Aescritora Eltânia André respondeu por e-mail perguntas relacionadas ao seu livro de contos Duelos, publicado pela Editora Patuá.

A diversidade psicológica do ser humano e sua relação com o meio social são temas enfrentados por Duelos. A obra é um retrato literário e precioso da complexidade social, política e humana do Brasil. E a autora comenta sobre o processo de criação desses contos que, densos, são de leitura fluída, entre risos e lágrimas.

Livro: Duelos
Autor: Eltânia André
Gênero: Contos
Número de Páginas: 120

Os contos de Duelos são narrados de diferentes formas, com diferentes recursos literários e estéticos. Pode contar um pouco sobre esse processo de composição? Se essa é uma escolha consciente ou a forma possível que se apresenta para cada história durante o próprio processo de escrita?

Duelos foi escrito ao longo de uns cinco anos, praticamente metade dos contos escrevi no Brasil e o restante em Portugal, desde que cheguei em janeiro de 2017.

Creio que o inconsciente está sempre presente, inevitavelmente, marcando escolhas, seja na linguagem ou nas histórias, seja na literatura ou na vida. Durante o processo de confecção dos primeiros contos, percebi que a violência atravessava o destino de muitas personagens, fiquei mais atenta e ainda mais receptiva à temática.

A linguagem é a minha obsessão, venho experimentando novas formas e lapidando outras.

Houve algum conto que foi incluído posteriormente ou excluído da obra durante o processo de edição?

O conto “Matança de Passarinhos” foi escrito para a antologia Perdidas, a história das crianças que não tem vez, organização de Alexandre Staut e Kátia Gerlach, pela Ímã, editora carioca. Todos os textos falam de crianças que foram mortas por balas perdidas no Rio de Janeiro, vítimas da violência e da exclusão social. Incluí no livro porque a luta pela vida de nossas crianças e adolescentes faz parte de nossa luta contra a banalidade da vida e o aborto dos sonhos da infância. O ECA não deve ser apenas uma formalidade, mas uma responsabilidade do Estado e de cada um de nós. As crianças estão em perigo, fazem parte de uma terrível estatística.

Sim, também tenho contos inéditos que não harmonizavam com Duelos, por isso continuam quietos na gaveta.

Por mais difíceis sejam os afetos envolvidos nas histórias, há uma delicadeza que torna possível suportar chegar ao fim de cada uma das narrativas de Duelos. Produzir uma literatura com grande carga emocional e ao mesmo tempo construir um texto que não cause tanto mal-estar no leitor é uma preocupação do seu trabalho?

Não exatamente uma preocupação, quando escrevo eu sigo um ritmo imaginário, fantasio que é musical e busco na poesia a suavidade. Envolvo-me com as personagens ao ponto de poupá-las da brutalidade de algumas palavras, porque seus destinos são reflexos da realidade que estão inseridas e não posso poupá-las.

Quais os maiores desafios na criação de uma ficção que encontra grande verossimilhança com a realidade?

Enfrentar o fato de que a realidade é sempre mais brutal e perversa do que a ficção. Por isso, a literatura nos auxilia a conviver com o abismo e com o horror.

Trabalhar o presente tem mais a ver com a ideia de que a literatura encontra sua profundidade nos espaços sobre os quais o escritor tem mais propriedade para falar? Ou o desejo de testemunhar o próprio tempo? A você atribui a temática escolhida para os contos de Duelos?

Somos testemunhas do mundo em que vivemos, o passado está também no nosso inconsciente coletivo e individual, herdamos da cultura do senso comum crenças e hábitos e é importante que presente e futuro não estejam totalmente dissociados do passado. O fenômeno da violência tem-se dilatado por séculos; a história da humanidade marcada por guerras, destruição de povos e etnias. Fernando Pessoa explica: “O homem é um animal irracional, exatamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo”.

Mas você tem razão, tenho mais propriedade para falar daquilo que me afeta (alguém já disse que o afeto é revolucionário), sobre o meu tempo e sobre o ambiente em que estou inserida; no Brasil lidamos com índices assustadores do aumento da violência, ano após ano; somos reféns e cúmplices desse mal que tem raízes em diversas esferas, tão deficitárias: educação, cultura, moradia, saúde. E basta andarmos nas ruas para recolhermos histórias, basta abrir um jornal ou ligar a TV para nos depararmos com o horror. No livro falo também de outras formas de violência: doméstica, social, familiar, psicológica, moral, política, da ganância do mercado, do vale-tudo do capitalismo.

De quais maneiras a sua formação em psicologia impacta na criação de personagens?

As duas atividades lidam com a linguagem, com as lacuna, paradoxos da memória, os silêncios. Percebe-se ouvindo um paciente ou uma personagem o que Freud constatou em suas pesquisas: “Nenhum mortal pode guardar um segredo. Se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas dos dedos.” Não consigo imaginar nem uma nem outra, a não ser como sujeitos do inconsciente – essa é grande semelhança.

Por outro lado, tenho o cuidado de que a ficção que faço percorra um caminho anterior ao das teorias que estudei, que ela venha liberta de conceituações, do contrário a arte ficaria contaminada. Quando uma personagem nasce e se apresenta para mim, tento deixá-la o mais livre possível, sem me preocupar com verossimilhanças ou rotulações acadêmicas.

Durante a minha atuação como psicóloga no Centro de atenção Psicossocial (CAPS) convivi com pessoas com transtornos mentais: psicose, neurose graves. O delírio sempre me seduziu, não pela carga de sofrimento, mas pela poética e pela construção de um discurso de sobrevivência; há a necessidade vital de organização psíquica através desse discurso particulares. Já no meu primeiro livro de contos, Manhãs Adiadas, (Ed. Dobra, SP, 2014) pode-se perceber essa influência. A realidade psíquica (tanto na produção de delírio quanto na fantasia) me interessa muito, por isso estou sempre explorando o mundo interior para compor a ficção.

Você enxerga um traço comum nas mulheres que protagonizam histórias no livro?

Talvez o medo seja o sentimento coletivo, tanto dos homens quanto das mulheres. Qualquer um pode ser alvo.

Todavia, em Duelos as mulheres são as protagonistas da vida real, que precisam conciliar as responsabilidades com a casa e os filhos, como no conto Poesia que ninguém lê; que enfrentam as exigências alienantes do mercado de trabalho – conto Sono Profundo; os traumas e abusos sexuais agravados pela cultura do estupro, conto Ma Petite Femme; a delicadeza no conto Águas de Dezembro; carregam o assombro diante da violência física e psicológica, as consequências diante da cultura do estupro, como no conto Memória de mulher; a maternidade é retratada ao avesso no conto Incorpórea mulher, a filha que não tive; a luta pelo amor, pela liberdade no conto Barreira Liberada.

De que forma Portugal se faz sentir na sua produção como escritora brasileira a viver fora do país?

Creio que saberei responder melhor à sua pergunta daqui a algum tempo, moro aqui há dois anos, mas desde que cheguei tenho lido muita literatura portuguesa, escritoras e escritores aos quais no Brasil não teria acesso. Essas leituras também estão me apresentando Portugal, sobretudo Lisboa. A geografia é completamente nova para mim, moro próximo ao mar e para uma mineirinha que se habituou com montanhas, rios e cachoeiras – isso certamente será absolvido e transferido para a escrita. Posso falar, de imediato, da melhora na qualidade de vida – tenho mais tempo para escrever, o ritmo de vida mais lento, recuperei a liberdade de ir e vir – antes o medo ditava barreiras. Tudo isso o que vivo impacta na produção literária.

Duelos é escrito a partir da realidade brasileira, mas encontramos referências à Segunda Guerra, ao nazismo. No diálogo entre gerações e realidades, o que há de mais universal no livro?

O homem, a sociedade, o amor e seus contrários.

Quais são os projetos aos quais você atualmente se dedica?

Continuo acreditando que a minha formação como escritora dar-se-á através das leituras, então continuo companheira dos livros. Mas tenho guardados alguns trabalhos na gaveta, que estão sendo lapidados.




• Eltânia André Nasceu em Cataguases-MG. Autora dos livros de contos Manhãs adiadas (Dobra Editorial, SP, 2012) e dos romances Para fugir dos vivos (Ed. Patuá, SP, 2015) e Diolindas (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano)


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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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