Oescritor português Hugo Lourenço respondeu por e-mail entrevista na qual fala sobre seu romance Ruínas [Esfera do Caos, 2017]. O jovem autor também conta um pouco sobre sua trajetória com as palavras e reflete sobre alguns aspectos da realidade portuguesa.

1- Com qual idade começou a escrever? A escrita sempre foi sua forma de expressão favorita?

Penso que comecei a escrever com maior regularidade quando tinha cerca de 15 anos, e foi a partir daí que entendi que gostaria que a minha vida fosse à volta dos livros. E, sim, a escrita sempre foi a minha forma de expressão predilecta.

2- Durante o período escolar houve incentivo ao desenvolvimento da leitura e escrita por parte do currículo pedagógico e do ambiente criado pelos professores?

Infelizmente não. Na verdade, sou bastante crítico em relação à maneira como esses dois pontos são trabalhados até ao final do Ensino Secundário em Portugal. No que diz respeito à leitura, os textos obrigatórios já chegam aos alunos mastigados: os manuais e os professores tratam de fazer a interpretação, ao invés de ser o aluno a tomar essa iniciativa, e é com base nessa análise já previamente realizada que o trabalho do aluno é avaliado. Dito de outro modo, em vez de o aluno ter a responsabilidade de interpretar verdadeiramente o texto, o seu dever é o de decorar as palavras de terceiros e reformulá-las nas suas respostas. Somente isso.

Já no que concerne à escrita, é bastante raro que seja pedido um texto de índole criativa aos alunos. Por norma, quer em momentos de avaliação, quer em outros trabalhos, o que é solicitado são escritos de opinião, relacionados com temáticas da matéria que está a ser dada de momento. Não me recordo de me ser pedido para escrever um conto ficcional, por exemplo. Isto que exponho torna-se ainda mais danoso quando os próprios textos de opinião tinham de ser escritos de acordo com algumas regras muito específicas; uma introdução que consistia numa exposição do assunto que será tratado, uma parte de desenvolvimento em que se analisa de uma forma muito superficial a temática, uma conclusão em que devemos sintetizar o que foi escrito anteriormente e deixar as nossas considerações sobre o assunto de forma clara…e tudo num tom formal.

Na crónica, o género opinativo por excelência, vale tudo, não há esta inflexibilidade, muito pelo contrário. Mesmo quando o objectivo do texto é transmitir a nossa opinião sobre um determinado tema, é perfeitamente possível fazê-lo recorrendo a uma estória ou a uma sucessão de tiradas humorísticas. Inclusivamente a censura da linguagem, a partir de uma certa idade, faz muito pouco sentido. Quanto a mim, esta forma de ensinar é absolutamente prejudicial à criação de um pensamento crítico saudável e não estimula, de forma alguma, a criatividade.

No entanto, apesar de criticar o método de ensino tradicional, tenho de dizer que tive um par de professoras que, já no Ensino Secundário, por várias vezes fizeram questão de elogiar a minha escrita, o que acabou por servir como um reforço positivo para escrever fora do domínio escolar e académico.

3- Portugal por vezes é tido como um país que carrega algo de “melancólico” em muitas de suas formas de arte. Essa ideia parece fazer sentido? Há alguma marca que você reconheça como uma característica comum a esse espaço de produção artística e literária?

Penso que, mais que melancólico, o português tem uma certa tendência a ser conformista. Não quero com isto dizer que é uma regra absoluta, nada disso, sou completamente contra as generalizações, contudo noto que o português deriva com aparente facilidade para uma atitude de encolher os ombros e afirmar “podia ser pior”. Mas depois continua a andar, continua a fazer a sua vida como se não fosse nada a ver com ele. Não penso que o povo português seja propriamente melancólico, que seja de se entregar às ideias negativas. O português sofre, mas continua a andar. Não trabalha é para deixar de sofrer, acomoda-se à inércia, não acredita que pode mudar o mundo que o envolve. “As coisas são como são”; “é o que é”; tão cansado que eu estou de ouvir estes chavões.

Já no que diz respeito à arte, e à Literatura em particular, sim, posso dizer que muitas das obras que são tidas como referência da Literatura portuguesa possuem um cariz algo melancólico. A título de exemplo, aquele que é o meu prosador português favorito, o Mário de Sá-Carneiro, escreveu textos de natureza obviamente depressiva. Mas não me parece que este seja um caso particular da nossa Literatura e Cultura, já que é algo que se transcende a obras de outros países, inclusivamente continentes.

4- Durante o projeto e a escrita de Ruínas houve o desejo manifesto de tecer uma crítica aos cenários nos quais a juventude portuguesa vive hoje? O país que após a crise de 2012 floresce para o turismo também viceja para a sua geração?

Sem ter a intenção de tornar a obra numa espécie de manifesto de uma geração, houve o desejo de fazer uma exposição da realidade de muitos jovens portugueses, sim. E não, não sinto que o contexto actual do país seja favorável para uma parte considerável da sua juventude. É certo que não se pode comparar com o que acontecia, por exemplo, na geração dos meus avós, em que o analfabetismo e a fome reinavam, e imensa gente começava a trabalhar exaustivamente ainda em idade de criança; mas não será por isso que deve-se deixar de criticar o país que temos hoje.

Primeiramente, é preciso entender que vivemos num mundo capitalista, portanto o que ocorre no mercado laboral é crucial. Salários baixos, cargas horárias exageradas – e não raras vezes ilegais -, falsos recibos verdes e contratos de trabalho temporário que se vão prolongando no tempo, enquanto os trabalhadores ocupam na realidade postos permanentes das empresas, ambientes de pressão, muitas vezes com superiores hierárquicos com uma atitude claramente autoritária, que têm por hábito praticar mobbing nos seus subalternos, etc., etc. Um jovem de hoje pode, muito provavelmente, deparar-se com uma ou várias situações destas quando se insere no mercado de trabalho. Eu deparei-me.

E tudo isto irá continuar a acontecer enquanto não existir uma fiscalização rigorosa das condições laborais, já que é uma realidade que é hoje regra. Se, em Portugal, os jovens saem cada vez mais tarde de casa dos pais, se cada vez menos se conseguem aguentar num emprego durante muito tempo, há motivos por trás disso. E os motivos muitas vezes não são a falta de vontade de trabalhar, como costumam dizer as más línguas.

Inclusivamente quando falamos de áreas técnicas com boas perspectivas de integração no mercado laboral, a possibilidade de conseguir encontrar um emprego estável, que conjugue um bom salário e um bom horário, muitas vezes não é assim tão fácil. No sector da saúde, por exemplo, há quem trabalhe cargas horárias imensas, que deveriam ser impensáveis em pleno século XXI. Já quem se forma em Letras ou Artes, dificilmente encontrará uma oportunidade de se fixar num trabalho que faça sentido para aquilo que estudou. As oportunidades no sector cultural escasseiam, e o investimento e os apoios são pouquíssimos, claramente insuficientes.

Por isso é que tantos emigram e muitos mais ponderam vir a emigrar. Há muitos jovens que, ao amadurecer, sentem que o país é incapaz de lhes oferecer aquilo que outrora lhes pareceu ter prometido.

5- Nesse momento há um novo romance em curso? O romance é o gênero no qual você se sente mais confortável?

Neste momento estou a trabalhar num livro de contos. Penso que será uma obra muito diferente do meu romance, não só por ser de um género diferente, mas essencialmente porque estou a trabalhar de um modo muito distinto. Vejo o meu romance como uma obra bastante expositiva e explicativa, em que pouco ou nada fica por dizer; já neste livro de contos estou a insistir bastante na concisão. Pretendo que seja uma obra que dê mais espaço ao leitor.

Sinto-me confortável sobretudo na prosa ficcional, não necessariamente no romance, daí agora querer trabalhar a ficção curta.

→ Leia também: Resenha do livro Ruínas




• Hugo Lourenço, nascido em 1992, formou-se em Tradução e Escrita Criativa, tendo mais tarde tirado uma Pós-Graduação em Artes da Escrita. No mundo laboral tem trabalhado sobretudo como livreiro, mas também já desempenhou vários outros trabalhos, como operador de parque de estacionamento ou assistente de check-in no Aeroporto de Lisboa.


Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>