Juliana Diniz, escritora cearense, é autora de Memória dos Ossos, publicado pela editora Dummar e lançado no último mês de julho. Em entrevista por e-mail, Juliana responde, com muita sensibilidade, perguntas relacionadas ao livro e ao ofício de escrever.

Foto: Divulgação

1) Como foi o processo de escrita de Memória dos Ossos? A sua convivência com esse livro se deu por mais tempo na construção dele em palavras, no retorno ao texto a ganhar corpo. Em outras palavras, quando do efetivo início da redação já havia clareza quanto à história que desejava contar?

A história que precisava contar não se deu desde o início. Personagens, estrutura, enredo, ausências e proximidades foram se construindo ao longo da escrita do romance, e foi preciso reestabelecer alguns recomeços, trazer gente pra perto, eliminar alguns detalhes que pesavam na história, ajustar o essencial a permanecer. Em geral começo a escrever com planos e estruturas bem definidas, mas com esse livro nenhuma previsão inicial se confirmou, algumas conversas precisaram de muito tempo até ser claramente delineadas. Mesmo as personagens precisaram maturar, algumas se recusaram a certos destinos, foi um processo muito espontâneo de construção.

2) Há temas trabalhados no livro que você conscientemente reconheça como temas caros a você, a fazer parte de um projeto literário? Aliás, é possível, de fato, ter um projeto literário?

Acho a ideia de um projeto literário um tanto presunçosa, porque é uma tentativa de domesticar o futuro ou mesmo o ofício de escrever, a literatura como um programa para a vida. Se escrita acompanha a vida, é preciso reconhecer que ela será cheia de imprevistos, de suspensões. Então prefiro deixar meu futuro literário na sombra e perceber, no final do caminho, se ele for longo, se houve unidade ou se minha história foi feita de descompassos. Apesar disso, percebo que há nesse livro uma continuidade em relação ao Instante-quase: o ritmo, a luz, o silêncio, a melancolia feminina, o problema fundamental da identidade, da solidão e da marca do gênero permanecem como marcas do que eu escrevi até aqui. Eu queria escrever um livro sem peso, que funcionasse mais pela evocação que pela reconstrução precisa de ações, pessoas e espaços; é, assim, um livro que fala às sensações do corpo: o banho, a dança, os pés na terra, as dores nas articulações. É nesse corpo que se inscreve a história da vida. Memória dos Ossos é um livro muito próximo do que eu sou e de como eu vejo o mundo.

3) O que significou a escrita do primeiro romance? De que maneira a sua experiência como contista contribuiu para a escrita de um romance? O que se inaugura ou se encerra com Memória dos Ossos?

Escrever um romance foi uma experiência diferente na percepção do tempo – no ritmo, na forma como uma história deve ser contada. O conto é uma espécie de urgência, de retrato, ele precisa acontecer num intervalo narrativo que prima pela concisão, pela capacidade de definir o essencial. O romance traz um sossego, uma possibilidade de experimentar melhor as intimidades banais dos personagens, de sua casa, de seu passado. Em vários momentos eu me dava conta de que estava querendo “resolver” aspectos do enredo rápido demais, que não havia necessidade de pressa, eu podia me permitir respirar. Isso foi prazeroso, foi bom. Com Memória dos Ossos penso que se inaugura uma relação diferente com o ofício de escrever: o compromisso com a calma, uma luta contra a ansiedade de concluir.

4) Dentro ou fora do contexto do livro, se tivesse de dar à palavra “memória” uma palavra-irmã, qual palavra escolheria e por qual razão?

No contexto do livro, escolho a palavra “reconciliação”. Porque penso que a história é sobre isso: um apaziguamento com a memória, uma libertação de seu peso, um reconciliar-se com a narrativa do passado. Não é possível o esquecimento, mas é sempre possível uma reconciliação.

5) A figura da matriarca continua marcante numa família. Temos falado muito pouco a respeito disso?

Matriarca é uma palavra cheia de gravidade, de autoridade, de opressão. Ela marca um lugar, uma posição, um dever. Na história de Memória dos Ossos, a “matriarca” está adoecida e triste, precisa de cuidados constantes, precisa de ajuda, mesmo ajuda para deixar os seus mortos morrerem. Então penso que um caminho para pensar a família possa ser: enfocar menos a ideia de que uma família se define pelo valor de uma figura central e pensar que família é sobre cuidado, interdependência, transmissão e aquisição, afeto. Na história, temos mulheres cuidando de outras mulheres, em variados contextos, de diferentes formas. Imaginar que uma matriarca não precisa existir é libertar uma mulher do dever de permanecer. O que ficará é o que vale ser transmitido, a potência das relações.

→ Leia também: Resenha do livro Memória dos Ossos




• A escritora Juliana Diniz é também professora da área de Direito na Universidade Federal do Ceará (UFC).  Memória dos Ossos é seu primeiro romance, publicado pela editora Dummar. É também autora dos livros de contos O Instante-Quase e O Mergulho, ambos publicados pela 7Letras.



Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>