uma delas são descritas pela autora de modo esparso e enxuto, suficiente a delinear limites.

Sobre territórios comuns: a vida dessas personagens é marcada por uma casa, pela perda de entes queridos e pela passagem de homens cuja presença dá-se como um lusco-fusco; oscila sem fixar-se e deixa a dúvida sobre o quanto foi definitiva ou definidora para resolver o quebra-cabeça de cada contexto.

Pouco a pouco, ao entrar na história – e em seus múltiplos contextos – percebemos que no diálogo entre essas quatro mulheres não se pode escapar de vozes que, ausentes, multiplicam a sua presença. Não se pode e não se quer. Assim, a autora faz nascer no leitor a emoção de perceber que os objetos e os corpos até podem nascer e se encontrar por acaso, mas não subsistem sem um discurso, sem serem construídos, antes, durante ou depois, pela palavra.

O livro, portanto, trata de muitas passagens. Passagens de vida e pela vida, passagens que precisam ser abertas; passagens como rituais. É também por isso que se destaca a questão do luto: quem parte passa a ser corpo fora de cena; mas como incorporar as palavras que, antes e depois dos corpos, sem eles vão soltas e assombram os objetos e o futuro? E os objetos lidos aqui como uma herança material que precisa ser incorporada no simbólico e o assombro, por sua vez, como a dificuldade para ligar matéria e espírito e imaginar uma continuação possível.

A forma como essas mulheres quase intuitivamente elaboram suas perdas e constroem o seu feminino dá-se do gesto sutil da preparação de um banho à mística de um jogo de cartas. Inventando histórias a respeito de si e das circunstâncias, o desejo pouco a pouco tateia o que são os limites, o inarredável e o concreto, e o que é repetição, escolha, margem de manobra.

Assim, conscientes ou não de que as relações familiares são fruto de uma história que as antecede, cada uma das personagens move-se ou desloca-se como num ballet: dançando cada qual com sua saia rosa, o volume do tecido, a exuberância do tule, os movimentos descoordenados e, por fim, o rasgo na fantasia, com a qual se deitar e cair no sono. Dança-se mesmo sem ser bailarina. Alguém segurou nossa mão enquanto dormíamos e, ao nos darmos conta, o dia já amanheceu.

Dançando no espaço de uma casa, que funciona também como corpo e personagem, as protagonistas da história mobilizam palavras e afetos, suam na difícil tarefa de criar outras fronteiras ao compartilhar um mesmo espaço, entendido aqui como uma casa, mas também, em sentido amplo, uma família.

Juliana constrói cenários nos quais não acontece nada de extraordinário. Não há nada de suspense, apenas a sensação de qualquer coisa em suspenso. Sequer o que é tragédia, como dado objetivo, se destaca na história cuja veia principal atravessa a rotina, o hábito, a memória. O romance, a partir disso, é de algum modo uma delicada metáfora para o que seja toda uma vida humana: narrada sempre a partir dos grandes dados históricos; vivida na dor e na alegria, nos fatos “banais” que sustentam essa tal “biografia oficial” ao mesmo tempo em que resistem a despeito dela. Entre o sonho e a vigília há de se enxergar – ou dizer – algo além da história tal como ela nos foi contada.

Nesse aspecto, o título, assim como o papel de cada mulher na narrativa, contempla um duplo, ou múltiplos: memória dos ossos é a memória do corpo, entranhada. É também a memória da morte. E pode ser, sobretudo, a memória daquilo que, depois de tudo, persiste, essencial; o que resta quando nada resta?

Sem resvalar em estereótipos e a partir de um modelo de família algo apartado do tradicional, a autora alicerça uma narrativa capaz de transportar o leitor para seus próprios lugares, objetos e familiares. E nos transformamos, de alguma maneira, em crianças que arregalam os olhos ao ouvirem da boca de uma mulher uma história muito antiga.

A mulher, então, como esse ser potente, ancestral, portadora do imemorial – a quem são atribuídas, no íntimo, tantas marcas – feitas em outras mulheres, em homens e, especialmente, em cada menina.

Na mesma medida em que a narrativa evoca cheiros, texturas e toques em pele quente, é capaz de fazer-nos experimentar o mofo e a experiência de uma casa sem gente. E aí se alcança um dos pontos altos, que é apresentar personagens que procuram instaurar um tempo, um corpo e uma casa que consiga localizar-se entre o vazio e o super habitado.

Salvar a si mesmo, salvar o próprio mundo. O esforço talvez seja construirmos, todos, a própria arca de Noé. Ainda é tempo de dizer: há no livro uma personagem cuja inicial também é a letra N, Nívea. Assim, insisto, ainda é tempo de dizer: em Memórias dos Ossos Juliana Diniz escreve, essencialmente, sobre cinco mulheres; Zuleika, Ilara, Maria Helena, Marília… e Nívea. Avó, tia-avó, netas… e mãe.

→ Leia também: Entrevista com Juliana Diniz




• A escritora Juliana Diniz é também professora da área de Direito na Universidade Federal do Ceará (UFC).  Memória dos Ossos é seu primeiro romance, publicado pela editora Dummar. É também autora dos livros de contos O Instante-Quase e O Mergulho, ambos publicados pela 7Letras.



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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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