Aescritora Cristina Bresser respondeu por e-mail entrevista na qual revela detalhes sobre seu romance Quase tudo é risível [Benfazeja, 2016]. A autora também comenta sobre seu processo de escrita, conta-nos um pouco sobre seu novo romance Hand Luggage [Ricky’s Back Yard/Czykmate Produtions, no prelo] e deixa dicas de leitura muito especias!

Foto: Ana Glória Braga

1) A personagem Helena pode ser de alguma forma entendida como uma celebração às crescentes novas possibilidades de realização de uma mulher na sociedade do nosso tempo? A irmã gêmea dessa personagem representa a alteridade e também uma resistência ao novo?

Sem dúvida, a Helena é uma mulher com quem todas nós convivemos no trabalho, na faculdade, na academia. Ela é a minha celebração da alegria, da generosidade e da independência feminina. Quis que minha personagem principal fosse sentida como uma amiga, uma mulher liberada, autossuficiente, carinhosa e genuína, mas, ao mesmo tempo, passível de sentimentos considerados menos nobres, como a raiva (e como ela sente raiva!), os ciúmes, e a desconfiança (que só aconteceu depois de ter se sentido enganada por quem ela jamais esperaria).

Sua irmã gêmea, apesar de não ser gêmea univitelina (como Helena faz questão de destacar), é seu espelho, e, como tal, reflete-a de maneira invertida. Ambas têm nomes escolhidos na mitologia grega. Helena vem de tocha, luz, significa “a reluzente”, é uma das filhas de Zeus. Ela se torna a esposa do rei de Esparta, Menelau. Foi raptada por Páris, rei de Tróia, e o seu resgate deu origem a uma das Guerras mais famosas, a de Tróia.

Já sua irmã gêmea chama-se Leda, que significa esposa, mulher. Leda era a rainha de Esparta, casada com Tíndaro e foi seduzida por Zeus, disfarçado de cisne. Como contraponto da força de caráter de Helena, de sua disposição em enfrentar batalhas, Leda prefere um papel secundário, mais confortável na opinião dela: o de consorte. Escrevi Leda inspirada em mulheres que ainda sobrevivem na sociedade, passivas e rasas.

2) Em Quase tudo é risível a família aparece como instituição em colapso e, ao mesmo tempo, espaço de acolhimento. O que você entende por família? Ou, pelo menos, a que ideias esse lugar e esse espaço te remetem?

Neste primeiro romance aponto como as relações familiares estão tentando se adaptar, e sobreviver no cenário atual. Na época dos pais da Helena, uma mulher que descobrisse a traição do marido era aconselhada pela mãe e pelas amigas a ser superior e fingir ignorância. A mulher que não aceitava um marido infiel e se desquitava (não havia divórcio) era estigmatizada.

Atualmente, o casal trabalha para poder manter a renda familiar equilibrada, mas, na maioria das famílias, ainda é a mulher que tem a jornada dupla, em casa, com os filhos. É um cenário injusto. O colapso é um reflexo do desequilíbrio nos valores que algumas pessoas ainda trazem dos lares paternos para os casamentos.

No meu segundo romance, nos agradecimentos, cito meus pais, por terem me ensinado o significado de amor e respeito. Somos uma família pequena, todos (pai, mãe e irmã) temos personalidades fortes e sempre fomos incentivados a nos colocar de forma clara. Às vezes discutimos muito, mas, para nós, lar é abrigo, família é segurança e conforto. Contamos uns com os outros em todos os momentos.

3) A certa altura a personagem Helena, uma mulher madura, decide colocar um aparelho nos dentes – o que desperta o riso nela mesma e nas pessoas mais próximas. Não estarmos presos à ideia de que há cronologicamente momentos mais ou menos adequados para realizar coisas na vida é uma forma de rompimento, de cura, de desafio?

A Helena é uma mulher madura, assim como eu. Há poucos anos resolvi aprender a surfar. Fui criada na beira da praia, amo o mar, mas na minha infância só “pegava jacaré” com prancha de isopor. Comentei com uma amiga que iria ter aulas de surf com um professor, no litoral. Ela, poucos anos mais velha que eu, confessou que adoraria aprender a surfar também, mas que não tinha mais idade pra isso. (Fala sério!).

As pessoas que me conhecem conseguem enxergar algo meu na Helena. Tanto ela como outras protagonistas dos meus romances (já terminei de escrever o terceiro no começo deste ano) carregam um pouco da minha essência. Assim elas se tornam verossímeis, assim eu consigo me relacionar intimamente com elas e através delas, com meus leitores.

Você, Andressa, conseguiu inferir exatamente o que eu quis mostrar neste episódio do aparelho ortodôntico. A Helena, tal como eu, não se prende a paradigmas, ela os rompe. Desafiando o status quo, ela se cura.

4) Na casa dos pais de Helena há dois cães, um deles chega ferido na orelha. Lá, ambos vivem como irmãos. O cão de Helena, por sua vez, vive apenas com ela e se chama Feroz. Embora vítima de maus tratos por parte de homens antes do resgate, ele se rende ao personagem Fernando. Quando fui escrever o nome do cachorro para essa pergunta, sem querer escrevi “Refez”. A índole de fera com a qual a personagem Helena batiza o animal é um atributo dela mesma? Ou algo que ela procura para se refazer?

Esse seu ato falho nos trouxe, a ambas, uma nova possibilidade de reflexão, muito atraente. Você sabe, Andressa, que atuo paralelamente na proteção animal como voluntária. Sou a responsável por releases para imprensa, sou a fotógrafa, e atuo como captadora de recursos.

O lucro da venda deste meu primeiro romance foi destinado a ajudar meu grupo de proteção animal, o “Adote com Consciência”. Tenho quatro vira-latas (três moram com meus pais e uma mestiça pitbull que não aceita concorrência, mora comigo). Dois foram adotados (uma delas veio de um abrigo muito triste) e as últimas duas cachorras eu e minha irmã resgatamos em Caiobá, litoral do Paraná, onde passamos as férias, com um ano de intervalo entre as duas (enquanto escrevo, a Pietra, meu último resgate, me chama pra brincar).

A Helena, como eu, aprendeu com sua família a amar, respeitar e cuidar dos animais. Na família dela, os cachorros são elos entre os familiares. Com os bichos, eles podem exercer sua capacidade ilimitada de amar, eles se refazem. Essa é uma mensagem clara no meu texto, é panfletária, mesmo. Quando Helena encontra o Feroz, é a chance dela de se curar emocionalmente, proporcionando a cura física e emocional ao cachorro.

Cada vez que resgatamos um animal estamos nos resgatando, resgatando nossa compaixão, nossa humanidade, nossa capacidade de amar incondicionalmente. Como quase tudo é risível, o nome do cachorro tinha que ser algo divertido, para suavizar, para tirar o excesso da carga emocional. Feroz, mesmo sendo pequeno. Helena e o cão têm índole de fera, ambos são sobreviventes, contra-atacam e mordem forte quando se sentem ameaçados. Mas se desmancham em doçura quando são amados, quando confiam.

5) Você publicará em breve um novo romance, por uma editora canadense. Pode nos contar um pouco sobre esse livro e sobre esse processo?

Há dois anos fiz um curso de Escrita Criativa na University of Edinburgh, na Escócia. Meu segundo romance, “Hand Luggage” (Bagagem de Mão) era só um rascunho. Lá eu escrevi os cinco primeiros e os dois últimos capítulos (eu tinha claro na minha cabeça o tema, os cenários onde a história se passaria, o espaço-tempo, a jornada da personagem principal e a mensagem que ela passaria. Minha protagonista, a Roberta, era uma mulherzinha com a qual eu antipatizava no começo da história). Voltei para o Brasil e dei continuidade ao livro. Ele foi revisado por um revisor profissional bilíngue e, depois disso, começou a busca por um agente.

Este ano reli o livro do Stephen King “Sobre a escrita” e me identifiquei com ele quando fixou um prego enorme na parede ao lado da cama e começou a espetar as cartas de rejeição que recebia quando começou a submeter seus textos para revistas literárias e editores. Tenho uma coleção de e-mails deste tipo, de agentes americanos e britânicos. Desisti de buscar um agente e fui atrás de editoras que possuem o perfil alinhado ao meu, que publicam livros com os quais eu me identifico. Deu certo.

Hand Luggage é um romance atual sobre uma mulher madura que, na maioria das vezes, se comporta como uma adolescente. Ela já passou por dois casamentos desastrosos, mas, mesmo assim, parece querer um terceiro marido, não se acredita capaz de viver sozinha. Desta vez, sua busca por um futuro companheiro é feita online, através de um site de relacionamentos.

A história começa durante a viagem de Roberta ao Canadá, onde vai se encontrar com a filha, com quem perdeu a conexão emocional há anos. Entretanto, essa viagem é também sua chance de fazer as pazes com o passado, que inclui uma mãe alcoólatra, o primeiro marido abusivo, o segundo marido infiel, a morte do único irmão num acidente de carro e seu desprezo pelo pai. Apesar de abordar em profundidade os assuntos emocionais, esse livro, assim como meu primeiro romance, mostra um lado leve e bem-humorado, principalmente quando retrata amizades e histórias antigas.

Este romance será lançado em breve no Canadá, impresso em soft cover, e em e-book. A editora tem planos de lançá-lo posteriormente em Portugal e, numa terceira etapa, aqui no Brasil.

6) O que muda em escrever em língua materna ou estrangeira? Há sempre um diálogo e uma permuta ou é um processo de “virar a chave” e entrar em outro ritmo e outra estrutura?

O processo natural é esse de “virar a tecla SAP”. Quando escrevo em inglês, preciso pensar na língua para poder me expressar corretamente. Mas sempre há um diálogo, e, às vezes, é uma briga danada, porque a palavra que eu quero, aquela que se encaixa perfeitamente naquela frase e descreve exatamente o que eu pretendo, eu só consigo pensar nela na outra língua, não naquela em que estou escrevendo. Aí eu respiro fundo, vou tomar um café, jogar bolinha com a Pietra e, quando volto, mudo toda a frase, às vezes todo o parágrafo, e aí consigo expressar o que queria.

Escrever em português é um processo mais natural, não me importo se estou usando o tempo verbal correto, vai fluindo e depois eu reviso. Em inglês, por eu ser estrangeira, o ritmo é mais contido, me preocupo com questões estruturais e gramaticais desde o primeiro momento. Um fato curioso é que quando fui morar na Escócia, descobri uma voz narrativa mais sombria em inglês (acredito ser influência do clima instável de lá). Em Edimburgo comecei a escrever poesia, algo impensável para mim até então.

7) O conto e a poesia são gêneros que se impõem diante daquilo que se deseja escrever? Ou esses gêneros surgem na sua produção como espécie de respiro durante a escrita de um romance?

Eu sempre quis escrever romances. Gosto da narrativa longa, do planejamento dos capítulos, de estruturar o roteiro e de ficar imaginado as conexões, as amarrações dos episódios até poder desembocar na conclusão da história. Ao mesmo tempo, adoro o “nocaute” do conto e sou obrigada a praticar minha capacidade de síntese quando escrevo uma narrativa curta. Olha que eu preciso exercitar muito a síntese! A primeira versão do “Quase tudo… tinha 303 páginas. Deixe-a na gaveta por dois anos, escrevi alguns contos e, quando a retomei, reduzi para 160 páginas. O romance ganhou agilidade, ritmo, a narrativa prende o leitor.

A poesia entrou na minha escrita por um caminho lateral. Primeiro quando fui morar num país onde um dia de sol é muito celebrado, por ser raro. Num segundo momento, foi por conta de exercícios sugeridos numa oficina que, a princípio, era de contos, mas de tão envolvidos os alunos, o professor sugeriu que escrevêssemos alguns poemas. Acho que aprendi, pois os dois poemas criados naquela ocasião foram selecionados, um deles para um festival de poesias, e o outro, para uma revista literária.

8) Quais foram as leituras mais marcantes do primeiro semestre de 2018?

Ah, foram muitas. Não acredito num escritor que não seja, antes de tudo, um leitor voraz e apaixonado. Este ano retomei o meu prazer em ler literatura nacional contemporânea. Li “Dois irmãos” do Milton Hatoum (amei, ele se tornou meu mais novo ídolo), “O tribunal da quinta-feira”, do Michel Laub (como eu admiro sua maneira de escrever, sou fã dele há tempos), “Outros cantos” da Maria Valéria Resende (a pobreza do sertão e a riqueza de alma daquela gente… Lindo!), “Sul” da Veronica Stigger (como ela pode, em tão poucas páginas, causar-nos sentimentos tão fortes de estranhamento, angústia, horror?), “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”, da Elvira Vigna (foi o primeiro livro dela que li, me identifiquei com a sua atitude transgressora, quero ler todos), “Olhos d’água” – Conceição Evaristo , “Contos negreiros”, do Marcelino Freire (eu sou fã incondicional do sarcasmo e o Marcelino é mestre), “Jeito de matar lagartas” (o Antônio Carlos Viana se coloca no lugar de fala de mulheres idosas, é muito bom, gera diversas reflexões). Por fim, um dos livros mais prazerosos que já li em 2018 foi o de uma africana/portuguesa: “A gorda”, da Isabela Figueiredo (como pode, essa autora tão generosa que acabei assistindo na Flip 2018, fazer com que eu me sentisse e me ressentisse como uma mulher gorda, e me conectasse às emoções dela como se fossem minhas? Amei!).

→ Leia também: Resenha do livro Quase tudo é risível




Cristina Bresser é formada em Comunicação pela UFPR e proficiente em língua inglesa. Premiada diversas vezes em concursos literários, tem publicações em revistas/jornais literários do Brasil, Austrália, USA, UK, Grécia e Índia. Seu segundo romance, “Hand Luggage”, será lançado em 2018 pela editora canadense Ricky’s Back Yard/Czykmate Produtions.



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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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