Da troca poética entre dois poetas portugueses de diferentes gerações surge o livro RSO&SBC. Em entrevista respondida por e-mail, os autores comentam sobre o processo e trazem referências. Tudo com o bom humor que permeia a obra.

Foto: Madalena Ávila

 

1) Correspondências poéticas são iniciadas pelos mais diversos acasos. Além daquele apontado no início da obra, podemos dizer que a troca entre Ramiro e Sebastião, de modo geral, se define por um resgate?

Ramiro: Fiquei muito surpreendido com a irrupção da palavra resgate numa pergunta acerca de troca de poemas. Troca de poemas. Não foi troca de problemas (risos). Até fui ver se no Brasil haveria um outro sentido para resgate. Essa troca foi tão natural como os dois tempos do acto de respirar: Inspirar… expirar. A sério: não sei responder melhor. Não sei responder. Acho que nunca usei a palavra resgate (risos).

Sebastião: Realmente, “resgate” pode descrever a nossa correspondência poética. Eu andava com dificuldade em escrever e o Ramiro ajudou-me com este jogo, “resgatou-me” nesse sentido, que é o apontado no início do livro. Para lá desse, o único outro resgate que vejo na nossa troca é um auto-resgate, como o que acontece muitas vezes nas conversas entre amigos. Temos algo a dizer sobre o que a outra pessoa acabou de dizer, mas queremos que nos compreenda, voltamos atrás, repetimo-nos, reformulamos certas ideias, sempre a resgatarmo-nos dos mal-entendidos e incompreensões inevitáveis.

2) Um jogo envolve prazer, mas sequer o prazer escapa do cansaço. Mais próximos do encerramento dessa “partida poética”, quais foram os sentimentos mais presentes? Satisfação pelo bom jogo, ansiedade em vê-lo terminado, tristeza pela iminência do fim?

Ramiro: Com a segunda pergunta também me sinto desorientado, desconectado. Como se falássemos duas línguas. Falamos duas línguas. Posso rever-me nas suas palavras “Satisfação pelo bom jogo”. Vivi-o sobretudo como um brincar, que não é a mesma coisa que um jogo. Não me revejo em “ansiedade em vê-lo terminado”, nem nunca senti a iminência de um fim. É como na vida. “Eppure si” muore.

Sebastião: Eu senti satisfação pelo bom jogo durante o jogo inteiro. O facto de o jogo ser de poemas, aliado a essa satisfação (a de achar que ali tínhamos poemas que valiam a pena), também me fizeram contente por ter terminado da forma como terminou, que me deu a sensação de que o jogo podia dar um livro que podíamos fazer chegar a mais pessoas.

3) O tempo transcorrido entre uma correspondência e outra se pareceu mais com aquele relativo à velocidade das cartas ou a esse nosso tempo, relativo à velocidade das mensagens instantâneas? A capa da obra e o titulo dão-nos uma pista?

Ramiro: Sim, estava na velocidade das mensagens instantâneas. Mas essa não é uma velocidade exclusiva do “nosso tempo”. Basta pensar na escrita automática (só que aí era consigo próprio). Sim, claro que a capa da obra dá uma pista. Ping-pong de palavras. Talvez tenhamos achado necessário sermos “julgados” com essa “circunstância atenuante”, género: Atenção! Isto foi escrito sob o signo do imediatismo. Também teria sido interessante não dizer nada. Deixar os leitores entregues a si próprios. Perec não indicou na capa de La disparition: “escrevi este livro sem utilizar a letra e” (que é – pura e simplesmente – a mais frequente em francês. Para nós, seria escrever um livro sem usar a letra “a”). Quanto ao título: vem de todos esses e-mails terem sido trocados numa única série, cujo título viria a dar o título do livro.

Sebastião: Talvez tenha sido o tempo entre uma e outra. O Ramiro decidiu responder imediatamente, assim que via o meu e-mail. Eu não gosto de escrever diretamente no computador, por isso copiava o poema do Ramiro para um caderno e escrevia o meu ao lado. Dei-me sempre uma semana para isso, não para escrever o poema ao longo dessa semana, que não é como eu faço, mas para, nesse intervalo, conseguir arranjar tempo para me sentar, ler o poema com calma e responder…

4) De alguma forma essa troca os fez refletir sobre o que é para cada um a ideia de espera ou sobre como lidar com ela, aos moldes de como lidar com a própria existência?

Ramiro: No que me diz respeito, a espera esteve presente, mas não a espera de algo transcendente como a “própria existência”, ou Godot. A espera infantil: quero brincar já. Quanto tempo vou ter de esperar?

Sebastião: Não querendo desiludir, acho que não fui tão fundo. Se calhar porque, neste jogo, fiz esperar muito mais do que esperei.

5) Termos dois poetas de diferentes gerações é uma característica definidora para o conteúdo que o leitor encontrará?

Ramiro: As referências de um e outro – claro que – não podiam ser as mesmas, mas isso não me parece fundador, nem sequer importante. Unem-nos coisasque permitiram que o livro exista. Seria interessante não ter dito que o livro era escrito por duas pessoas. Numa peça de teatro é um só dramaturgo que escreve o diálogo.

Sebastião: Eu diria que sim, mas talvez não da maneira que muita gente esperaria. Por exemplo, eu uso muito mais rima, versos isométricos e sempre maiúscula no início. Também não escrevo ao computador. O velho sou eu.

6) Quais projetos literários os leitores podem esperar para o segundo semestre de 2018? A ideia de trabalhar em parceria poderá acontecer com outros poetas ou repetida em breve entre vocês?

Ramiro: Bem, é descabidamente optimista falar de semestres, quando o que está em questão é o ritmo de edição de poesia. Ter publicado quatro livros (dois deles em parceria) no primeiro semestre deste ano é algo que não penso que volte a repetir-se. Logo que acabámos RSO&SBC começámos outra correspondência que também chegou ao fim. Não está decidido o que faremos dela. Logo após a publicação, na troca de e-mails que estava a haver entre nós e o editor Nuno Moura, poeta ele também, eu desafiei-o e ao Sebastião para um torneio…

Sebastião: Entre nós houve uma outra troca que ainda não decidimos se vai dar livro. Com outro poeta, não me vejo tão cedo a trocar poemas. De resto, tenho um livro de poesia que já anda à procura de quem o edite desde muito antes do RSO&SBC, pode ser que tenha sorte e que ainda saia este ano. O Ramiro deve ter mais e melhores novidades.

→ Leia também: Resenha RSO&SBC




• Ramiro S. Osório nasceu em Lisboa (1939), exilou-se em Paris durante 22 anos. Seguiu Barthes no Collège de France e formou-se arquiteto nos Beaux-Arts. Mais de 20 estadias ao Brasil, onde chegou a dar aulas, no Rio. 14 livros publicados.

• Sebastião Belfort Cerqueira nasceu em Lisboa (1987). Licenciado em Românicas, é também autor dos livros O Pequeno Mal (Edições Sempre-em-Pé, 2011) e El Segundo (Edição do Autor, 2015)



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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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