Um dia ele me flagrou. Não sei qual foi aquele ângulo capaz de, ao me capturar, capturá-lo tão eficazmente. Se eu pudesse sabê-lo talvez o repetisse hoje tantas e quantas vezes, porque aquela foi a melhor foto de mim. Às vezes procuro dentro dos olhos grandes dele, nunca a encontro. Posso sê-la? Não sei. Mas alguma coisa dentro dos meus olhos vê nos dele um tantão de belezas sem nome porque a emoção rola e as lágrimas também. A gente sempre encontra outra coisa em lugar do que procura.

E não fossem esses olhos um baú de riquezas, a luz que irradia dessas janelas redondas é um sol particular e isso já vale uma passagem pela Terra, ainda que nas terras frias do Sul do Brasil e não com as bençãos do calor lisboeta que teimo em supor capaz de impedir a proliferação de fungos terríveis em nossas gavetas escuras.

Os olhos dele um dia encontraram as minhas palavras e o universo daqueles textos pareceu combinar com fotografias imprevistas. Nunca um homem ousaria uma incursão naquelas histórias; mas desde quando olhos grandes servem para alertar perigo? Ele rodeou as páginas, curioso.

Fotografias e palavras, uma ponte para tanto invisível e tanto sem nome. E posta a sina de viver de esbarrar em coisas que podem ser sentidas sem acatar letras.

Numa tarde, enquanto eu procurava em silêncio pela menina dos olhos dele, o inesperado aconteceu: o menino dos olhos grandes foi codificado – uma escadinha de palavras a tentar me levar lá para o alto, para mais perto de onde o encantamento o elevou. A gente sempre encontra outra coisa em lugar do que procura.

Descemos a escada juntos, porque as palavras são frágeis. No último degrau, veio a revelação: nunca saberei qual o instante da foto. Nem ele sabe quando, exatamente, fez-se texto e inscrito – segue cifrado. O que sabemos é da nossa coragem por compartilhar uma escada estreita e nos tatearmos desse modo que nos torna pouco óbvios, mesmo quando tudo parece já ter sido mostrado ou dito. O que sabemos é que fazemos entre nós esses claustros… criando um lugar onde o outro possa encontrar retiro. As vezes, é verdade, ele vaga pelas palavras sem encontrar uma saída e eu padeço na estaticidade de uma imagem congelada. E, tornando-nos mais íntimos e confundidos ao que é de um e de outro, corro o risco de vagar perdida em minhas próprias palavras e ele pagar o preço de ver-se preso na rigidez de uma fotografia. Alternamos nossas penas e nossos asilos. O outro é sempre um lugar que, a depender do dia, é refúgio ou prisão…

Guimarães Rosa disse que o correr da vida embrulha tudo. Parafraseando a tão famosa citação, eu diria que o correr do desejo embrulha tudo. Nossas pontes de fotografia e palavra cruzaram-se em velocidade tal que hoje, pasma, me dou conta de que minha melhor foto saiu dos olhos dele no exato momento em que foi feita – por isso é que ele sempre me olha como se eu guardasse alguma coisa que lhe pertence. Ele, por sua vez, se dá conta de que todo texto para existir depende que ele, como escolhido, os anteceda e alimente. Permanecemos no último degrau da escada porque a extensão dela é o único real que conhecemos. Eu quero ser a menina do rabo-de-cavalo e bicicleta. Ele quer ser o meu texto ideal. Mas isso está desde antes e para sempre perdido…

E já dizia Drummond, que também é Andrade:

“Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão”

Que possamos para sempre amar o perdido como possibilidade de não nos perdermos jamais.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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