Assista ao vídeo que fizemos aqui!

O encontro com Jr. Bellé estava previsto para acontecer em Curitiba. No dia em que ele viesse à cidade já que, faz década, vive em São Paulo. Sem saber qual o verdadeiro fluxo na ordem do que sejam chegadas e partidas tivemos, fim de contas, a chance de ir a São Paulo primeiro e de sermos recebidos em seu apartamento.

Então é aqui o lugar onde ele escreve?

Minha entrada, em pensamento, é abrupta e disfarçada com um pedido de licença.

Pedir licença, faço aqui um parênteses, é o que Jr. Bellé não pede à linguagem. Mas isso só descobri bem mais adiante; a coisa, ela, sempre mais adiante. Mas não quero, nesse texto, antecipar nada – já que se antecipar à vida, ao amor, à tragédia e à arte são ofícios do poeta.

No receio que é adentrar um apartamento quando ele guarda o real de alguma fantasia, a figura de Jr. Bellé passa a estar presa ao segredo que procuro nos cigarros, na pequena coleção de discos e na vista que o andar alto, a janela, oferece da cidade, sem fim.

Pallets
Plantas
Estante
Livros

Contraditório:
é a partir do meu anseio em entender a razão de ele ser poeta
Que sou levada ao encontro de alguém que permite vacilar a razão e sustenta, assim, sua força desconstrutora

Sem poder, ainda, me desfazer da imagem procurada
Era como se qualquer objeto ou palavra
Emanasse vestígios
escutados como resposta à minha insistente pergunta implícita
Agora convertida em pedido secreto:

Me ensina a ser poeta?

Você que tem, mais ou menos, a minha idade.

Mas se a pergunta que carrego não faço a Jr [ou poderia ser apenas Bellé?], trato de eu mesma tentar respondê-la, enquanto ele troca o disco.

Quero crer que a resposta para ele ser poeta
É ter ido embora de Curitiba

Mas ele gosta da cidade e dos amigos que fez no Paraná

Quero crer que a resposta passa, então, pela dedicação exclusiva à poesia
Mas ele conclui um mestrado em literatura e, embora não esteja hoje alocado em algum escritório de redação, dá seus pulos com um sem número de trabalhos freela para diversos veículos

Porque é, também, jornalista

Daqueles que se preocupam com o fim dos cadernos
e dos jornais impressos
Daqueles que abraçam o maior da profissão:
a necessidade de fazer da palavra alguma coisa viva
também porque não escapa, nunca, da posição de quem a usa

Como última aposta, suponho nele um solitário. A visão da cidade como inspiração e companhia. E erro, de novo.

Porque ele relata os grandes encontros no apê 80 e nos apresenta o amigo simpático com quem divide a casa.

E de repente já estamos diante da tevê, falando de música e de gente
Daniel Groove
Saulo Duarte
Enquanto ele relembra e apresenta, com admiração e carinho, parceiros de arte e de vida.

É quando desisto do embate
Entre a figura espartana que supus
E a presença ligeira que tenho ao meu lado

E talvez porque poesia tenha a ver com aceitação de equívocos
É só a partir do meu cansaço que alguma coisa se insinua

Nas páginas de dois de seus livros que ele me entrega e que abro pela primeira vez
Paro diante das palavras de Jr.
E ao mesmo tempo em que as reverencio, porque são graves
As encontro vestidas de verão, quando não estão sob transparências
Ou indiferentes à própria nudez
Contra capa

Junior, às vezes, pega a palavra de calças curtas
Ou desmascara isso de calças, nenhuma caução [nem precaução]
Como fosse moleque que faz piada de outro moleque

E a palavra, de entidade, passa a ser, ela mesma, moleque. E a fazer molecagens. E ser boa. E ser linda. E ser espirituosa. A viver também noutro tempo, tempo de acertar passarinhos com estilingue.

Pecado, violência?
Jr. comenta dessa nossa língua que é língua materna mas língua que nos chega imposta, colonizadora. E investe contra ela, como quem a mal-trata – e derruba. Mas esse mau-trato que é dor é também um começo

Começo a achar
Que isso
Que se inaugura como ataque
Desemboca para nós, leitores
Como águas de pacificação
A palavra fluida
Depois do embate
Deixa de ser a angústia dele, poeta
E a possessividade dela, linguagem
Para ser equilibrista
Uma travessia possível
Poeta, palavra, linguagem
Esse triângulo
Amoroso?
Perigoso?

Também se equilibram umas nas outras, na capa
As letras que dão nome ao mais recente livro de Jr. Bellé
amorte chama semhora, publicado pela editora Patuá.

O sentido [con]firmado
Como provisório
Num pacto que não pode ser nunca
de fidelidade
Menos ainda de exclusividade
Gostei daquele poema
Em que o pau palpita, sabe?

Jr. inclui,
e mesmo quando exclui [e cria falta], erotiza.
Ora produz terra queimada
Ora molha as coisas secas
Para que possamos nos encarregar de torcer a toalha
Mais ou menos suada
A partir do quanto baste
Para que o tecido
Seque
Ou o sentido escorra

Jr. Bellé, eu acho, é desses que não recusa a rua como lugar e
o corpo como parte
O corpo em partes
O corpo que parte
e sabe que
Explorar a linguagem [e a subjetividade] é,
antes, um gesto de celebrar a democracia
Então não será acaso
Termos falado dela
Então não será acaso
Ele viver em São Paulo, aquela loucura onde o plural vence

E é também em meio a palavras e sentidos democráticos
que a língua autoritária se [des]dobra

o poeta, também ele
submetido
à dureza das suas paixões
E à dureza das paixões do outro

Ele
Gosta quando alguém
Poesia sua
cantarola
Ele
Traga ri e bafora
E eu quero controlar o texto fazendo rima

Mas com Jr. Bellé
Percebo que quando o poeta deixa derivar as palavras
E as maneja
ainda que sem controle
Alguma coisa cinza, triste
Mas também
Alguma coisa Joyce

E elas, as palavras
sabor
chacoalho
Chamado
Imprevisto
Idioma

A ginga de um corpo no outro
dentro de uma festa em um prédio caindo aos pedaços
barata, bagaço, aperto
Dentro de um quarto
onde dormem muitas camas.

Eu poderia ter pedido para ir ao banheiro
Mas só consegui ficar imóvel na sala
Como parte da mobília, talvez.
Nem água, só ouvido
e olho nele

Que abre as [com]portas da banalidade
E deixa que a língua tome sorvete

Esse homem
magro
discreto
a voz em linha torta

Talvez a altura onde estamos insista em
me fazer pensar em passarinhos [vivos]
vertigem
Então quem sabe ajude
descrever Jr. como um abridor de gaiolas
que não o faz por gana ou idealismo
Senão pela preguiça
De quem estraga um plano perfeito de prisão
Em nome de uma revoada
nunca, ainda, liberdade

Ser poeta talvez seja a ameaça de um certo
escangalho
sabotagem
Uma coisa de viver meio forasteiro
acima do décimo andar
Ser poeta há de ser
Ousar responder, passar
às próprias perguntas
enquanto alguém te visita
e esquece que você não come carne
enquanto alguém te visita e esquece
qual é o seu nome, mas lembra
que o seu nome é o nome esquecido do seu pai.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Mais em: Jr. Bellé
Confira também o vídeo: Youtube Jr. Bellé – Fotoverbe-se

 

 

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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