De uma identidade pelo olhar do outro.

“No jardim do ogre” [Dans le jardin de l´ogre] chegou às livrarias portuguesas pela Alfaguara em maio de 2018.

Trata-se da história de Adèle. Ela é uma mulher jovem, esposa, jornalista e mãe, alguém para quem a beleza, o amor de um homem, uma carreira e a maternidade não são suficientes para abrandar a angústia de viver ou, ao menos, de ser uma mulher.

Já se disse que a obra retrata a história de uma Madame Bovary do nosso século e, de fato, a referência não parece sem razão. Porque acima de quaisquer coincidências entre as experiências e características das personagens de Flaubert e Slimani, a pergunta renitente é: como podem o desejo e a loucura se manifestarem no corpo de uma mulher hoje?

Numa sociedade em que diante de um suposto livre arbítrio parecemos ter superado quase todas as “convenções” para viver um feminino, quais serão as leis a que estamos ainda submetidas e quais delas ousaremos infringir, burlar ou mesmo ignorar?

Num cenário parisiense moderno no qual homens e mulheres compartilham todos os espaços e a mesma liberdade, “No jardim do ogre” não trata, talvez, de uma mulher a ignorar, burlar ou infringir, mas sim de uma mulher à procura de infligir alguma coisa a si mesma; a certa altura é impossível saber se o que faz Adèle sofrer é o seu ímpeto de se relacionar sexualmente com diversos homens ou simplesmente o fato de ter uma vida familiar tradicional junto ao marido, um médico bem sucedido que parece não deixar dúvidas quanto ao seu amor pela esposa. Assim, podemos transitar entre duas perguntas: de quantas maneiras é possível testar o próprio corpo, ou, de quantas maneiras é possível atestar o próprio corpo?

A obra faz do leitor um personagem: porque somos nós, ao devorarmos as páginas do livro – ao devorarmos Adéle? – as testemunhas de quem a personagem tanto parece precisar ao longo da narrativa. Ao mesmo tempo, encarnamos as sensações de diversos personagens, sejam eles o marido traído, o filho de três anos, a amiga ou mesmo os homens que passam pela vida (pelo corpo, pela história) de Adèle, o que nos torna também divididos. “No jardim do ogre”, aliás, trata de uma forma radical o tema da cisão constituinte de todo ser humano.

O enigma da feminilidade, o devir mulher, a maternidade, o corpo enquanto discurso e as impossibilidades do corpo na falta de um discurso que o contemple. Impossível ler o romance de Leila Slimani e ficar indiferente à verdadeira saga de Adèle em busca de encontrar um ponto de acomodação ou, ao contrário, em busca de libertar-se de terríveis pontos de acomodação para fruir de uma identidade que sirva de âncora; forte o bastante para atracar o desejo sem, no entanto, afundá-lo.

Será Adèle boa ou má? Ingênua ou manipuladora? Louca ou sã? Qual pode ser, hoje, o conceito de fidelidade?

Entre tantos questionamentos, haverá encontro possível com a verdade? Haverá um ponto no qual será preciso renunciar às muitas hipóteses para que seja possível encontrar senão a verdade, alguma verdade a respeito de si?

No jardim do ogre
Leïla Slimani
Alfaguara, 2018
184.p

♦ Leïla Slimani (1981) é uma escritora e jornalista franco-marroquina. Em 2016, foi premiada com o Prêmio Goncourt por seu romance Canção de Ninar. Em 2018, a autora participou da FLIP.

Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>