Tenho pensado sobre as coisas erradas nas quais apostamos porque não apostamos no erro que pode ser a aposta. Confuso?

Uns arrependimentos tipo ó vida ó céus ó azar dei a mão quiseram o braço fui ser gentil me fodi disse sim por educação agora como é que eu vou fazer? Bom senso da pessoa, feeling, semancol, não tem!, olha, difícil. Eu sempre digo: olha, vou te contar! E não tenho nada para contar, porque não saber lidar com os outros é uma história resumida. Resumida a queixas.

Com esperança de ir à rua sem ter de lidar com os outros, vou à faculdade da vizinhança, lá tem mesa ninguém me conhece só criança vou trabalhar sozinha em paz por longas horas relembrar os velhos tempos sem risco de que tentem me obrigar a causar um mal-estar. Quase todos os meus mal-estares se resumem em não querer causar mal-estares nos outros.

Mas vai haver um evento amanhã. Colocaram toalhas vermelhas e vasos de flores sobre as mesas de estudo desde hoje. Dois homens atrás do balcão empurram com esforço algo retangular e metálico com verdes em cima. Fantasiei por um segundo que era um velório. O velório de um professor catedrático.

São apenas plantas mais altas para a decoração do evento. Tenho uma tendência catedrática ao exagero e ao trágico: talvez as pessoas que se aproximam sejam apenas como essas plantas, coitadas. Só querem alterar transitoriamente o meu espaço, mas olha!, difícil: já trato de matá-las sem nem conhecê-las, como fiz com esse professor sobre quem há nada a dizer.

Ocupo um canto do sofá no saguão, coloco o computador no colo. Não tem tomada. O carregador e os fones de ouvido ao meu lado no sofá; não vou usá-los. Quero ouvir conversas. E quando acabar a bateria vou embora.

Uma gringa anda pra lá e pra cá. É da organização do evento de amanhã. Eu poderia perguntar para ela se posso sentar em uma mesas, que é pra usar uma tomada, só isso.

Mas o sofá tem três lugares móveis e ela moveu a outra ponta e o meio, estou numa ilha, por ela nem no sofá, então não vou pedir a mesa. Penso em perguntar se atrapalho, mas à menor menção ela interrompe: it´s ok.

Talvez hoje seja eu a pessoa inconveniente, será que não me toco?, olha, não sei. Mas se for, é vingança. Penso na minha vingança quando…

Can I use your headphones just for a second?

Se a minha mãe pedisse os meus fones de ouvido eu diria ah não mãe. Se a pessoa com quem eu troco saliva pedisse os meus fones de ouvido eu diria cadê o seu? limpa essa orelha.

Na vida em sociedade quase todos os meus mal-estares se resumem em não querer causar mal-estares com os meus mal-estares que não são os mesmos mal-estares dos outros e por isso causam constrangimentos.

Então a gringa enfia os dois headphones nos ouvidos dela e sorri. Depois sem licença ela mete um deles no meu ouvido e diz:

Listen to it!

Quer saber se o áudio para amanhã está claro. Se eu gosto. Se it´s ok.

E eu digo yes of course sorrindo ainda, porque tenho um inglês enferrujado demais para dizer minha filha headphones são item pessoal, não convém sair assim pedindo pra uma estranha pra usar os dela, saca?

Saco! A verdade é que se eu tivesse um inglês fluente, igualmente não diria nada.

Peço licença para mostrar Caetano, depois emendo Chico. E Tom. E Seu Jorge.

Listen to it!

Talvez hoje seja eu a pessoa inconveniente, será que não me toco?, olha, não sei. Mas se for, é vingança.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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