O local escolhido para nosso encontro foi um indeterminado. No Largo, ali perto do Bar do Alemão. Já era noite, véspera de feriado. À meia luz nossos olhos se tornaram mais atentos aos cantos, aos rostos. Se você o ver, você o reconhece?

O trabalho na área jornalística é uma das atividades pela qual Daniel é conhecido – e reconhecido; num desses casos bonitos nos quais a obra chega à frente do rosto do artista.

Já tem mais de década que suas lentes se acostumaram a estar nos lugares onde uma notícia acontece. Mas o dar notícias com o qual Daniel trabalha contempla outras dimensões, dimensões mais alargadas do que uma pauta ou o tamanho de um dia. Noticiar tem a ver com passar informações, expor um fato, trazer uma novidade. Entretanto, dar notícia de algo pode ser muito mais que isso: tem a ver com fazer um apontamento, sinalizar – a notícia, lida agora como a lembrança, a memória, o nascimento, a qualquer tempo, de uma biografia. Falamos pouco, é verdade, da biografia de Daniel. Não me recordo de ter perguntado o ano de seu nascimento, a composição familiar, há quanto tempo é casado, se tem os pais vivos. Mas o fotógrafo, a respeito de si, deu a notícia essencial: foi um menino curioso e inquieto.

Penso, então, que requisito para dar para fotógrafo é coisa que ultrapassa o campo da estética – porque tem a ver com algo de ímpeto. O ímpeto de fazer algo a partir do turbilhão de imagens que o mundo oferece. Talvez se houvesse apenas a inquietação, Daniel não tivesse a coragem necessária para cobrir todo tipo de fato e explorar as minúcias da rua – lida aqui como tudo que está da porta de casa para fora. E vejo essa porta de casa como a porta da casa de sítio, a soleira, as madeiras em tábua e há um vão entre elas. O vão por onde a luz entra, por onde uma ideia do que há lá fora se faz mais aproximada e convidativa. A curiosidade que existe em Daniel parece ser a melhor companhia para fazer par com o desassossego consequente de um estar atento perante a vida ao redor e um estar distraído da vida ao redor; o olho atrás da lente é como o olho atrás da fresta, a tornar tudo mais instigante mas, em alguma medida, dosado às possibilidades do expectador-fotógrafo que é cercado pela vastidão do que há ao redor e que com seu olhar escolhe uma parte do todo.

Daniel gosta da vida ao redor de onde esteja – ao redor de onde é: dentre as fotos mais singelas estão as de seu bairro. Embora seja bem provável que já tenha feito um milhão de fotos mundo afora, fotografar as cercanias ainda desperta o desejo. O namoro entre a muito boa técnica e o desejo são o pré requisito para – um milhão de vezes – acontecer o casamento entre lente e olhar.

Por falar em casamento, taí um tipo de evento que ele não fotografou muito. Sobre eles, Daniel pontua algo interessante: como todos os outros acontecimentos da vida, a cena de um casamento não para, passa diante dos olhos; por mais que a presença de um fotógrafo seja comum a esse contexto os detalhes são fugidios como é no fotojornalismo. Fotografar, talvez, isso de ir atrás do fugidio. Parados em meio ao calçadão, estamos pré dispostos a caçar borboletas, lidas aqui como a ideia de uma foto. Luz suficiente? Algum reflexo interessante? Por que não tentar aquele canto ali?

A rede, ela mesma, é fugidia: as vezes nos transformamos em borboletas. Olhar pode ter como consequência ser olhado. E é preciso, também, acolher esse olhar. Deixar-se caçar. Talvez seja por isso que Daniel vai no passo lento, nos cumprimentos muitos, nas pequenas gentileza, no bom papo com todos aqueles que, atraídos, resolvem parar. O fotógrafo detém transeuntes. Deter é parar, mas é também suspender – e possuir, ainda que brevemente. Avistar um fotógrafo na rua é ser detido, interrompido, tomado: passamos a estar em seu poder, porque o instante da nossa desatenção será, talvez, ausência que ele, o fotógrafo, capturará. Mas o desfecho de liberdade, ah, esse sim é maior graça. Daniel, na fotografia feita no dia a dia, é um criador de objetos de passagem. Talvez porque ele mesmo tenha a memória fraca.

De minha parte espero que Daniel se lembre do menino do rap, do dançarino de street que nos pede pra mostrar seu talento e nos fazer plateia; que ele se lembre do tubão compartilhado pelas ladeiras, passando de mão em mão – como os trocados e as fotografias, as fotografias, preciosas porque continuam a circular não apenas pelas mãos mas entre os afetos das pessoas; a fotografia que será para sempre aquele mínimo instante em que a rede se encontra com a borboleta. Mas não espero, é claro, que ele se lembre como eu me lembro – afinal, na distância que há entre o que para cada um de nós restou do encontro é que nasce o retrato; a poesia.

A temperatura baixou. A hora avançava. Ele desceu pelos paralelepípedos. Nós enveredamos por um atalho para chegar ao estacionamento. Mas se o desfecho foi voltar ao carro, o que acabávamos de fazer era o oposto de estar parado: uma caminhada de sentido e intenções, expectativas e desfecho indeterminados foi o que pudemos junto ao Daniel – e não seria, afinal, um pouco disso que se trata a ousadia do fotógrafo?

Foto: Paulo Andrade
Verbo: Andressa Barichello
Fotoverbado: Daniel Castellano

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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