Conheci Igor Oliver por conta de um projeto na área das artes. Desde o primeiro contato ele foi sensível às minhas intenções de pessoa desconhecida. O mesmo aconteceu quando o convidei para um encontro no qual pudéssemos conversar um pouco sobre seu trabalho.

Era domingo e o tempo nublado trazia a ameaça de chuva. A hipótese, entretanto, não nos impediu de seguirmos até a praça onde havíamos combinado de fazer algumas fotos. Se o pé d´água viesse, encontraríamos uma solução. Essa ideia de lançar-se e de estar disposto a lidar com as contingências – eu ainda não sabia – teria muito a ver com o conteúdo que mais adiante marcaria a fala do artista.

Ao perguntar sobre o início de seu percurso artístico, descubro que o caminho de Igor é feito de muitos inícios porque cada etapa é sempre uma novidade, um começo  – uma nova contingência.

O começo-começo aconteceu por volta dos três anos, com as primeiras garatujas. Depois vieram as referências nos desenhos animados da infância, os mangás da adolescência e a mão livre sempre reproduzindo as imagens que os olhos gostavam. Nascido em uma família de classe média sem tradição artística, o gesto de desenhar era também contingência tornada hábito pela sensibilidade dos pais que permitiram ao filho que desenvolvesse o gosto pelos lápis e papéis.

Transbordando as referências diretas, a paixão pelos filmes de Quentin Tarantino foi importante referência estética a permear muitos trabalhos de Igor. Sua relação com as artes contempla muito fortemente a dimensão do diálogo. E não apenas esse diálogo possível com o cinema, outra linguagem. Falo da percepção do diverso, da referência que é referência ainda quando pela oposição.

Ainda que pudesse reproduzir de memória e por meio do próprio imaginário, a curiosidade sobre como funcionava o imaginário de outros artistas sempre foi um fator de interesse. Um dia, ao encontrar Joe Bennett, a oportunidade de uma conversa o fez pensar sobre a importância de construção de um percurso capaz de estabelecer diálogo mas também diferenças com relação ao imaginário e aos trabalhos de artistas tidos como inspiração. Esse entendimento marcou uma fase de amadurecimento.

Com 18 anos Igor ingressou no curso de Licenciatura em Artes Visuais na Embap. Uma inquietação, entretanto, o fez interromper a graduação. O que poderia ter significado um distanciamento ou uma mudança de rumo se revelou, pouco a pouco, parte necessária de uma escolha de percurso não linear mas bastante coerente.

Do primeiro emprego na área de marketing ao período de trabalho no setor de atendimento de uma livraria, Igor pôde observar a maneira diversa como as pessoas recebem, compreendem e demandam informações e quais impressões devolvem ao mundo a partir daquilo que absorvem. A relação entre as pessoas, suas formas de estar no mundo, seus conhecimentos e também suas limitações passaram a estar integrados como parte do trabalho do artista que nunca deixou de produzir.

Nos lugares por onde passou e por onde passa, Igor sente que é preciso estar atento a transmitir algo na relação com o outro e de se perceber – e perceber o outro – como um ser político e social que para se relacionar requer olhar empático e um caminhar junto no qual são respeitados os recursos – e percursos – de cada um.

A certeza de que ninguém avança sozinho e de que as melhores construções acontecem nas parcerias fez com que Igor estabelecesse contatos com pessoas de diferentes áreas, realizasse exposições e com essas vivências revisitasse conceitos. O contato direto com conjunturas e pontos de vista diferentes fez parte do despertar do artista para um gosto pelo que, na vida, vai “entre”. Explico: Igor destaca o quanto é importante apreciar o momento presente, aquilo que não está nem no desejo e nem na realização, mas no espaço de construção. A construção guarda sempre alguma coisa de inédito.

Mas, nada contra as repetições: o ingresso na faculdade de Artes Visuais foi coisa dessa ordem. Depois de um período de afastamento e de um novo vestibular, a Licenciatura foi retomada. Por meio de um movimento de afastamento com a faculdade e da assunção de um risco é que Igor pôde reiterar sua escolha a partir de uma nova posição.

Com isso o artista me faz pensar sobre o momento/conveniência das experiências em nossas vidas. Muitas vezes nosso encontro com o que desejamos é um pouco desajeitado. Se como dizia José Saramago para conhecer as coisas é preciso dar-lhes a volta, dar-lhes a volta toda, Igor parece ter sabido colher pelo caminho dados que o aproximassem do real e possibilitassem escolhas conscientes mas nem por isso menos apaixonadas.

Igor comenta algo de seus trabalhos que parece ter muito a ver com essa ideia: evoluir a partir do que surge.

Quando um traço sai fora do previsto Igor não descarta isso que à primeira vista parece um erro: toma partido e trabalha em cima para que o próprio trabalho conte alguma coisa, conduza a algum lugar. Há sempre uma outra voz a dialogar com a nossa – nem que seja a voz do nosso inconsciente.

A ideia de que não é apenas o artista quem dá sentido a uma obra se faz presente também na relação com o público: segundo Igor, a melhor coisa é quando as pessoas trazem seus significados e se permitem se relacionar com a arte e com algo de lúdico.

É inevitável perguntar ao artista sobre a presença recorrente dos coelhos em muitas de suas obras. A resposta tem a ver não apenas com uma predileção estética, figurativa, mas com o coelho como condensador de elementos que sobrelevam traços, potencialidades e palavras que podemos atribuir à mítica. O coelho como figura que também conta alguma coisa que não é controlada pelo artista, reunida na simbologia popular.

O coelho e a profusão de associações que o circundam: astúcia, fragilidade, inteligência. O coelho arisco, fértil. A fertilidade que remete ao erótico, à multiplicação. O coelho e sua relação com a lua na China, o horóscopo, Alice, a Páscoa : toda sorte de ideias, tão diversas e ao mesmo tempo contíguas; como são também as pessoas e todos os seres. Igor é desses que acredita na vida como um percurso de deslizamentos, de transições, de passagens – a vida e a gente, talvez, como alguma coisa que salta feito os coelhos: os dois pés de uma vez, sempre adiante.

Na arte cabe admiração, equívoco, voz e na arte tem também palavra. Além de pontuar trabalhos nos quais o poema entra como diálogo direto, Igor relembra um recente prazer: ilustrar alguns textos para o Jornal Literário Rascunho. A partir da narrativa escrita a possibilidade de oferecer uma sugestão, outra perspectiva. Aberto a escutar o que o outro tem a dizer e a colaborar com generosidade, Igor parece encarar a arte, acima de tudo, como recurso para tornar a experiência da vida no coletivo algo que valendo-se das ambivalências entre belo e feio, alegre e triste, bem e mal, seja capaz de fazer com que nos reconheçamos – em relação a nós mesmos e aos outros.

Quando perguntado sobre a relação com os pincéis e as tintas, materiais que não vemos como materiais preferenciais em seus trabalhos, ele se diverte pensando nos experimentos e nos encanta com a lembrança de que as cores só existem pela luz. Novamente a ideia do contíguo, do que é dois – e do que é contingência.

Em muitos trabalhos de Igor o preto e branco prevalece e encontramos apenas algum detalhe em cor; novo contraste. Mas o que pode ser a vida senão um cenário habitado de curiosos e fantásticos personagens feitos de cor semelhante a das sombras? Mas o que pode ser a vida senão esse estar junto onde encontramos pontos delicados de cor aos quais convencionamos chamar de sucesso, amor, felicidade – ou arte?

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbado: Igor Oliver Art

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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