A expressão “o melhor do mundo” já virou um clichê gastronômico. São tantos os hambúrgueres, pizzas, cafés e afins que assim se intitulam no Brasil… Mas aqui, na Itália e nesse texto, o superlativo, bem distante de um slogan, é somente um recurso para tentar explicar minha impressão – desde a primeira palina – a respeito da qualidade dos sorvetes feitos pelo gelataio Giulio. Aliás, o termo mais adequado seria gelatiere (aquele que faz) mas ele prefere gelataio mesmo (que seria o responsável pela venda); também para mim a palavra parece mais charmosa, então escolhemos ficar com ela. Giulio também acha que eu só deveria afirmar que o sorvete dele é o melhor do mundo depois de provar todos os sorvetes do mundo, mas isso é puro preciosismo.


A história do melhor sorvete do mundo, como toda grande história, é uma sucessão de acontecimentos nem sempre previstos que, pouco a pouco, dão forma à experiência de uma bela aventura pessoal e profissional.

O trabalho na área de alimentação começou para Giulio ainda na década de 1980 quando, junto a um sócio, tocava uma birreria. Embora nunca tenha sido cozinheiro e muito pouco tenha fantasiado sobre trabalhar com serviços enquanto projeto de vida, o dia a dia e o convívio com os clientes chamou atenção para a ligação que a comida tem com o bem-estar. Segundo Giulio, somos responsáveis por todas as coisas que produzimos e oferecemos ao mundo, e quando pensamos numa necessidade tão básica e ao mesmo tempo tão simbólica quanto o comer, estamos diante de algo essencial; é preciso muita dedicação.

Depois de um período de intervalo nas montanhas e no trabalho como inspetor de escola, Giulio entendeu que a atividade comerciante era mesmo o ramo onde poderia oferecer o seu melhor. Atuar no sentido de que sejam consumidos os produtos da estação e com respeito às suas características de forma e textura soava como um “chamado”.

A prática que muito recentemente conhecemos no Brasil com o nome de slowfood é uma realidade em muitas cidades da Itália. A preocupação com a procedência e a exigência de um alto nível de qualidade faz com que muitos italianos prefiram os produtos locais. Não se trata de uma prática relacionada a comer em grande quantidade ou com sofisticação, mas cozinhar com os ingredientes mais frescos, genuínos e, ao mesmo tempo, fortalecer o próprio território.

E isso, é claro, também se aplica à fabricação artesanal de sorvetes. Unindo sua filosofia de trabalho à admiração que sentia pelos maestros sorveteiros italianos, Giulio entregou-se totalmente à atividade. A partir de ingredientes obtidos de produtores conhecidos e de suas próprias preferências de sabor é que adaptou receitas para, aos poucos, criar seu próprio modo de fazer. Lançar-se a essa mudança foi o salto para realizar uma atividade em relação a qual sentia que tinha algo a fazer; um movimento muito marcante do ponto de vista subjetivo.

Preparado pela experiência de vida proporcionada pelo trabalho em restaurantes, Giulio pôde seguir para uma nova etapa de seu percurso: a realização de uma atividade para a qual se sentisse pronto a realizar em nome próprio. Longe de ser um nome comercial a batizar um estabelecimento, Il gelato di Giulio é o nome sob o qual uma história de realização e amor se abriga.

Muitos episódios fazem parte desse caminho. A venda de sorvetes na praça. Os figos apanhados do próprio quintal. Os melões trazidos por uma amiga. Um erro na receita que, um dia, serviu para torná-la melhor. Os erros que continuam a acontecer. O desafio criativo. A opção por somente produzir sorvetes com os sabores que mais gosta. A coleção de bilhetes recebidos das crianças, todos eles cheios de palavras que resultam numa alquimia tão especial quanto a que ele faz, feito um cientista, dentro de seu laboratório.

Giulio é mesmo um alquimista. Aos fundos da gelateria estão máquinas que só a experiência ensina a manejar e ingredientes que, embora formem uma receita, só Giulio detém o segredo da mistura. Mistura essa que tem como principais qualidades a sua própria paixão transformada em sabor e delicadeza. Ele garante que nenhum sorvete é igual ao outro.

Alguns chamariam essa delicadeza de leveza, por que não? “O equilíbrio é a leveza do gelato”; assim está escrito na caricatura dele, afixada próxima ao balcão. Um amigo, ex-controlador de voos e artista por hobby, foi quem teve a sensibilidade de expressar em imagem e palavras aquilo que Giulio não guarda a sete chaves, mas mantém em segredo. Ele bem que tenta explicar que a refrigeração deve ser feita em baixíssima temperatura, que os gelati devem ficar “escondidos” para serem protegidos de luz, ar e contato, e para manterem a consistência, o perfume e o sabor sem a adição de espessantes. Mas, por mais que ele tente explicar quão mais fácil é fazer um sorvete de qualidade que um cheio de aditivos, sei, desde antes que, feito arte, os sorvetes de Giulio escapam de qualquer passo a passo: são coisa que exige mão, são coisa autoral.

Autoral também é o cartaz – letreiro? – por meio do qual encontramos expresso o nome que aponta para uma pequena chance de definição. Em letras bordadas, linhas que se cruzam, a esposa de um amigo foi quem costurou, ponto a ponto, uma espécie de retrato em letras. Nada é por acaso no pequeno salão –  e embora nada seja proposital há sempre, em comum, muita verdade, sentido e simplicidade. Ele confia nos olhos – os seus, ao medir o que vai em cada receita, e os do público quando experimentam o resultado.

E é assim, apoiado em afetos, que toda manhã, matina dopo matina, o gelataio cumpre o ritual de produzir o alimento que também se encarregará de servir. E não é exagero dizer alimento pois Giulio faz questão de mencionar que seus sorvetes não são guloseimas; possuem valor nutricional. Ingredientes pouco processados e combinados em doses moderadas compõem sorvetes que quando consumidos com mais frutas ou cereais viram, inclusive, um bom jantar! Até ao final da noite é possível encontrar a porta aberta, porque é verão.

A disponibilidade quase integral não é, entretanto, cumprida como obrigação. Se acordar um dia e não quiser mais, punto. Parte-se para a próxima. Não há nostalgia, apenas desejo e uma vida que segue em frente de acordo com a intuição – a mesma com a qual adiciona mais ou menos açúcar a depender da maturação dos morangos. Por enquanto, ainda bem, ele trabalha, todos os dias, em busca de encontrar o “ponto interessante”. A vida não é meio assim também? Concluímos, juntos, que um cuidado no tom, um apuro na cadência e uma intenção são capazes de transformar a matéria das coisas.

Pacato como a própria cidade onde trabalha – a pequena Riese Pio X, ao norte da Itália, na província de Treviso – o gelataio tem sempre um sorriso e, mesmo longe de exibir uma personalidade expansiva, ele se diverte – e se nutre – das histórias que acontecem em sua rotina e em torno do que serve às pessoas. Há sempre alguém de passagem, há sempre alguém interessado em contar as moedas do bolso e ver se elas bastam para um sorvetinho; pedido feito para ser saboreado em cono ou coppetta, não importa – o que importa é pedir o que tiver vontade e estar à vontade, a proprio agio. É assim, aliás, com a menininha que sempre escolhe – em cono – o de liquirizzia, traduzido como alcaçuz, que é sabor um tanto inusitado para o paladar das crianças. A sorveteria, meio pedaço de paraíso, fica bem em frente a uma escola municipal.

Como escrito em um bilhete deixado por algum de seus pequenos clientes, “não importa se a gente vai ou não se ver de novo”; quero te escrever essa carta; há palavras que precisam ser ditas, não importa a efemeridade do encontro, não é mesmo? É preciso agradecer pelo trabalho que o outro faz [por nós]. Giulio, em canetinhas coloridas e com um grande sol ao lado eu queria te escrever: obrigada por fazer o melhor sorvete do mundo!

Foto e verbo: Andressa Barichello

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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