Quando vemos uma obra de arte como uma pintura ou um desenho nos ocorre, as vezes, pensar como o artista chegou àquele resultado. Cogitamos quais terão sido os materiais ou qual gesto preciso foi necessário para criar formas tão originais.

Essa viagem pelos caminhos da criação, entretanto, parece menos frequente quando se trata de joias. Não sei se pela rigidez dos materiais ou se porque a profissão de ourives parece algo misteriosa, não é comum imaginarmos quais processos artísticos e criativos levaram aos anéis, colares e outras peças que tantas vezes passam de mães para filhas e acompanham a trajetória de gerações, por exemplo.

Hoje o hábito de investir em joias e transmiti-las como herança afetiva e material não é tão frequente como foi no passado, mas o lugar das joias para cada pessoa e cada família continua a marcar a passagem do tempo: cada peça é única e a simboliza momentos e histórias de vida.

Não é incomum pensarmos na palavra ourives como substantivo de gênero masculino. Durante muito tempo essa profissão foi exercida como outros ofícios artesanais transmitidos de pais para filhos em suas oficinas. Mas ainda que nosso imaginário continue um tanto rígido na associação entre pessoas e profissões, há sempre oportunidade para reconstruirmos personagens e escaparmos dos clichês. Agora quando penso em ourives penso em Bruna e em Júlia.

O correr dos tempos mudou o cenário da produção de joias. Hoje é possível encontrar muitas mulheres que em suas oficinas não recuam diante da rigidez das pedras e dos metais. É o caso das irmãs Bruna Hobi e Júlia Hobi que nos receberam em seu ateliê em Curitiba. Elas são as criadoras da Giulietta.

Ao mesmo tempo em que as ourives manejam fogo e uma coleção de ferramentas que os curiosos tem vontade de perguntar uma a uma para que servem, há uma infinidade de minúcias como ligas e brilhantes a nos dar a dimensão da delicadeza que, contraponto à repetição de forças, faz da criação de uma joia um processo de alternâncias.

A criação das joias, além do trabalho artesanal com os metais, é precedida por um processo imaginativo que, sem pressa de ganhar corpo, se inicia com referências que podem ser encontradas no pedido de alguém ou num sonho das próprias ourives. Conversando com Bruna e Júlia ficamos com a ideia de que uma joia, tal como a vemos, é a materialização de uma sequencia de diálogos; a sensibilidade depois de submetida a diferentes condições de atmosfera, temperatura e pressão.

A formação de origem de Julia é o Design e a de Bruna é a Arquitetura. A soma de referências trazida por cada uma das áreas se une na fabricação de peças com formas criativas e clássicas. A delicadeza transmitida por cada joia talvez seja uma das características mais marcantes das criações das irmãs; mesmo nas peças mais robustas como crucifixos, há algo de sutil como assinatura.

Cada trabalho transmite o esmero e a técnica com os quais foram feitos. A paixão pela profissão de ourives levou as irmãs até a Itália. Em Florença, ambas tiveram a oportunidade de conhecer histórias, processos e aprender com grandes mestres.

Dentro do ateliê em Curitiba, apesar da concentração, não há silêncio. Uma variedade de sons dá notícia das tantas etapas pelas quais os materiais passarão até se transformarem nas joias que vemos. Seria isso ao que, no senso comum, chamamos de lapidação? O som dos martelos, lixas, o atrito, a lima. A atmosfera é de oficina, de trabalho difícil, mas o que vemos é só beleza. Nas gavetas, pastas, reagentes, abrasivos e outros segredos. Mas a atmosfera é também de mágica. Pedras de tantas cores, as ligas, as metamorfoses.

Nascidas em uma família na qual o fazer manual é uma tradição percebida com carinho e orgulho, Bruna e Julia se unem para produzir peças que, prontas, não são de autoria nem de uma nem de outra, mas a soma de esforços e a conjugação de dois olhares no verdadeiro senso do que seja trabalhar junto: compartilhar espaços, autoria – além de uma profissão e uma vida.

Giulietta, esse nome próprio de origem italiana, transforma-se em nome que batiza as criações das irmãs e se consolida como marca. A escolha revela a importância atribuída à figura da mulher, o feminino e o desejo de dar corpo a joias capazes de compor o visual de quem valoriza o subjetivo, o singelo – joia rara com brilho próprio, poesia ganhando corpo em tempos de consumo em quantidade, delicadeza em tempos de objetos ostensivos e apelos neon.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbadas: Bruna e Júlia Hobi
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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