A primeira notícia que tive a respeito do Concurso (in)formando Novos Talentos foi a de que se destinava à participação de fotógrafos amadores, tendo os celulares como ferramenta para a captura das imagens.

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Acostumada com a profusão de fotografias transmitidas pelos smartphones para as mais variadas redes sociais, o primeiro retrato-mental que fiz a respeito da proposta passava por um número maciço de inscrições de imagens de viagens, alimentos, pessoas. Imagens soltas nas quais valeriam como pano de fundo insígnias como eu fui, eu estive, eu experimentei; linguagem tão próprias das redes.

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Talvez tenha sido pegando carona nesse imaginário comum tão arraigado a respeito do que seja o resultado estético possível de fotografias feitas com celulares que o projeto (in)Formando Novos Talentos dê aos participantes e ao público a possibilidade de um salto para a construção de um segundo retrato-mental acerca do que seja o conceito de fotografia-mobile e, mais importante, acerca do que pode vir a ser um modo outro de relação com as tecnologias cada vez mais acessíveis e democráticas enquanto ferramentas.

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Mais do que uma chamada voltada à participação de fotógrafos amadores, o Concurso se tratou de um convite amplo a que todos nós, porque participantes do mundo digital, possamos supor os celulares como um recurso criativo sempre à mão. O objeto-telefone passa, então, a poder ser considerado um objeto-simples-objeto que está a serviço do olhar e não um recurso a substituir o próprio olhar (como acontece, por exemplo, quando em shows o público em detrimento de assistir opta por ter a lente como filtro-mediador ao que se vê). Ou seja, a proposta do Concurso foi a de convocar o olhar como filtro primeiro que, sem barreiras, dispensa, inclusive, quaisquer outros filtros. Nas imagens apresentadas pelo participantes selecionados o olhar antecede a captura e essa não-simultaneidade entre o ver e o fotografar, ainda que situada num breve intervalo, é fundamental para demarcar uma diferença entre o olhar artístico e o mero registro.

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Os idealizadores do projeto, os produtores culturais Vanessa Múrio e Maurício Vieira, foram ainda mais perspicazes na medida em que além de desafiarem os participantes a apresentar um resultado imagético de qualidade a partir de uma ferramenta simples e amadora, os desafiaram a dar um passo adiante: construir uma narrativa a partir do que escolhessem propor. Não se trata da ideia de justificar as próprias escolhas de imagens mas de trazer à cena um encontro com a própria subjetividade. O que moveu cada um durante o processo? De que modo o artista está implicado?

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Vanessa Múrio, Julie Belfer e Maurício Vieira

Esse destaque à construção narrativa parece ser, também, espécie de gancho a pontuar que um trabalho artístico é uma construção estética e autoral na qual o símbolo e a linguagem caminham juntos. Assim, ao contrário de imagens que sustentem quem sou ou onde estou o resultado do projeto evoca o como vejo, como sinto, a partir de onde enxergo. E, ainda que partindo da experiência individual, de um ponto de vista, é possível alcançar o outro e um outro modo de mostrar-se, muito mais aderido ao que possa ser de fruição coletiva. Se estamos sempre em busca de produzir identificações, o (in)Formando Novos Talentos trata-se, como sinaliza o próprio nome, de informar sem, por isso, deixar de formar, numa experiência que se constrói enquanto conta.

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O resultado dessa feliz aposta na simplicidade de recursos e no olhar aguçado dos participantes é uma exposição e de um livro na qual o público pode entrar em contato com diferentes poéticas e (trans)formar o próprio olhar.

Em meio a desafios humanos e sociais tão proeminentes, a proposta de Maurício e Vanessa é um desafio à ressignificação a partir do diálogo e da inclusão. Podemos encontrar um apelo sutil ao uso racional das tecnologias. Não está em causa, portanto, lutar contra algo consolidado (a constante presença dos telefones em nossas vidas) mas uma provocação quase não intencional a que pensemos modos de nos valermos da realidade em prol de nosso desenvolvimento pessoal e da formação de universos particulares.

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Outro dos méritos do projeto, é localizar a figura do artista como alguém mais próximo do público, o artista como sujeito-comum que se permite mobilizar recursos de modo a ver/representar o mundo de um jeito muito próprio embora capaz de encontrar eco no coletivo.

O projeto, aliás, é feito no coletivo. Contando com a curadoria da experiente consultora de arte Julie Belfer, os artistas selecionados Alan Nihei , Ana Karina Prado, Bruno D. Sampaio, Cesinha Marin, Christian Schönhofen, Daniel Rebello, Gabriel Ekermann Fiori, Jacke Sakai, JanaineSetenarsky, Juliana Rybzinski, Lucia Biscaia, Mariana Alves, Matheus Schemiko, Michelle Barllet, Raina Costa, Tessalia S. de Castro, Tom Pesch, Verônica Filipak, Vinícius Cidral e Wanderson Mosco compõe com seus trabalhos exposição que fica em cartaz no Muma em Curitiba até o dia 12 de março. A vencedora, Juliana Rybzinski, terá seu trabalho exposto na Galeria Teix, também em Curitiba.




Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Mais em: Exposição (in)Formando Novos Talentos
http://www.informandonovostalentos.com.br/
Data: 8 de fevereiro a 12 de março
Local: Museu Municipal de Arte (MuMA) – Portão Cultural | Av. República Argentina, 3430 – Portão
Horário: das 10h às 19h (de terça-feira a domingo)
Informações: (41) 3329-2801
Entrada gratuita


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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