Fui a uma apresentação musical em um jardim de verão.

Cadeiras foram distribuídas em volta do palco e no mezanino. Escolhi o mezanino para uma visão panorâmica da coisa. O privilégio dos que chegam cedo é poder escolher um lugar. Logo chegaram uma avó com seu neto, ela a cumprir o clichê da pontualidade que supomos em pessoas velhas e sóbrias. O menino, talvez tivesse uns dez anos, parecia um tanto mordomo: acompanhava, ajudava com a bolsa e estava junto sem estar, meio a serviço, meio a lazer. A banda começou a tocar e o jardim, bastante apertado, não demorou a atingir lotação máxima.

A avó cochichava comentários sobre a qualidade do jazz feito uma moça inteligente que aceita sair com um homem indiferente que só está interessado em beijá-la. A apresentação segue como brilho nos olhos para ela e como tédio para o menino. Até que ele descobre a mãe que, por ter se atrasado, está apoiada no muro lá embaixo.

Então ele se levanta, começa a dançar rock, a polir o chão com a bermuda. Faz do banco uma bateria. Para horror da avó, tira o tênis e leva o dedão do pé à boca. A avó divide-se entre curtir a banda com a mão no queixo e usar essa mesma mão para, como quem espanta um mosquito, ralhar com o neto.

Enquanto isso a mãe, lá embaixo, pede uma coca-cola, mantém a expressão tranquila e, enquanto balança o quadril, retribui tímida, ora sim ora não, os beijos que o filho dispara. Ele a chama com as mãos, com o corpo inteiro, suba!, venha!, contando que ela faça a leitura labial; depois, os braços fazem a mímica de um pescador que lança o anzol e puxa e arrasta um peixe bem pesado.

Tudo isso é em vão. A mãe quer permanecer lá embaixo e a avó não vai perder o show pra se ocupar dele.

Ele baba a bala, derruba a garrafa de água, pendura-se onde não pode. A mãe é um peixe pesado que insiste em nadar – em nada dar. Não adianta ativar o sonar; mães não são baleias, são mulheres e às vezes precisam deixar de morder a isca ou de engolir Pinoquio.

Se queremos desfrutar de alguma coisa que seja só nossa, talvez seja o caso de poder aceder ao prazer sem ter como pré requisito a pacificação dos nossos meninos.

Lá pelas tantas os artistas saem de cena, todos se levantam, o menino deixa a avó, desce as escadas correndo e abraça a mãe que retribui o afeto a ponto de tornar o filho esquivo.

Ele poderia ter descido antes, ter se juntado a ela no durante, mas já tem idade para ter aprendido a ler a distancia – ou ler à distância. Distância que tentou reverter sem sucesso, diriam uns. Mas pode haver maior sucesso que aguentar-se, com os próprios recursos, enquanto se inscrevem no corpo os caminhos da falta, da alteridade, do desejo? Nada foi em vão. O privilégio dos que chegam, seja qual for a hora, é poder escolher um lugar. Há distâncias que não precisam ser mitigadas, mas construídas.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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