O amor não é um recurso esgotável; sempre infinito, ele acaba porque nós, ao contrário dele, nos esgotamos.

Amor não é coisa que um dia termina feito a água do paulistano. Amor não é água que jorra da torneira e, abusada, resta por um fio. Ou uma gota.

Amor não tem volume. Nem esvazia. Um grande amor não me parece ser a força das Cataratas do Iguaçu. Bom se fosse. Mas se a comparação há que ser feita com H2O, fim de amor mais está para o balde que transbordou pela incessante goteira que se abriu no meu teto na noite de ontem. Esforçar-se de balde, ou debalde – como você preferir – é triste; é desgastante.

Fim de amor é a noite de ontem, quando havia ainda um barulho de chuva – hoje só resta o silêncio. O silêncio, esse sim, é afeito à dinâmica da torneira: é preciso gastar um manancial inteiro de palavras para chegar a uma grande seca. A palavra, pasme!, nem sempre é um recurso renovável. Fim de amor tem mesmo cara de seca – é um chão onde não vale mais a pena plantar ou colher. É um terreno árido no qual enxergamos muito sertão e nenhuma vereda.

Fim de amor tem mesmo cara de seca – é um chão onde não vale mais a pena plantar ou colher. É um terreno árido no qual enxergamos muito sertão e nenhuma vereda.

Mas a gente continua a esperar – por um caminho que se abra diante dos pés ou pelo barulho da chuva de ontem – na expectativa de que a água venha regar ao invés de escorrer telhado adentro e minar pingo a pingo o nosso juízo até, quem sabe, abalar de vez as estruturas – o telhado é sempre de vidro, afinal. E diante de um vidro quebrado, que é que a gente faz? Desiste, oras! Mas o mundo nos diz que é feio desistir, por isso é tão difícil entregar os pontos. Por isso somamos obsessivamente os pingos e os pontos o mais puder; ou enquanto acharmos que a lógica da balança resolve.

Fim de amor é quando a gente descobre que balanças tendem sempre para um lado e que insistir em buscar equilibrá-las entre prós e contras não resolve. Não resolve, como um problema de matemática entregue em branco pois, simplesmente, é preciso entregar a prova. Ninguém pode quebrar a cabeça indefinidamente – há que haver um derradeiro ponto de basta. Fim de amor, por vezes, é como fosse a gente mesmo o tal problema de matemática que, aflito, prevê que não será resolvido. Não que deixemos de apostar em quem diante de nós se põe a desenvolvê-lo – é apenas que, as vezes, o cálculo até vai em boa evolução, mas há uma linha crucial na qual empaca.

Fim de amor é quando a gente descobre que balanças tendem sempre para um lado e que insistir em buscar equilibrá-las entre prós e contras não resolve.

E sabemos: no amor não pode haver um impasse. No amor não pode haver nada errado nas entrelinhas. Especialmente nas questões mais fáceis. É exatamente nessas que a gente se desespera ao sentir que a despeito de toda a nossa lógica o quase óbvio segue ridiculamente ignorado. Dá-lhe um cinco ao invés do sete que encerraria magistralmente a questão. Você não sabe nada de tabuada, menino!

Mas e as palavras!? Ah, as palavras! Fim de amor é aquele enunciado para o qual faltou a mais simplória interpretação de texto. Quando a gente é o texto; quando a gente é o texto na mão de quem não sabe ler nada além do literal.

Há quem veja um bonde onde vemos desejo. Sabendo que literatura e arte são um privilegio de tão poucos, fim de amor é – em síntese – exatamente isso: a impossibilidade de fazer juntos novas metáforas.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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