Não fora acostumada a gostar de gatos. Houve encontros, alguns, mas nunca dirigidos a si. Conjurações banais, como compartilhar o mesmo saguão de aeroporto com um sujeito que, sabe-se lá de qual departamento, é também um funcionário do nosso empregador. Convivências de papel, como a presença das visitas na sala quando adentram nossas casas por serem chegadas de outro morador.

Um desconhecido dentro de casa nos faz sentir também visita no perímetro do próprio território. Não estamos ali por aquele que ameaça testemunhar o design das nossas pantufas. O estranho, constrangido ao ter de incorporar à cena de sua estadia a passagem e as pantufas desse outro habitante que sobra; equação cujo resto é para ambos igual ao cansaço de estarem juntos pelo único motivo de saber que um afeto em comum basta para ter de escancarar a um extra improvável todas as quinas da planta íntima.

Não fora acostumada a gostar de gatos porque gatos não correm atrás do próprio rabo. E acima de tudo porque nunca pôde compreendê-los senão por analogia aos cachorros. A equação felina entendida como resto. Porque abanasse o rabo, latisse, chorasse e alucinasse… O gato, submetido a um gostar de condições impossíveis. Indiferente ao desagrado que causa. Impassível a demandas desinteressantes… Como a visita alheia ao nos ouvir ligar o carro e sair. Que não exibisse as unhas. Que não adentasse a janela. Que não se movesse de súbito, que não fosse imprevisível como são certos encontros em saguão de aeroporto.

Não fora acostumada a gostar de gatos, porque gatos, ao contrário de cachorros, não precisariam pedir atenção para tê-la. Imprevisíveis exigiam a sintonização constante, a mesma que se tem com as visitas que não são nossas, porque é preciso evitar que desconhecendo um qualquer movimento sejamos apanhados de pijamas ao cruzar um corredor.

Não fora acostumada a gostar de gatos.

Mas há sempre um dia em que aquele funcionário do nosso empregador levanta-se de sua poltrona e vindo em nossa direção abre um sorriso. Mas há sempre um dia em que a visita rompe o silêncio e levanta-nos o olhar, ousando um balançante e simpático tudo bem?. Mas há sempre um dia em que vamos ao encontro do funcionário e da visita, com as garras recolhidas, o olhar benigno e, mais relaxados, permitimos que alcancem nossos corpos.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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