E scolho como parte do título o título de uma música do Lenine. Porque em algum momento falamos das músicas de Lenine.

Era domingo, fim de tarde. Por isso eu carregava numa sacola de papel um pedaço do empadão feito no almoço. Coisa simples.

Esse horário entre o almoço e a noite, aos domingos, parece ser lugar de uma liberdade especial. Coisa simples, também – ainda que rara.


Ao sabor do ócio, a primeira coisa que vejo em Gus são seus pés ociosos. Pés de macaco, pantufa, como um galho onde me agarro primeiro. Depois veio o capuz, ponto último dele, alcançado pelos meus olhos de medir dos pés à cabeça.

Mas não demora e Gus se despe do macaco e do capuz, e desde ali sei que terei de ficar com qualquer coisa que haja nele entre os primeiros dois extremos. Para minha surpresa, ele deixa que eu vista o macaco. Coisa simples de novo. A pantufa ainda quente passa, então, para meus pés. Porque gostei com os olhos e não escondi.

Gus gosta das pessoas que não escondem. Das que, ainda quando não mostram, revelam – e se revelam. Uma afirmação espontânea, um movimento equívoco, uma vírgula. O gosto dele pela fotografia talvez tenha a ver com transformar transparências [revelações?] em algo preenchido de cor. Suas lentes são como um conta gotas maravilha. E tingem o negativo-positivo da vida.

Talvez a vida seja generosa com Gus, passando a ele o vislumbre de algumas imagens assim como fez ele quando passou para mim o conforto dos próprios pés. Tudo é um ciclo. Mas o gesto, todo gesto, é bom que se esclareça: pode se tratar de generosidade, mas não é, propriamente, abnegação. Gus empresta a pantufa não para pisar com os próprios pés no gelado – há outras pantufas na casa, como há outras tantas imagens – e pés e fotógrafos e chãos por aí.

O fotógrafo, acho, nunca é um abnegado porque aprendo com Gus que isso de fotografar carrega um bom tanto de idiossincrasia. Por que a preferência por esse ou aquele ângulo? Por que essa ou aquela coisa? E o que dizer, então, da dificuldade que é fotografar o que diverge das preferências éticas, estéticas
Poéticas?
Uma casa com vários sofás é um
bom lugar para uma reunião de pernas, de plurais
de conta-gotas
Um bom lugar para tirar os pés do chão e relaxar
Uma rede que balança é
uma boa metáfora para isso que é
estarmos
Simplesmente juntos

É quando vejo o quadro. Uma década e mais um: foi esse o tempo dos dreadlocks agora transformados em arte. Esse um, do número de anos que são onze e não dez, talvez seja o extra que permite existir a moldura dos cabelos em forma de raio, de sol, os cabelos fora da cabeça – fora de lugar, em conta inexata – adornando, ainda, a sugestão de uma cabeça, para continuarem a estar numa cabeça – sem estar. Como as pessoas, talvez, que estão numa foto para sempre – sem estar. Será, então, que fotografar pode ter alguma coisa a ver com fazer algum luto? Ou ao menos com a capacidade de enxergar além do óbvio?

Uma das fotografias mais marcantes para ele?

Aquela, daquele menino da praia que, na foto, repete e repete e repete o tropeço, quantas vezes seja preciso até que alguém olhe e veja e diga e permita que o drama aconteça

O pranto
Pronto nos olhos
Só aguarda a notícia

É mais ou menos assim que diz a poesia de Carrascoza
Que me faz lembrar
Gus
que me faz lembrar
a fogueira que imaginei no quintal dele
com a roda de amigos
e mais sofás no pequeno-grande porão
Uma casa precisa ter cara de lugar-de-sonho
Gus, talvez, nas poesias próprias [feitas a partir das poesias tantas que andam soltas por aí] aguarde pequenos milagres, esquisitices, qualquer simplicidade. Com paciência. Com consciência. E com ciência, também.

Não sei se ele tem religião, mas como a coisa da espiritualidade em algum momento cruzou o nosso céu de domingo, ousei escolher, entre as palavras possíveis, a palavra milagre

Porque também ele – sem saber se há em mim religião ou espiritualidade – deu-me a palavra
intuição para tentar batizar
Isso,
Aquilo para o que Gus, ele mesmo, não deu nome
Afinal só pode ser intuição:

O Mickey
O macaco
E aquele amigo do ursinho Puff
Qual é mesmo o nome dele?
Intuição, ora!
Deve ser coisa simples
Deve ter alguma coisa a ver com tudo
Que a gente esquece e lembra
E sabe sem saber
E conhece sem encontrar a palavra exata

E porque não encontra
Fotografa
Tenta.

Seguimos
Com Gus e seus companheiros de rede, os pés longe do chão
Como quem flutua no papo
Com direito a um minuto incômodo
de silêncio
Diante da beleza das flores trazidas de um casamento
Ontem
As fotos, como as flores, restam
depois do fim da cerimônia

Nosso encontro, como toda cerimônia, celebração
chega ao fim

E eis aqui o meu retrato dele; o encontro. Um retrato de Gus, não ousaria. Ouso, apenas, uma combinação de palavras. Uma combinação única, que poderia ser outra, que poderia ser tantas quantas fossem seus autores – e interlocutores.

A combinação de fatores que faz de uma foto o que ela é também passa pela autoria – e pela interlocução. Coisa simples, mas grande. Gus Benke é só mais uma pessoa, mas é, entretanto e entre tantas, o resultado de uma combinação única em diálogo aberto com o mundo. Simples, mas grande, entende?


Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbado: Gus Benke

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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