Conheci Manuela Caeiro no início de 2018, em uma comunidade de leitores. Era ainda inverno e eu chegava pela primeira vez a um grupo que, naquele dia, faria a leituras versando sobre o erotismo. Os textos, distribuídos no momento do encontro, iam sendo lidos em roda. Os excertos eram bons e as leituras eram boas, mas uma delas se destacou: a leitura de uma mulher cujo nome eu não podia adivinhar, mas esperava ouvir.

Naquele dia, eu ainda não sabia que Manuela era Manuela. Demorei alguns outros encontros para encorajar-me a uma aproximação destinada a fazer um elogio à sua forma de dar voz às palavras. Disso, posso dizer que conheci primeiro a leitora, a mediadora de leitura e, depois, a pessoa, com dados biográficos como idade e profissão – mas a mulher que lê e a pessoa formam uma unidade de sensibilidade e carisma difíceis de dissociar.

A propósito da palavra erotismo, fio condutor daquele primeiro encontro, arrisco estabelecer agora, como primeira alusão ao trabalho de Manuela, a capacidade que ela tem de colocar nas palavras um certo arrepio, fazendo com que possam convocar a força vital dos ouvintes, ou seja, a libido. Manuela cumpre o desafio de fazer com que a palavra ultrapasse os ouvidos e alcance a pele. Assim, o que importa não é necessariamente formar novos leitores, mas despertar leitores – e leituras.

Esse bem fazer que ela conhece e realiza talvez não explique ou revele muita coisa, porque se é inegável que sua forma de ler nos prende e nos joga para dentro da história, é certo que algo de inexplicável trespassa esse acontecimento. Como a própria literatura, o gesto mediador parece restar compreendido apenas porque vivido, sendo isso o bastante.

Sobre isso que escapa às palavras, talvez não seja acaso o especial apreço que a mulher que lê tenha pelos livros de literatura infantil. O fato de ter trabalhado durante muitos anos como professora é, para todos os efeitos, o que justifica essa inclinação. Mas ao ter a oportunidade de ler com ela um livro feito apenas de ilustrações é que compreendo: toda literatura [em nós] é feita de um sem-palavras, e a literatura infantil pode ser aquela que de modo mais imediato leva a efeito essa transmissão de algo que é dito para além (ou a despeito) do escrito.

Em alguma medida talvez seja também por isso que, para mim, Manuela é a mulher que lê, alguém que quando encarna uma voz está para aquém e além do próprio nome, emprestada a uma função que, se tudo correr bem, é uma função que presta-se a nada: já disse Paulo Leminski que a poesia é um inutensílio, não é mesmo?

Essa ideia de simples fruição relaciona-se bem com o nome estampado na bolsa de livros de Manuela: “Ler a meias”. O saco foi presente de uma amiga e é também esse o nome que batiza o blog onde Manuela compartilha suas vivências junto aos leitores. Gosto de imaginar o gesto de uma leitura como um descalçar de sapatos, o momento em que podemos deixar as nossas sandálias sem necessariamente ter de vestir outras. “Ler a meias” deixa-me a ideia de que todo leitor, mesmo o adulto, encontra nos livros a possibilidade de sentar-se no tapete e deixar-se ficar com suas roupas mais íntimas e preferidas, aberto, vulnerável, mas ainda assim sentindo-se seguro.

Quando perguntada sobre gostar de escrever, ela não faz muito caso, parece não ligar muito. E agora entendo um pouco as razões: talvez escrever seja jogar da vida para o papel, e o que Manuela faz é tirar do papel, da letra fria, e colocar para a vida, gesto de alguma forma “contrário” ao da escrita. Para fazê-lo é preciso, antes de tudo, contato.

Com Manuela compreendo que para fazer alguém gostar de ler, ou para fazer com que alguém embarque em uma leitura, é preciso um desejo que nos afete. Se a mulher que lê consegue nos afetar não é apenas porque tem boa voz e entonação: é porque tem, em si, muito gozo nas histórias humanas, no partilhar, pudesse ser a vida de todas as pessoas um acumulado de fatos que, lá no fundo, vai temperada pelo insólito, pelo cômico, pela ironia.

A menina nascida em Luanda e que se mudou para Lisboa em 1963. A viagem à capital portuguesa era para durar apenas um ano, mas o falecimento do pai em um acidente de carro teve como consequência o não-retorno da menina a África. Quando soube que Manuela nascera em Luanda deduzi que ela, como tantas pessoas que admiro na literatura, havia retornado em razão da descolonização. Completei a história com o repertório que eu tinha, com a minha fantasia, mas a vida, como a literatura, é equívoco. Manuela, tantas vezes uma mulher na contramão e, ao mesmo tempo, na direção para onde aponta o sentido.

Quando pergunto se algum dia foi possível retornar a África, a história, tal como um livro, surpreende de novo: supus que um reencontro, se tivesse havido, haveria de ser nostálgico, mas não foi bem assim.

Um dos filhos de Manuela foi trabalhar e viver em Angola. Em seu aniversário de trinta anos, seus amigos lhe fizeram uma surpresa: enviaram para Manuela uma passagem, depois puseram-na sentada numa caixa de madeira e, durante a festa, revelaram sua presença ao aniversariante que, de tão pasmado, demorou a recuperar o ritmo dos batimentos cardíacos.

Junto dessa memória que tem a sua graça flui a história de uma mulher que completa uma viagem à terra natal já não para encontrar o pai, mas sim o seu menino, e que reconhece apenas o que vê por alto (ou seria do alto?), quando ainda dentro do avião divisa as águas tão lindas da baía.

Não importa qual seja a história; mesmo onde houve guerra a mulher que lê consegue fazer vicejar imagens capazes de tornar as angústias pequeninas como as paisagens que vemos de uma janela, dando-nos asas que permitem a vertigem, o deslocamento e uma outra perspetiva, enquanto nos entregamos relaxados a uma poltrona na viagem dos livros. Seria também a vida o que resta compreendido pelo vivido, sendo isso o bastante?

Não será exagero dizer que a vida e a literatura se ligam de um modo tal na vida de nossa fotoverbada que tanto ela quanto nós nos tornamos outros por ocasião do encontro destinado a tornar possível esse texto. Ouvir a contação de Manuela é poder relaxar, retomar o descanso; melhorar o dia e a noite.

Era dia dos avós e estivemos em uma sessão dedicada a avós e netos. Chegamos ao local antes de Manuela, e fomos recebidos por todos como seus netos. Como já estivéssemos irremediavelmente submetidos ao poder da mulher que lê, não tivemos coragem para o desmentido.  Em seguida, houve mesmo quem se surpreendesse com nossa semelhança física (!). A sessão já ia avançada quando, pouco em pouco, desvelavam-se as contradições. Os netos brasileiros, personagens cambiantes ao longo da história, enfim se transformaram no que eram: estrangeiros acolhidos, adotados e integrados a uma história que ali tinha o seu curso, mas cujas margens alcançam além da sala, além do terceiro andar do edifício avizinhado à enorme estátua do Marques do Pombal. A palavra é assim mesmo: percorre, alarga, inaugura. E faz durar o encanto, em quarto crescente.

 





Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Manuela Caeiro
Mais em: Blog Manuela Caeiro


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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  • Parabéns, Andressa.Gistonmuito desses textos entre fotos e escritas. Um prazer conhecer essas pessoas e suas interessantes vivências lendo suas palavras.

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