João lembra-se de ouvir fado no carro dos pais. Amália? Talvez.

Aquela era a música das pessoas mais velhas; era o que achava até ingressar na tuna. O agrupamento estudantil da universidade perpetuava o tradicional: o traje acadêmico preto, a afinidade com o fado. A faculdade de Engenharia acabou por ser substituída pela de Música. O jazz, a guitarra elétrica. Com mais mundo, João passou a ouvir o fado de um modo diferente, mais atento à poesia e à história.

Tiago tem um percurso diferente.

Aos 13 anos a sua expressão de gênero tornou-se uma vivência. O teatro foi o seu primeiro espaço artístico. A sua história com o canto inicia-se com um percurso autodidata.

No início da vida adulta, o trabalho em uma organização pacifista o levou a morar na Grécia. Durante uma noite cultural em uma pequena aldeia, com uma plateia composta quase só de idosos, o convite a que expressasse o próprio país por meio da música o levou a cantar Barco Negro, canção de Amália Rodrigues.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

Não parou mais.

O FADO

João e Tiago pontuam a situação do fado durante o regime de Salazar: fadistas com carteira e sob alvo da censura. A arte como manifestação tradicional esteve submetida ao controle do estado. A partir de 1975, com liberdade foi possível estabelecer um processo contínuo de surgimento de novos artistas, cada qual a realizar seu trabalho com marcas autorais. A partir da década de 90 e já nos anos 2000 muitos nomes tornaram-se destaque, exemplos conhecidos mundo afora como Carminho, Camané e Antonio Zambujo. Hoje o fado é parte da cultura popular e enquanto tal é também uma linguagem.

POR QUE FADO BICHA?

Ao retornar da Grécia, Tiago trazia consigo duas aspirações: iniciar uma atuação política e trabalhar com o fado. Para concretizar esses objetivos, tomou as medidas mais óbvias: inscreveu-se em um partido político e procurou por aulas de canto.

Logo nas primeiras reuniões do partido percebeu que o palanque, o comício, as mobilizações, as assembleias e todas as demais estruturas compunham um rito e um cerimonial que, embora interessantes, não geravam identificação suficiente para virem a se tornar a sua forma possível de ação.

Quanto às aulas para aprimorar-se no canto, encontrou um ambiente competitivo e austero. Ao cantar Ai, Mouraria (Amália Rodrigues surge uma vez mais), a percepção de um interdito mais ou menos velado: certos fados devem ser interpretados apenas por mulheres.

Ai mouraria
Do homem do meu encanto
Que me mentia
Mas que eu adorava tanto

Assim cantou Tiago. Na cabeça, a ideia de que na arte é possível encarnar todos os personagens. De mais a mais… Ora, não posso eu ter um homem do meu encanto?

Foi-se embora da escola deixando essa pergunta e a certeza de que a emoção de cantar acompanhado pela guitarra o deixava aceso. Sentimento demasiado forte para ignorar, à espera de que o inconsciente e os bons acasos viessem a compor possibilidades de articular a própria voz.

Foi preciso não ouvir vozes de comando. É preciso, por vezes, lidar com a aspereza da voz pública, da voz comum. Deixar a meia voz, escolher a voz ativa, sempre. A voz do povo é plural. Então, com voz cheia, a oportunidade de ampliar o alcance da própria voz não tardou a chegar.

No Favela Alfama Tiago conheceu John. Com o palco aberto para artistas Queer, Tiago, sozinho, deu voz à Lila Fadista: assim, cantou da forma como queria, sabia, podia. Talvez ainda não soubesse, mas ali já unia música e um gesto político.

Sair à rua e sentir que as pessoas olham é um empoderamento, ainda que tantas vezes pelo caminho do desconforto. Porque existir é alguma coisa possível também pela dimensão de um a despeito de. Se vivemos todos a despeito das dores, da tristeza, da dúvida e da morte, a ideia de sair à rua a despeito das convenções e com a pele que melhor representa a pele na qual se quer estar é um risco, mas também qualquer coisa bonita e necessária.

Desde que Tiago optou por trabalhar com o fado possível, muita coisa se tornou possível, inclusive a dupla com João. Depois de assistir ao vídeo de uma apresentação, foi um passo até que João passasse a fazer o acompanhamento com a guitarra.

João ainda toca fados tradicionais, com outros fadistas. Mas o desejo de ser com Tiago a essência do que hoje é o Fado Bicha foi sentimento demasiado forte para ignorar, como foi um dia para Tiago a intuição de que cantar acompanhado da guitarra era o seu caminho, deixando nascer Lila Fadista.

Nesse caminho feito de convites para apresentações em diversos lugares, há também o encontro com outras artes.

No dia do nosso encontro na Graça, Cris maquiava o rosto de Tiago quando chegamos ao apartamento. As cores e os traços feitos à mão livre buscaram referências na arte urbana de Basquiat. Na pele de João, resistência. Na camisa de Tiago, figurino feito por Cris, também. No tecido do corpo, vestido ou não, cabe marcar tudo que se quer dizer. A rua foi o cenário para as fotos: ela é o espaço máximo de todas as vozes, o coro mais bonito, mesmo quando possamos pensar que o fado é um canto algo solitário.

O Fado Bicha é o fado em sua pluralidade, é expressão cultural, é jeito de fazer à seu modo a partir das referências colhidas. Canalizando a energia do feminino, dando conta da subversão, o Fado Bicha não deseja de modo algum desrespeitar uma tradição, mas demonstrar que mesmo as expressões culturais aparentemente mais cristalizadas podem ser inclusivas, democráticas, acolhedoras, possíveis de serem amadas, vividas e celebradas fora de padrões estritos. É possível amar o fado de Amália e tantos outros – e também o Fado Bicha: expressões artísticas somam-se, não excluem-se.

Defender o direito de criar uma música que alcance pessoas e temas que precisam sentir-se representados a partir de uma linguagem popular, defender o direito de fazer o seu melhor, dando visibilidade à comunidade LGBT que existe e também ama o fado. Longe da política tradicional, Tiago na pele de Lila Fadista encontrou sua forma de trabalho artístico e de ação política.

A arte é esse guarda-chuva colorido debaixo do qual cabem a autenticidade, o fado, o João & sua guitarra, a Cris, eu, você – e um belíssimo par de saltos.




Foto: Paulo Andrade
Verbo:
Andressa Barichello
Fotoverbado:
Fado Bicha
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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