C hegamos ao Fábrica Café por volta das 16h. Era sábado, num dos primeiros frios mais frios desse 2017. Não se pode dizer que a conversa começou fria, porque todos nós estávamos dispostos a ela. Mas a verdade é que, assim como o corpo, os bate papos esquentam quanto mais liberamos as palavras – palavra atrai palavra, como cada gole de café parece atrair mais assunto.

Para entender o centro, percorremos as bordas – e entendíamos, pouco a pouco, que tantas vezes as bordas eram outros pequenos centros. Para chegar ao núcleo do que seja o projeto Meu mundo meu sonho, nos amparamos na palavra amparo – já reparou quantos são os sentidos dela? Do substantivo, entre abrigo e refúgio, ao verbo transitivo: escorar, ajudar a manter de pé. A viagem, ainda a das palavras, esbarra no amparo. A relação de Mauro e Rosiane, viagem particular, propiciou a ambos o desejo de investir o mais possível na grande viagem que é ser humano, na possibilidade do que é ser para o outro. Por isso, o único itinerário fixo é o estar disponível para, quando possível, servir. Durante uma viagem rumo ao desconhecido, feita no atendimento do próprio desejo de viajar, é ainda e também possível servir – levar e trazer são duas vias emergentes – o que me faz lembrar a palavra “emergência” e aquele caso curioso das ambulâncias, papo de viajante, que só quem tiver o prazer de uma conversa com o casal Mauro e Rosiane poderá conhecer. A moral daquela história [se é que alguma história aceita ter moral] para mim é: laço é alguma coisa possível de ser feita em trânsito.

Enquanto transito pelas lembranças do encontro com Mauro e Rosiane, tenho a impressão de que já em transe, viajo na maionese enquanto escrevo. Mas se me perco na ideia de cronologia para tentar apresentar uma dupla de viajantes é porque as marcações feitas por eles no mapa do mundo – ou seria no globo terrestre? – são marcas feitas por rodas, asas e, muito especialmente, pés.

Estar com os dois pés na localidade em que se encontram é o modo como Mauro e Rosiane acreditam ser possível viver uma experiência. Quando se está inteiro, as contingências comuns à toda viagem se desdobram em pequenos causos, grandes relatos e algumas sagas.

E como começa a saga do projeto Meu Mundo Meu Sonho?

Mauro Vieira trabalhou 30 anos como servidor publico na Justiça Federal do Paraná e após sua aposentadoria, em 2011, deu continuidade – com dedicação total – às jornadas de expedição ao mundo. E que mundo seria esse?

O mundo feito da matéria dos sonhos – pessoais e coletivos – talvez. O desejo que pulsa nesse viajante e o motiva a seguir viagem pelas mais variadas cidades e países se relaciona com a necessidade de ir ao encontro das mais variadas formas de vida e seus estranhamentos – ou seriam entranhamentos? Tomando partido de frase do poeta Fernando Pessoa: primeiro estranha-se depois entranha-se!, não é? Da mesma forma, primeiro parte-se para o terreno da estrada para depois fazer dela um caminho de ação no mundo – o mundo dos anseios humanos, sempre reais, sejam relacionados às necessidades simbólicas ou da vida prática.

Tendo na bagagem a percepção de seus limites no conhecer e no agir, a procura é voltada a observação do homem e dos outros animais e a fruição de experiências.

A partir da janela do próprio olhar, na extensão humilde do que a vista alcança, Mauro busca as formas naturais que vão além da paisagem para, a extensão vasta do que o inconsciente alcança, encontrar o cenário: o lugar onde se desenrola a ação, a outra cena – nos lugares por onde passa a vista-de-horizonte é o encontro com a diversidade, com as possibilidades plurais de existência que os seres de todos os reinos experimentam na construção de um lugar no mundo.

A palavra reino, aliás, nos remete à biologia quando representa cada uma das três grandes divisões dos corpos na natureza, na referência ao conjunto de seres que possuem caracteres comuns. Contudo, vale lembrar que a palavra reino também traz em seu bojo a ideia de reinado como território, Estado onde há vigor de leis próprias.

Nas viagens do Mauro reina a observação das características físicas, dos espaços, dos corpos. E também reina a observação do que seja o corpus, a soberania, a constituição imaterial das paisagens naturais: as paisagens humanas.

Porque ainda quando na escolha de belezas naturais como imagem-de-tradução daquilo que se enxerga, o pano de fundo que constrói o olhar do viajante é sua experiência íntima de contato com a cultura e especialmente com as narrativas vividas corpo-a-corpo com sujeitos cujo encontro o acaso trata de forjar.

As fotografias de Mauro são forjadas pela paciência de quem pode se permitir demorar diante do belo e se apresentam como uma leitura possível entre tantas outras: porque se tratam de acasos – presentes no mais amplo sentido – capturados com despretensão pela lente no instante-hora-lugar de um olhar estrangeiro e de encantamento.

Mas a palavra-fim desse texto, quer mesmo é falar do que é familiar – e de um único destino: aqui onde estamos ou em qualquer outro lugar para onde possamos nos deslocar, todo trajeto é rumo ao outro. Rosiane conta que durante uma das viagens de Mauro [na qual ela permaneceu em Curitiba], seu maior prazer era estudar e entender os locais por onde ele passava. Enquanto isso, o destino dele era voltar. Um lugar compartilhado nascia, enfim. A possibilidade de um em comum talvez esteja no âmago do projeto Meu Mundo Meu Sonho pois, fim de contas, o ser humano, onde quer que esteja, compartilha da mesma condição. Toda viagem parece ser um modo – condição – de chegar ao outro.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbados: Mauro Vieira e Rosiane Godk
Mais em: Meu Mundo Meu Sonho e DNA Nômade
Agradecimento: Francine Ioppi Leite

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (1)

  • Parabéns Andressa e Paulo.
    Vocês são pessoas incomuns!
    Alguém que escreve com o coração junto a alguém que fotografa a alma.
    Que felicidade termos encontrado vocês,!!!!

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