Ela faz o tipo despachada. Fluído antineurótico para qualquer amiga histérica. No desfiar da minha devoção por fulaninho, o seu franzir de testa. No drama da falta de tempo, seu ponto e vírgula. Para as nóias mais bestas, sua dificuldade em pegar o raciocínio. Para qualquer nervosismo sua câmera lenta gravando, seu peraí. Nunca chega no horário marcado, o que me faz rever o que seja, de fato, pontualidade na vida. Ela parece o pássaro tatuado durante uma viagem, em algum lugar perto das costelas. Asas discretas, mas ainda assim asas.

Como um corpo que não tivesse sentido a dor de um roxo, seu jeito de sofrer parece distinto; diferente ou chique. Não requer atestado, como se o existir já fizesse de nós um hematoma bem visível. De onde vem esse doer maduro? Da infância?

No brilho dos olhos e nas sardas do rosto, vejo às vezes a molecagem dos espoletas que riem das quedas. Os tombos embora machuquem são uma adrenalina que só. E o trepa trepa só tem graça ao soltar os braços e segurar o peso do corpo com uma dobra para o lado avesso ao dos joelhos.

A vida desse jeito se oferece de ponta cabeça como o saldo das quedas, na areia ou no concreto. Calos, derrapadas ou predições. Sobreviver ou viver é o que se pode no espaço aéreo onde se repetem as quedas livres. Há quem diga serem estes os voos mais seguros, por que não? O que importa é saber a hora de partir, a quantos pés subir. Alguém ai falou em falta de pontualidade?

Ela ri alto e os mais medrosos se assustam com qualquer jogada de corpo. Porque o marasmo anda tanto. O cair, como antônimo do levantar, é só o que pode significar o estar de pé. É só o que pode impedir alguém de ir pelos ares. Alguém aí falou em corpo?

Na piscina ela nunca apegou-se às bóias. Das crianças ao redor se fez o brincar de ser adulta. Não havia medo ao segurar os irmãos mais novos; as quedas desde antes já não a deixavam espavorida. Nelas residia o maior mistério, o que há de mais maciço. Um correlato para o grande outro, pai. Ademais, sabia segurar. Não falei da menina que não conheci.

O bambolê para ela parece não ter, ainda, qualquer graça. E se for para pular corda, pato, patinho, marreco, marrequinho, que seja o ano inteirinho. As cantigas dessa mulher me interessam. São cantadas de coração. Essa possibilidade de sustentar um desejo, mais que o peso dos irmãos, talvez tenha algo a ver com a descoberta prematura de que o desamparo não é, como quiseram convencê-la, um acidente, a exceção, mas o céu de cada dia. E as dores todas são nuvens, carregadas ou nublado leve.

No mais, as distâncias são tão relativas quando se está consigo mesmo. É quase desde sempre que sabe: ausências são plenamente habitáveis. As vezes o que mais dói longe de casa não são os afetos deixados, mas a parte da gente que não quer se expor ao tempo. Ninguém é à prova da maresia, então ela vai.

Sem saber quão legítimo é um estar tão íntimo em si, por vezes vê nuvens em formato de coração, quer comportar-se ao gosto das súplicas tentaculares dos que a querem rente-rentíssimo, desconfia da resistência da própria fuselagem…

Ainda bem que é de sua natureza atravessar massas densas, gargalhar vertigens, resignar-se às turbulências, sonhar destinos e carregar a própria mala, no paradoxo de poder fazê-lo e ser, ainda assim, tão despachada. E leve.

Quando a maioria quer dividir o peso da bagagem, há aqueles que, como ela, sabem que ninguém poderá fazer cargo sequer de uma valise. Saboreando a maravilha e a dor de ser amada, é quase uma traidora. Porque é de abandonos mesmo que se trata o viver.

Boa viagem, digo, boas viagens.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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  • Andressa, que agradável surpresa encontrar seus escritos, tão ricos, sensiveis, articulados e poéticos, e tão bem organizados. Meus parabéns! É muito bom ver o seu amadurecimento, que com certeza continuará frutificando em criatividade. Por favor, envia-me um e-mail, gostaria de te propor alguns diálogos ou colaboração a esse seu adorável projeto! Abraços, Eliseu.

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