A vontade dela em sorrir grande era incontrolável. A mulher cheirosa vinha com a amiga, o uniforme de trabalho que só tirariam em casa, a sacola da loja com a lancheira dentro. Felizes, estavam as duas felizes, uma mais feliz que a outra, aliás. Sei que sim porque a felicidade não é um estado aferível por uma palavra que testemunhe, a gente sabe pelo jeito do corpo, quando ele entra em cena e testemunha, com a energia que traz, a potência de cada passo, a pessoa quase sem conseguir ficar parada. Entendi pelo jeito com que aquelas mãos agarraram as barras de apoio do vagão.

O assunto delas era banal, a vontade de rir nem era o assunto, tenho certeza, menos ainda o contexto, que rir naquele contexto de transporte público lotado às 18:30 de segunda-feira só em caso de ironia e o riso da alegria não é igual ao do sarcasmo, qualquer um sabe.

Quando elas chegaram eu já lá dentro há uns bons dez minutos, em pé tentando me equilibrar, tentando não olhar demais para a cara, a bolsa, o sapato, os peitos, o relógio de alguém em específico porque não é de bom tom ficar medindo, encarando, é melhor parecer indiferente aos demais, fazer que não leu os avisos colados à porta e colar o nariz a eles. Para as câmeras também não se pode olhar muito senão fica chato com o motorista, ele pode suspeitar que, sei lá, posso pretender furtar uma carteira?, se bem que isso até poderia ser uma emoção qualquer.

Vamos indo eu e as outras tantas pessoas tão mornas, cansadas, quanto enfado, nojo de quem espirra, bronca de quem não lava o cabelo, a minha mediocridade a fazer reparar na gente toda-todinha, a odiar que tenha quem,ui, descole um band-aid do dedo e o solte no chão do trem pra grudar no sapato de um com a bola de sangue lá, o verde do pus… Eu pus tanto defeito, ia em tanto resmungo comigo mesma até que, bem, até que aquelas duas. Lindas. Uns cabelos, uma pele… Sequer procuraram assento para o cansaço de um dia inteiro. Paradas à porta, os braços para o alto, as axilas macias, acho que eram macias sim, a dupla sem vacilo nem tropeço a cada pisada no freio…

Mas a felicidade de uma delas foi que me contagiou mais. E eu quis sorrir, eu precisava sorrir. Quis muito sorrir e segurei os lábios porque tinha de ser discreta (não se pode começar a rir abertamente do nada sob pena de as pessoas acharem que se está rindo delas, da cara delas, ou que se é doida – sempre tive muito medo de ser considerada doida).

Lutei, ah, com que esforço!, para não distender as bochechas, baixei a cabeça, virei o corpo todo para a janela. Foi aí que percebi: aquela mulher, a felicidade da minha felicidade, também renegava expressar com a boca o bem que é um contentamento assim sem mais.

Ela tinha o direito de abrir a boca grande, jogar o pescoço pra trás, se arreganhar toda. Tinha, merecia. Mas não podia. Parecia não poder. Talvez achasse que não podia. Porque não tinha dente. Não tinha todos os dentes. Mas merecia ter os 32 só pra achar que podia. Mais do que pra ter os dentes que são úteis pra mastigar bem a comida, pra saber que eles não garantem a felicidade de ninguém. Tendo todos os dentes há quem só rumine. Tendo faltas há quem desfrute. Janelas.

Eu com os dentes dormindo dentro da boca até aquela hora, eu que gosto de sorrir para estranhos, mas com a boca fechada. Só os primeiros quatro, era isso que ela tinha. A graça fazendo esforço para caber num sorriso amarelo, o cotovelo contra a barriga, o corpo todo curvado pra ver se ajudava a conter o que vinha, ela se esforçava…

O pé direito bateu três vezes, as mãos fizeram festinhas, depois ela respirou fundo e fechou os olhos por uns cinco segundos, o dorso das mãos amparando a testa e depois tapando a boca. Tentou, segurou, mas explodiu. Por dez segundos sorriu de orelha a orelha. Depois trancou a boca numa batida de guilhotina. Os olhos dela correram para todos os lados em busca de quem tivesse visto. Bem em tempo olhei para o teto. Era só da alegria, do gozo e da liberdade que eu queria ser testemunha.

Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>