Meu primeiro contato com o trabalho de Dagoberto Silva aconteceu em 2014, enquanto caminhava pela Avenida da República. Dentro de uma vitrine, um quadro fazia pedestres pararem diante da loja [que não era uma galeria mas oportunizava, por sentir que devia, aquela chance de um instante contemplativo].

Em 2016, dentro de um centro comercial, novo encontro: uma pintura, marcante como aquela de 2014 aparecia, então, sobre outro cavalete; não tive dúvidas: era da mesma autoria. Com a confirmação na assinatura, a sensação de encontrar um par, ligação com aquela imagem primeira; materialização de uma nova tela e novo encontro como surpresa e enigma aos viajantes.

Surpresa e enigma talvez sejam boas palavras para iniciar uma tentativa de escrever sobre as pinturas de Dagoberto Silva. Os cenários urbanos retratados em cores vivas e povoados de personagens em movimento fazem de nós expectadores de uma vida urbana que, existente ao redor e em toda cidade, surge relida, encantada, e quase onírica. Com suas pinceladas (ou espatuladas!), o artista permite que encontremos espaços já conhecidos revigorados por um ineditismo; são telas nas quais o familiar e o estrangeiro coexistem e a beleza do cotidiano pede passagem.

De passagem, 2017. Acrílico sobre tela, 80X100. Imagem do catálogo da Private Gallery.
Aliados Porto, 2013. Acrílico sobre tela, 80X120. Imagem do catálogo da Private Gallery.

A rua, espaço de todos e do que nos é igualmente familiar e estrangeiro, cresce como uma planta de ramos muito múltiplos e largos: brotam prédios, erguem-se como raízes os transportes. Mas a natureza que mais pulsa é a humana: lá estão as pessoas, figuras submetidas a um constante devir, devir esse que parece assinalado pelos rostos de expressões indefinidas que remetem a fotografia de um gesto rápido. Na mudança permanente, nenhum gesto, ou corpo, parece indiscutivelmente acabado, havendo sempre espaço para mais alguma coisa inserir-se no corpo ou na cena.

Isso que é do inacabado tem, afinal, relação com o desejo que move o mundo: a sucessão e a transformação dos lugares e das sociedades. Coerente com isso, é o que narra o artista sobre a sua relação com cada obra: quando um quadro repousa no ateliê e é reencontrado no dia seguinte, pode-se vê-lo de uma outra forma e só então saber se é preciso acrescentar nele ainda qualquer coisa ou mais alguma coisa. Essa ação parece fazer com que cada pincelada se congele e cruze a noite, em espera, até que se solte no outro dia, no depois. Então, ainda que se na apreciação estética do espectador o resultado dê-nos a impressão de um trabalho feito da soma de gestuais de movimento breve, subsiste a contradição de uma câmera lenta, de qualquer coisa que se demora.

Um flash original é o que vemos nas obras de Dagoberto: pinturas com componentes de retrato, narrativas com cuidada pontuação, respiros profundos, tons particulares de uma luz não pressentida. Então não há de ser absurdo imaginar tais obras como contos que, bem articulados e prontos na cabeça de seu autor, vão sendo transferidos do corpo do homem para o corpo da tela e para o corpo grande da arte, o imaterial que dialoga com o público através dos tempos e do próprio artista na duração de sua vida. Por mais que tenhamos o flash e a cena fixa, parece não ser possível olhar para as obras de Dagoberto com os olhos de quem fotografa, senão com os olhos de quem lê.

Dagoberto não disse, mas acredito que o seu fazer tenha algo a ver com o senso de construir um legado. E esse legado seria, apenas, o testemunho de que o estar vivo é uma extraordinária festa das cores; apenas porque estamos debaixo desse céu azul, olha esse céu azul! O especial apreço do artista em retratar o urbano em cores múltiplas e recriadoras de uma realidade, parece contar de um olhar que reflete sobre a condição humana a partir do viver na cidade. Enquanto olha para as ruas da baixa de Lisboa, ele diz, sem perder o encantamento do viajante, já ter explorado tantas vezes aqueles espaços! Dagoberto manuseia aquilo sobre o que tem propriedade; como sujeito que vive em Vila Nova de Gaia e acompanha as mudanças, resultado da interação das pessoas com suas aldeias que hoje parecem caminhar para a ideia de “aldeias globais”.

Na mesma medida em que estamos cada vez mais interligados, nossa identidade se dissolve em meio a tantos outros rostos. Comento com Dagoberto que as pessoas que vemos em suas pinturas costumam estar acompanhadas de outras, e ele ri e brinca, em palavras que não me recordo, mas que tiveram qualquer coisa com a ideia de que as pessoas, também nos quadros, precisam umas das outras. Lembro, então, de perguntar ao artista o que mais é preciso para executar um bom trabalho.

O suporte de um bom material, tanto a tela quanto as tintas e, no mais, algum equilíbrio na vida, o que quer dizer saúde, contas pagas e preocupações minimamente administradas. Dagoberto, assim como não acredita que o amarelo de uma tinta sem qualidade possa durar no tempo sem se transformar em um verde esquisito, também não crê em inspiração, ah, esse conceito tão aberto! É como se do básico e da terra pudéssemos extrair tudo de que precisamos, porque de incrível, bem, já basta a vida.

A sua trajetória como artista, portanto, muito se baseia na repetição que se alinha ao ciclo de trabalho das pessoas, independente de qual seja o ofício: todos os dias, quase à mesma hora, ele põe-se ao lavoro em seu ateliê. E quanto a capacidade de desconstruir imagens e apostar em combinações pouca óbvias? A resposta é simples: tudo fruto do “traquejo dos tempos”.

Esse plural que Dagoberto utiliza para a palavra tempo, de alguma forma assinala ter havido vários momentos de uma carreira artística que já ultrapassa os quarenta anos. Da formação na Escola Soares dos Reis no Porto, passando pela bolsa de estudos em pelo concelho da Europa Veneza e pelas primeiras exposições no final da década de 1970 até aqui, muitas foram as fases. Mas ainda hoje, não cabe a preocupação de prender-se a um conceito, estilo ou de traduzir o que faz. Poderíamos dizer gestual, impressionista, mas isso, bem, não importa tanto. Às vezes, melhor que usar espátula, é testar o plástico rígido de um cartão de crédito aposentado, mas aqueles e esses detalhes não passam de pequenas curiosidades.

Deixo os materiais e volto, então, à obra: mesmo quando a cena inclui um descanso à beira mar ou um livro aberto, estamos diante de trânsito, porque é ainda sobre a marcha da vida, a passagem e um trajeto, a vida como caminhada. A palavra marcha guia-me para a imagem de um soldado em marcha, para a lembrança de que Dagoberto ingressou na vida adulta como militar destacado para servir em Moçambique.

Até enquanto dorme ele encontra-se com seus quadros e resta uma vigília. Um artista não se pode distrair. Um artista descansa, mas não desliga. Repousa mas não perde a atenção. A resistência que ao longo de mais de 40 anos o acompanha em sua dedicação à arte, escolha que pôde custar-lhe a renúncia ao pão, relaciona-se com sua capacidade de ter atravessado uma guerra. Ele ele sabe o valor de gozar um dia bonito, com a experiência da alegria disponível em cada uma das 24 horas. Essa energia estimula todos que tem a oportunidade de se relacionar com suas pinturas e é dada sem economias; o gosto dele pelas telas com tamanho mínimo de 80X100.

Do Arco Triunfal da Rua Augusta caminhamos e cruzamos a Praça do Comércio. Paramos ao acaso diante da beira do Tejo onde permanecemos mais um tempo e, depois, encerramos nossa conversa. Durante esse intervalo de tempo entre encontro e despedida, gosto de pensar que fomos todos, incluindo Dagoberto, os personagens anônimos que vemos nas obras do artista, por que não? A nossa caminhada talvez tenha sido um gesto que de alguma forma metaforiza a experiência do artista em explorar a zona de Lisboa com entusiasmo e mapeá-la com seu senso observador.

Passeio nos aliados, 2014. Acrílico sobre tela. Imagem do catálogo da Private Gallery.
Pressas de chegar, 2017. Acrílico sobre tela. Imagem do catálogo da Private Gallery.

Assim, chego a conclusão de que , entre tantas, uma das qualidades das telas de Dagoberto é nos reconhecemos nelas, não importa qual seja o nosso lugar ou canto no mundo: somos presença e avançamos de um lugar a outro enquanto contamos e partilhamos um pouco da nossa história.




Foto: Paulo Andrade
Verbo:
Andressa Barichello
Fotoverbado:
Dagoberto Silva
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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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