Fred Martins vive em Lisboa. Ou entre Lisboa e o Rio de Janeiro. Ou entre Lisboa e o Brasil. Escolho a palavra divisão como espécie de norte para esse texto.

Norte: quando cruzou o oceano trazendo música para a Europa, seu ponto de chegada foi a Espanha, mais especificamente a Galiza. Passou por Pontes Vedras, Compostela.

Os desafios daqueles primeiros tempos hoje são lembranças a dividir também o tempo – o antes, a chegada, e o aqui. É verão em Lisboa quando nos encontramos e ele, com um sorriso, recorda uma noite fria atravessada com a filha em um pequeno apartamento quando tudo desse lado do mar ainda era um território desconhecido sem os laços que o tempo, a musica e os bons acasos não tardariam a costurar.

Quantos terão sido os objetos que ficaram lá e cá? Em todos os sentidos, o que se perde e o que se ganha na bagagem quando se opta pelo deslocamento? Ou pelo descolamento?

Na primeira década dos anos 2000 o cantor e compositor foi um dos artistas a viajar pelo Brasil com o projeto Pixinguinha, evento cultural destinado a difundir a música popular brasileira nas mais diversas regiões que teve suas primeiras edições ainda na década de 70. Realizado no que alguns convencionam chamar de “Brasil profundo”, os encontros (ou deslocamentos) selaram o compromisso de muitos artistas em oferecer o seu melhor, desafiando o público com novidades.

Em uma caravana, Fred percorreu o norte e o nordeste, passando por pequenas e grandes cidades. Em todas elas a confirmação de que as pessoas estão abertas a conhecer e fruir os mais diversos tipos de música, especialmente aqueles que a indústria poderia julgar menos viáveis (o descolamento?).

Daí a brecha para falarmos das contradições entre arte e indústria, outra divisão, e tema instigante na conversa com Fred.

Para ele, a arte envolve o pensamento, a preocupação com o rigor e a disposição para correr riscos. É um percurso lento pautado pela admissão do muito que não se sabe sobre aquilo que se faz, consciência que permite buscar sentidos além do superficial. Com o desejo de atravessar o tempo, a arte quer alcançar aquilo que o entretenimento não pode. E isso implica resistência que, aliás, tem sido a palavra mais importante dos últimos dias.

Fred Martins tem alma pagã e é alguém de fé: as boas ideias podem ser viáveis ainda quando sobre elas não haja grande promoção ou patrocínio. O investimento mais importante é de outra ordem.

O encontro com o público, o corpo a corpo, foram e continuam a ser a melhor forma de viabilizar o intuído. Esteja fisicamente no Brasil ou não. Aliás, dizer que sua música “saiu do Brasil” – implica mais uma divisão: a saída simboliza tanto momentos de ausência quanto maior extensão de presença.

Ser um músico brasileiro fora do Brasil é também uma forma de ampliar o alcance do que seja pensar o Brasil como uma cultura que, embora ocupe um vasto território, existe múltipla e atuante para além das próprias fronteiras e da própria origem – corpo imaterial, outra divisão. Essa percepção é um compromisso artístico e político.

Com uma rede de parcerias musicais afinada e como parte de um círculo no qual fazer música tem a ver com levar uma cultura em suas especificidades, mais que uma escolha de carreia, a música e a poesia são a forma de vida que Fred encontrou. Seguir adiante com esse trabalho em constante evolução é, de novo, fé e resistência, ou seja: possibilidade de continuar a sonhar.

Em tempos de negacionismo no qual as experiências históricas e a solidariedade dão lugar a um cenário coletivo de autodefesa e comportamentos oportunistas, nossa conversa teve como pano de fundo a preocupação com o crescente discurso de ódio no Brasil.

Para Fred, o acirramento de ânimos que vivemos hoje no país é consequência da falta do mínimo em tantas áreas, realidade que reduz os espaços. Para conseguir mais que sobreviver, é preciso paz. E para encontrar paz é preciso um interesse coletivo em reduzir desigualdades, em renunciar a privilégios.

Essa paz cada vez mais difícil é, ainda, uma possibilidade na música. Talvez porque o próprio gesto de fazer música, de permitir-se ao ócio criativo, é um gesto revolucionário. E poderoso. Porque compor é um fazer a partir “de uma disposição vem”, algo em que o inconsciente tem parcela. Desejo. Divisão. O resultado então é alguma coisa que dialoga com o sem palavras do outro – poetas cortejando a branca luz?

Divisão pode significar desarmonia, mas também quer dizer distribuição, partilha, repartição; o pão, a fé.

Na simbiose entre o que é música e letra, o poeta é o grande filho das musas e também o simples homem que num dia começa um poema e não o acaba. E precisa esperar o sono, a noite, a madrugada e o dia seguinte. E continua. Esvazia para encher. E quando acorda, desabrocha. Amanhã.

Disso que se torna possível ao sair do sono é por onde circulou a conversa com Fred.

Acordar como sair do sono, sim, mas acordar também como um ficar de acordo. A ideia de afinar, palavra tão comum ao universo da música, vai assim transposta para a essência do que procura o artista e o que procura o artista no mundo: harmonia, arranjos e produzir ou celebrar alguma diferença.

Então lembro de Noite de São João, canção de Fred feita a partir do poema de mesmo nome escrito em 1919 por Alberto Caeiro. Para que letra e melodia pudessem estar juntos, pequeno ajuste foi feito no texto – e Fred ri enquanto confessa seu crime nenhum, sua brincadeira cúmplice com o poeta Fernando Pessoa. A melodia entregou-se ao poema e é por isso que ele, por sua vez, aceita que por vezes ouçamos para minh´alma onde há o registro-afirmação para mim há uma.

E com essa última divisão surge, enfim, uma metáfora para dizer que apesar dos laços com o fado, a morna e com tantas outras referências do mundo lusófono, é precisamente essa alma que Fred Martins nos faz ouvir. Daí a emoção, o encontro, a comunhão de toda babel. Essa alma, índole e consciência, está presente (e inescrita) em Noite de São João e em todas as suas músicas.

E é uma alma brasileira, a sua alma, norte, inteiro e divisão: a música que eu faço é só porque eu nasci no Brasil.




Foto: Paulo Andrade
Verbo:
Andressa Barichello
Fotoverbado:
Fred Martins
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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