Conversamos com Fernanda na semana do meu aniversário. Era uma terça-feira, pelas 10h. Bebemos um café, nos acomodamos. O sol da manhã entrava pela sala do apartamento e parecia procurar o corpo de Fernanda; não o contrário. Ela imã da luz. Escolho assinalar o encontro com a coincidência do meu aniversário porque essa escolha vai bem ao gosto da entrevistada que é atriz e diretora de teatro. A memória dela desponta como imã de datas. Sabe dia, mês e ano. Cada década de Fernanda é assinalada por eventos que dialogam com um episódio no Brasil, com uma cantora, um movimento de contestação.

Por exemplo, agora, aos 40 anos, ela relembra que nos anos 70 o teatro, atingido pela repressão, era um espaço no qual se discutia o país. Marília Pera e Roda-Viva: ela não esquece. Também fala de Pascoal Carlos Magno, o teatrólogo que, entre tantas contribuições, levou uma turnê de teatro para o norte do Brasil, gesto que viria a impactar a produção artística local nas décadas seguintes. Depois, relembra também Asdrúbal trouxe o trombone; esse último, descobri depois se tratar de um grupo de teatro importante na história do país. Fernanda deixa-nos referências, pistas. E a sensação de que as histórias que servem de contraponto para ela são, muito especialmente, coletivas – aquilo que marca cada pessoa de uma forma diferente, mas que estrutura [ou deveria estruturar] a narrativa de uma sociedade.

Desde 2014, com a transição de identidade de gênero, o corpo de Fernanda é um corpo que não passa despercebido. E fico pensando que isso não deixa de ser uma forma limite de estar inteira no coletivo; a alteridade é presença constante, na pele. Há em Fernanda uma força cidadã que emana desse ser alguém para quem o ser/estar não pode ser ensimesmado, precisa ser atento. A atenção que protege contra qualquer possível violência. A atenção que a permite enxergar o que para tantos pode, ao contrário de sua presença, passar despercebido.

Durante a infância, o voltar-se aos seus pensamentos e aos livros foi, é verdade, uma constante salvação. Na roda dos meninos ela não se encaixava. Na das meninas também não era bem recebida. A palavra “pária” tem a ver com a ideia dos intocáveis. E faço esse aparte porque Fernanda recusou-se a aceitar o lugar de intocável. A exclusão sofrida, desde antes da transição de gênero, destinava-se a repelir, mas conseguiu o contrário: levou o corpo ao centro do palco e provocou um estado de enraizamento – dela consigo, dela com o mundo.

Por falar em raízes, lembro-me de outras. As de Fernanda em Parnaíba, a cidade com média de 150 mil habitantes, segunda mais populosa do Piauí. É lá onde a vida começa, a vida que sempre importou tanto: a das artes. A arte como fazer que não se separa do existir, modo de estar no mundo, de sobreviver, de caminhar, muito além do exercício de uma profissão. Lá em 1992, o espetáculo de rua “Via sacra” foi o primeiro em que atuou, dando início à sua atuação nas Artes Cênicas. Ou será que o inicio nas artes se deu, de fato, ainda em 1988 quando em ano de redemocratização assistiu a esse mesmo espetáculo, com a condução de sua mãe? A ideia de que algumas coisas já são, antes de se expressarem como tal. Em 1994, ano da morte de Ayrton Senna, a chegada da próxima peça aconteceu por meio de um concurso. O enredo? A história da Parnaíba. Longe da Parnaíba, mas ainda dentro do Piau, no sertão de dentro, vale lembrar o nome da primeira capital: Oeiras. Oeiras é também, diga-se, o município onde nesse maio de 2018 Fernanda esteve para dar corpo à performance Involuntários da Pátria. Coincidências? Prefiro pensar em desdobramentos.

Apesar dos esforços que o fazer teatro longe do sudeste do Brasil continuam a exigir, Fernanda não deixa de se considerar uma privilegiada. Porque sabe que ter estudado “no tempo certo”, em uma escola próxima de sua casa e em uma cidade solar, que tem brisa, na foz do Rio Parnaíba é coisa que a coloca em melhores condições que muitos. Aliás, enquanto relata o tipo de aluna que foi, ela sai do discurso direto e ilustra um exemplo de frase dita às professoras da época: “tá faltando circunflexo em você, tá faltando acento em céu”. Sem nem dar por isso, recostada na poltrona as sala, Fernanda fez poesia. O circunflexo, esse acento crescente, arqueado e curvo – o acento que se dobra a serviço do sentido. O acento em céu: não seria ele a diferença entre o que soa como o “seu” e o que soa como o nosso, o universal, lá, onde estão os astros? Num mundo onde faltam acentos – inflexões de voz, tônicas, impressões da voz no espírito – reconhecimento é tão importante que as diferenças sutis são capazes de definir sentidos e definir o que será de um tempo.

Por falar em tempo, teimam em retornar as tais datas que Fernanda tão bem correlaciona. A morte de Tancredo Neves em 1985, por exemplo. Morreu o presidente do Brasil, morreu o presidente do Brasil, dizia ela ao irmão, prostrada e às lágrimas diante da tevê. Com as dores abstratas e dos outros, ela aprendeu a elaborar as próprias – e resgatá-las agora talvez seja forma de agradecer os empréstimos. A palavra empréstimo me faz lembrar do calendário, símbolo máximo de registro que conhecemos. Um calendário aparece nas conversas que ela, um dia, teve com um Jesus – tão bonito, tão conforme – estampado na folhinha. Em meio ao sofrimento por não ser como “os outros”e à procura de respostas, aquelas conversas tão difíceis com o homem, com o papel. Parece mesmo que o divino atendeu – papéis se tornaram metáfora para personagens, e as datas passaram a mover a vida. Ah, a importância de um compromisso marcado, de um espetáculo novo em vista, de uma francesa chamada Cèline Ruget com quem fizera amizade em 2012 na Parnaíba. Ter dentro de si mesma todas as datas parece equivaler a não precisar mais fazer empréstimos: responsabilizar-se pelas próprias perguntas e respostas. Muitas delas, aliás, estão na criança que tinha um circo no quintal, que brincava de dirigir cenas, naquele ser cuja vida interior encontrava caminho no lúdico e na expressão corporal. Já estava ali a metáfora.

Metáfora! Essa é palavra que, para Fernanda, também se escreve com inicial maiúscula. O Metáfora é seu grupo de teatro na vida. E dizer O Metáfora, sendo metáfora uma palavra de gênero feminino, não seria agora poder intuir que desde há muito, na simples possibilidade de mudança de artigo, já se dizia possível a mutabilidade de um gênero? Pelo Metáfora já passaram muitos membros. Até mesmo ela já esteve fora dele. Foi numa época em que resolveu fazer Sonho de uma noite de verão em praça pública. Na Praça de Santo Antônio, às 16h. Teatro na praça, saca? Pra quem quisesse aparecer. Apareceram: um surfista, uma ruiva, um roqueiro, um poeta. E com esse dentro e fora, percorrendo outro círculo – ainda que o círculo formado pelas circunferências da praça – a descoberta de que a amizade é, fim de contas, o que mais vale, ponto de encontro diria a metáfora – ou o Metáfora? Investir na estrutura física desse espaço para que ele possa vicejar, acolher os novos, profissionalizar cada vez mais atores. Se há hoje um sonho, eis sua tradução.

E por falar em círculo e tradução, Fernanda sempre foi, como diz, círculo incapaz de caber num quadrado. Acostumada a encontrar abrigo nos livros para traduzir-se, descobriu na pele que a palavra agenda não é só um livro, estilo caderno. Agenda é também pauta, programa que nos propomos a cumprir. Com isso, Fernanda me faz pensar: que outra resposta pode haver para as angústias da existência senão o gesto de fazer da vida uma agenda comprometida com aquilo que desejamos, por mais trabalho isso custe?

Sobre o trabalho, lido aqui não como emprego, mas como labuta, obra e esmero, o teatro aparece verdadeiro aparelho cultural formador. Custa caro performar no palco e viver fora dele. Talvez fosse mais fácil performar na vida e viver no palco – mas vale pagar o preço. E por falar em preço, se tem uma coisa pela qual Fernanda não se perdoa é ter deixado cair o seu lencinho Hèrmes, presente especialíssimo da amiga Cèline Ruget. Prefere nem falar muito no assunto. Não o tirava do pescoço. É um negócio caro e custou caro, emocionalmente, perdê-lo. Mas, afinal, usá-lo até perdê-lo, seria mesmo perdê-lo? Perder, talvez, tenha mais a ver com o que fica engavetado. E os dias de Fernanda, com ou seu lenço, estão todos pendurados. Balançam com o vento, feito seda. Passam, voam, se deixam cair e são, em todos os sentidos, dias em liberdade.

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbada: Fernanda Silva

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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