Quando ele sai com a máquina fotográfica, às vezes gosto de dar uns palpites, sugerir fotos. Costuma não dar muito certo: foto é de quem a viu, sempre inútil essa história de por que você não fotografa aqueles dois postes, o avião passando no meio e ó, ó, ó a saia da mulher ali voando, corre pegar!

O pedido até pode ser atendido, a tentativa pode ser feita de boa ou má vontade, mas o resultado no visor é sempre uma imagem vulgar que não desperta mínima graça.

Já tentei o me dá aqui que eu faço, mas passar a mão numa câmera nunca é uma tarefa fácil, é como mudar um colar pesado de pescoço à velocidade da dança das cadeiras. Acertar o clique, nesses casos, é equivalente à sentada vitoriosa, um equilíbrio entre braços e pernas em um resultado com mínima estabilidade.

Talvez eu balance demais a câmera; será por isso todas as minhas fotografias saírem sem foco ou com o foco na coisa errada? Em vez do rosto a roda, em vez do corpo a árvore, em vez do copo, a mesa.

Arrisco colocar o foco em mim. Querido, por que você não faz umas fotografias minhas, sei lá, experimentais? Eu não quero posar, mas quero ter fotos minhas, tipo aquela da janela, sabe como?

Os homens gostam de fingir que sabem como, sempre. E eu, bem, eu gosto dessas demandas impossíveis. Pedir a um homem que me desconstrua que capte qualquer coisa que escape à mãozinha na cintura, joelhinho inclinado e sorrisinho-monalisa que eu, caso solicitada, tenho a oferecer.

Espero encontrar pelos olhos dele alguma coisa que não vi em mim ou que se vi já não tenho. E assim vou me juntando àquela minha coleção de fotos perdidas pela falta de quem as visse junto comigo ou pela inabilidade de quem tentou fazer um registro.

Mas aí chega a noite. O meu prazer é, com alguma discrição, retirar o cartão de memória da câmera enquanto o fotógrafo está na cozinha, no quarto, no banheiro. Destravo a lateral enquanto seguro a lente fazendo da mão uma mordaça. Tenho o cuidado de ter a barriga como apoio para abafar o som do encaixe. A bateria às vezes ainda está quente.

E então me entrego ao sofá, com a satisfação de uma vilã, tivesse com sucesso pingado três gotinhas de sonífero no drink do mocinho.

Finalmente sozinha, ligo meu computador, coloco o cartão e vou olhando as minhas fotos, vou passando, uma a uma, as minhas caras e bocas. Não me tornei objeto de nenhuma Isabel Muñoz, Gisèle Freund, Vivian Maier. Tudo vai longe de uma estética Francesca Woodman. Fui, afinal, fotografada por um homem, embora não possa admitir que me tornei objeto de um homem.

Lá estou eu com os braços apoiados num cercado, com os dedos penteando os cabelos ou a boca entreaberta num close do meu rosto. Vejo-me em uma série irritantemente colorida, viva, ensolarada. E só não morro de raiva porque enquanto vou passando as fotos, uma e uma, me envaideço e me deleito enquanto penso: meu Deus, como estou bonita!

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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