Aescritora Flávia Péret respondeu por e-mail entrevista na qual fala sobre seu romance Os patos [Impressões de Minas, 2018]. A autora também comenta sobre seu processo de escrita e propõe reflexões sensíveis e fundamentais para leitores e escritores.

Foto: Tatiana Bicalho

1- Como foi o processo de criação de Os patos? A ideia de um diário pareceu um risco (de estilo, de concisão?) ou desde o início o silêncio e a possibilidade de não dizer tudo foram marcas dessa obra?

Eu sou completamente movida, contagiada pelas leituras que faço. Eu acho que só escrevo porque leio, leio bastante, às vezes de um modo confuso (lendo muitas coisas ao mesmo tempo), às vezes meio obsessivo, quando me apaixono por uma escritora/escritor leio a obra completa.

Em 2011, eu estava lendo os diários da escritora norte-americana Susan Sontag, eu já tinha lido alguns livros dela e gosto muito do jeito como ela escreve. Gosto muito de ler cartas, diários, autobiografias, então comecei a ler os diários da Sontag.

De cara, uma frase me marcou intensamente: “Para escrever, é preciso permitir-se ser a pessoa que você não quer ser (entre todas as pessoas que você é)”. Eu não consigo explicar racionalmente como essa frase me afetou, e é em si uma frase um pouco complexa, confusa… Todo o livro me afetou muito mas essa frase especificamente.

Naquela época, escrever para mim era uma ação quase clandestina, muito muito íntima. Eu até tinha um blog, mas ninguém mais lia blog e a sensação que eu tinha era que escrevia para as paredes, ou melhor, que escrevia para ninguém, porque eu sempre tinha medo de escrever, medo de mostrar justamente os textos com os quais eu mais me envolvia (no sentido da minha cabeça e do meu tempo, da minha energia totalmente colocada em algo de forma muito intensa durante um certo período de tempo. Eu tenho essa mesma experiência quando escrevo um poema ou quando estou no processo de tentar escrever e “finalizar” um poema, posso ficar uma semana apenas pensando naquele poema… Enfim, assunto para outra conversa).

Bom, acho que naquela época eu tinha bastante medo de deixar surgir “essa que não quero ser entre tantas que sou”. À medida que lia o diário a identificação se intensificava e comecei, movida por aquela escrita muito simples, despojada, auto-biográfica, lamentativa, a escrever um diário também. Como se aquele texto fosse um espelho e eu pudesse criar minha personagem a partir daquela imagem que lia e com a qual me identificava.

Pode parecer um pouco pretensioso ou ingênuo da minha parte; pretensioso porque é a Susan Sontag e quem eu penso que sou para querer escrever parecido com ela e ingênuo porque é a Susan Sontag e quem eu penso que sou (quanta ingenuidade ou quanta pretensão?) para achar que consigo escrever parecido com ela…

Mas foi assim, criei esse mini enredo (por mais que fosse um diário, eu precisava de algo que minimamente transcorresse ao longo dessa escrita e pensei: e se essa personagem tivesse uma espécie de “objetivo”, algo que ela precisa resolver? E surgiu a ideia: o médico pede a ela que escreva a história do próprio corpo).

Obviamente que eu fiz e faço análise há muitos anos, já passei por algumas linhas dentro da psicanálise, já fui completamente encantada pelo discurso psicanalítico, já rompi, já achei que essa abordagem não servia mais para mim, às vezes volto, às vezes reato essa relação, agora estou numa fase super de pensar a análise muito mais como um processo de invenção, criação de territórios possíveis de existência (esquizoánalise… Deleuze & Guattari) mas uma coisa não podemos negar: não existe espaço mais apropriado para colocar as palavras e a linguagem sob suspeita do que uma sessão de análise. Ou melhor, existe e esse lugar é a escrita: essa relação já está dada, eu não precisei inventar nada, no meu livro eu apenas (como muitas outras pessoas fizeram antes de mim e continuam fazendo) deixei essa relação em evidência.

Já a estratégia de não dizer tudo não foi uma estratégia: não sei escrever de outro modo, não gosto de explicar demais, não gosto de escrever muito, sou uma pessoas de frases muito curtas (não nesta entrevista, já percebi que nas entrevistas escrevo/falo muito) mas na escrita literária/poética sou da turma da concisão.

Acho também que para além desse modo de escrever mais recortado, fragmentado, lacunar que é uma característica dos meus textos, o silêncio e o espaço em branco foram naquele momento o limite da minha escrita: tanto o que de fato me limitava quanto o contorno para aquela escrita existir, ela acontece nesse limite de não dizer tudo e permitir que as pessoas possam inventar…


2- Durante a leitura esqueci de colocar em questão qual era, afinal, o gênero do livro que eu estava lendo. Você sente Os patos como um romance construído de forma original ou a construção original é que, fim de contas, acaba por ser encaixada no gênero romance? [depois de fazer essa pergunta descubro na ficha que o livro está catalogado como poesia brasileira (!)]

Isso foi um erro 🙁

Vamos fazer uma etiqueta e colar por cima, não é poesia… mas depois que aconteceu o erro uma amiga que estuda as fronteiras entre os gêneros me disse: e se fosse? Eu acho engraçado, acho até possível talvez em outro texto/livro explorar isso, mas não é poesia não.

3- A ficção impede que o pensemos Os patos como um livro de escrita autobiográfica mas, ao mesmo tempo, há escrita autobiográfica que possa ser rica (ou literária?) sem que tenha direito a passar pela ficção, pela criação de metáforas e memórias inventadas?

Não sei se entendi a sua pergunta. Se entendi, acho que ela carrega um pouquinho um certo ranço de que a escrita autobiográfica é uma escrita com menos prestígio, menor. Se for essa a premissa da pergunta acho muito bom você ter feito porque aí posso falar sobre essa questão: não concordo que escritas autobiográficas sejam escritas menos literárias e dizer que não concordo não é apenas para defender meu livro, mas para defender justamente o tipo de textos/trabalhos/projetos que mais me interessa ler, ver, conhecer.

Gosto de embaralhar tudo. Para mim, tudo é biográfico, autobiográfico, ficção. Acho, por exemplo, que as artes visuais e o teatro lidam com essa bagunça de um jeito bem mais interessante, veja por exemplo artistas como Miranda July, Sophie Calle, Tracey Emin (amo todas e todas são fortes referências na minha escrita).

Ninguém desqualifica o trabalho delas (filmes, exposições, performances, etc) porque são autobiográficos: são arte e ponto. A Tracey Emin tem um trabalho maravilhoso chamado How it Feels – é uma série de vídeos, num formato muito simples, e em um deles ela narra de forma direta a experiência de fazer um aborto. É videoarte, é arte contemporânea, ela está nas bienais mais importantes do mundo e ninguém fica (eu acho) problematizando o quanto da experiência pessoal entrou ali porque o que ela faz é radicalmente pessoal, não tem meio termo, não tem brecha para ficar se interrogando até que ponto é a vida dela: How it Feels é exclusivamente sobre experiências pessoais, só ela pode contar como foi fazer um aborto…

Mas quando tentamos fazer isso com a literatura (vem essa tradição super careta, pronto falei!, de não sei quantos séculos que não consegue apesar de tantas escritoras e escritores super experimentais) deslocar-se para um lugar que não seja esse de categorizar, classificar e pior subalternizar alguns gêneros.

Resumindo, o que faço é ficção mas é autobiográfico, não consigo delimitar as fronteiras porque eu mesma as vezes não consigo ver as fronteiras.

O tempo que levo/gasto para escrever uma frase, minha obsessão com a frase com a palavra certa com o ritmo certo com o sarcasmo e referências certas: tudo isso me leva a crer que quando escrevo poesia (porque é o que mais escrevo) e quando escrevi Os Patos eu não estava escrevendo do mesmo modo que escrevo nos meus caderninhos sobre os meus problemas pessoais a noite antes de dormir para não ficar pensando naquilo ou para achar uma forma de resolver o problema… Mas eu também sou bem do tipo de pessoa que posso um dia achar um caderninho desses e transformar num livrinho e chamá-lo de “meu diário”.

Os Patos eu escrevi todo no computador, não tem caderninho para contar essa genealogia. Eu escrevia de manhã ou a noite e me lembro de uma sensação maravilhosa com a escrita desse texto: eu tinha crises de riso escrevendo sobre essa mulher.

Agora que o livro foi lançado algumas pessoas começaram a dar retorno e algumas acham que ela sofre demais, ficam com um pouco com dó… Eu acho ela tão engraçada, muito neurótica, quase uma caricatura, às vezes e enquanto escrevia eu ria muito, porque eu acho essa personagem adorável e patética ao mesmo tempo e todo drama dela pode rapidamente se dissolver em uma piada que ela faz consigo mesma.

4- Os patos é seu quinto livro? Quando pesquisamos essa informação as referências por vezes divergem, excluindo um trabalho e fazendo surgir outro na lista. De que forma esse percurso com a escrita de outros livros se relaciona com o livro que lemos agora? Você acredita que de alguma forma a escrita de um livro guarda relação com a escrita de outro? Os processos são independentes? Ou relacionados e independentes?

Eu lancei: Imprensa Gay no Brasil, 10 Poemas de Amor e de Susto, A Outra Noite, Novelinha, Uma Mulher e Os patos. Então são seis, mas Novelinha, por exemplo é uma edição mega independente, fiz apenas 20 exemplares.

Eu me auto publicava até bem pouco tempo atrás… E acredito que a escrita de um livro guarda profundas relações com os outros. Eu tenho alguns temas, o corpo (acho que é o principal) o amor (indireto, as vezes secundário, mas também bem presente), e a mulher (o que é uma mulher?) e acho que minha produção circula nessas questões-problema pra mim.

Escrevi um livro de poemas que será publicado em 2019 pela editora Urutau chamado Mulher-Bomba e é um livro sobre o amor, sobre quando ele está e quando ele não está porque acabou ou se transformou em outro tipo de amor.

5- Quais surpresas os processos de edição artesanal de livros já trouxeram? Os afetos envolvidos nessa proximidade e nessa parte do processo de quais formas alcançam também ao leitor?

Com exceção do livro Imprensa Gay no Brasil no qual eu escrevi o texto, mas não participei de nenhuma etapa de edição/projeto gráfico do livro, eu sempre fiz meus livros e além desses que eu listei acima eu também faço livro objeto.

Tenho vários livros de exemplar único, sem texto, por exemplo, ou com desenho e texto ou colagem e texto ou com texto bordado em papel. Eu sou completamente envolvida com os processos de edição artesanal caseira doméstica dos livros, se eu pudesse só ficava fazendo livrinhos, uma época eu tinha um caderno onde eu desenhava capas e projetos gráficos de livros.

Eu já tive ideia de fazer um livro com a capa toda preta, sem nada escrito na capa e no alto da página, à direita, um X como na tela do computador, um livro preto que a capa sugere: fechar. O que você faz com um livro assim? O que eu posso colocar lá dentro? Você deve abri-lo?

Como nunca consegui escreve um texto para esse ideia ainda não fiz esse livro … Isso é só um exemplo para mostrar que eu sou tão apaixonada pelo objeto livro e os processo da produção gráfica que as vezes o “projeto gráfico” vem antes do texto.

6- Ao final do livro são registrados artistas/escritores com os quais a obra conversa. Pode contar um pouco sobre essas influências, como essas aproximações surgem? Se procura ou acaso, se descoberta ou coincidência, escolha ou necessidade?

Justamente porque eu tenho muita liberdade para me apropriar dos textos de outros autores eu não sinto nenhum constrangimento em falar de como a escrita de Os Patos está associada à leitura do diário da Susan Sontag e contaminada pela forma de escrever dela… Essas apropriações surgem nos meus trabalhos o tempo todo.

Como professora eu já dou há algum tempo um curso de escrita não-criativa, que basicamente é pensar a escrita como apropriação, releitura, influência, diálogo, plágio, montagem. Com Os Patos aconteceu a mesma coisa, quando percebi estava colecionando citações que falam sobre patos, a minha favorita é da banda brasileira (radicada em Londres) Tetine: “a história da garça, a história do pato, o ovo quem bota é a galinha”.

→ Leia também: Resenha do livro Os patos




Flávia Péret é escritora e professora. Vive e trabalha em Belo Horizonte.


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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