Um conto sobre ilusão, perdas e autonomia, finalista do 25º Concurso de Contos Paulo Leminski.

 

    O maxilar direito de Marília dói já faz dias. Uma dor de abrir boca, como nos tempos em que fez a extração de quatro dentes do siso que estavam oclusos. Diga-se, dos quatro dentes do siso que estavam oclusos. Uma dor nevrálgica. De repuxar os ligamentos; e de puxar ligações outras.

    A cirurgia de extração dos quatro dentes do juízo de Marília foi causa da maior dor física de sua vida. Devido à complicações, os pontos vinham pela gengiva até os dentes da frente. Ela tinha dezenove anos e onze meses quando foi costurada com linha grossa de tecido marrom. Quando viu, teve vontade de desmaiar – mas não desmaiou. Vomitou em razão do efeito da anestesia, disse o dentista.

    O que importa dizer é que mais de meia década depois, Marília ainda se lembra bem: Aqueles quatro dentes estavam bem escondidos e deitados. Dormiam incólumes, como bebês. Era incrível vê-los na radiografia panorâmica! Eles, com suas grandes raízes, eram o retrato perfeito dos protagonistas das propagandas de pasta de dente nas quais um dente solitário e autônomo sorri – fosse possível dentes destituídos de uma boca [e bocas destituídas de dentes] sorrirem para o mundo de forma despudorada e terem para ele algum valor.

    Marília não podia vê-los mas, antes, eles estavam ali – como que num diagnóstico de gravidez; com o perdão da comparação esdrúxula. Ela apalpava a gengiva na expectativa de senti-los mas estavam todos recobertos e seguros por uma cama[da] de osso. Fato é que Marília cria: aqueles seus dentes deviam ser lindos, perfeitos – os maiores dentes de sua boca! Esse foi o seu convencimento íntimo ao ver o raio-x pela primeira vez. E a comparação radiografica bem mostrava: eram também muito mais imponentes do que os segundos molares que, já vindos à tona, surpreendiam pelo seu tamanho! Por mais que todos os seus 32 dentes tivessem raízes e que os molares indistintamente dessem como exemplo suficiente para qualquer rótulo de pasta de dente, os dentes mais legais eram, sem duvida, os tais sisos. Ainda que deitados. E talvez porque invisíveis.

    Aqueles quatro dentes oclusos certamente eram branquinhos. E diferentemente de todos os demais, nunca haviam sofrido uma restauração sequer. Estavam ali, virgens, debaixo da gengiva de Marília. Mas a despeito das qualidades, sobre eles recaía o veredicto: não nasceriam jamais. Ainda que bem irrigados e cheios de vida – era possível ver que dentro de cada um deles haviam nervinhos como ramos de árvores ou braços de um rio – estavam fadados a ser esmigalhados e removidos, pedaço a pedaço. Eles, que em seu gérmen tinham o desejo de eclosão. Eles, quetinham desejo de cumprir a sua missão. Que missão?

    Dizer que Marília fez a extração é força de expressão, afinal, fizeram-na por ela. O dentista, enquanto ela, dopada, estava rendida sobre a cadeira verde-água. Não viu nada. Mas autorizou e consentiu, daí a sua cota de autoria no episódio. Veria nunca expostos os dentes que a radiografia mostrou que ali estavam, nem veria a sua remoção – a ser atestada pelo profissional como tendo sido feita. O antes e o depois seriam, portanto, iguais e brancos, como os dentes que Marília mantinha incógnitos. Nulos mas existentes, tal e qual. Outros diriam por ela. E seria como se aqueles dentes e aquela cirurgia tivessem nunca existido. Um hiato. Seria mesmo possível?

    Só restava à Maília a passividade. E, sendo assim, optou pela sedação completa e pela remoção dos quatro dentes numa tacada só. Ao menos o problema seria resolvido de uma vez e a jovem menina se pouparia de assistir ao famigerado caninho de sucção a verter sangue. Marília, ela mesma acreditava, se pouparia também da agonia do quebra-quebra e da tétrica cena do dentista empreendo toda sua força contra um boticão atarracado a um pedaço enraizado de si. Um pedaço enraizado de si. Marília desejava ser poupada pois aquilo tudo era demasiado e sempre teve estômago fraco para essas coisas.

    O destino parecia incontornável: O mal seria eliminado pela raiz, e assim devia ser, porque era assim que devia ser. Isso garantiram à Marília as amigas experienciadas, o cunhado dentista de uma delas, o recém formado dentista de seu bairro e o bastante vivido cirurgião que procedeu ao massacre, diga-se, à remoção daqueles dentes – dentões. Essas eram as garantias deles. As de Marília, ela não as tinha nenhuma.

    De início, relutante à intervenção e bem antes de definir se o exterminio seria feito com ou sem um aporte para controle de ansiedade, Marilia desejava saber: E se ela nada fizesse? E se ela deixasse os quatro, ali, dormentes? E se ela não intervisse? E se ela aceitasse aqueles dentes como eram e deixasse que continuassem a ser o que eram: os seus dentes do siso, ainda que latentes, ainda que indisciplinados, ainda que refratários à cumprir sua função de mastigadores? Os dentes da sua boca. Por que eles deveriam nascer como os demais e render-se ao ritual da comida, do fio dental, do flúor e das cáries ou então serem obrigatoriamente extirpados? Por que não havia outra opção? Por que esse destino selado? Tinha mesmo que ser assim? Solidário a essa inquietação, estava Florêncio, pai de Marília. E uma vez decidida a remoção, pudesse aquele homem remover também dentes seus para sentir a mesma dor que a filha e ele o faria.

    Se ela deixasse os dentes tal como estavam, os demais dentes poderiam ser pressionados e suas raízes poderiam ficar comprometidas. Além disso, corpos oclusos como aqueles, tornar-se-iam corpos estranhos, os quais, no futuro, poderiam inflamar, transformados quiçá em fonte de um tumor maligno. Corpos oclusos. Corpos estranhos. Marília e uma náusea de pensar os dentes esmigalhados e ensanguentados – não os viu nunca, nunca!; mas sabe que foram partidos em mil pedacinhos. Havia, antes de tudo, uma opção: correr o risco. Afinal, não havia certeza quanto a um destino trágico caso Marília não fizesse a extração. Nada lhe doía até então. Mas todos ao seu redor possuíam 28 dentes e insistiam para que ela fosse igual.

    Marília não rendeu-se ao risco. Preferiu seguir a risca e render-se à vozes outras que, acreditou, pudessem melhor dizer daqueles dentes que eram seus e nunca haviam lhe causado qualquer incomodo. Riscou, então, seu nome da lista.

    O maxilar direito de Marília dói já faz dias. Dói demais. Por isso, um novo dentista solicitou uma radiografia panorâmica. Logo ao sair da sala de exames, Marília pediu à responsável que lhe deixasse ver brevemente a imagem obtida, já que o laudo completo só seria liberado no dia seguinte. Marília disse àquela moça que desejava ver aquelas imagens pois fazia uns anos que havia feito a extração dos quatro sisos e desconfiava que pudesse haver um pedacinho remanescente de algum deles ainda ali. Um pedaço que não pudera ser removido dada a dificuldade terrível que foi a cirurgia, a qual lhe custou – no cálculo official – a perda da sensibilidade da língua e muitos meses de trismo. Sim, assim disse Marília com todas as letras – e toda esperança.

    E ao dirigir o olhar ávido àquela tela, Marília procurou e quis encontrar um pedaço de raiz – mas não havia. Nada havia, apenas um buraco, um espaço, um nada. 28 dentes sobreviventes. E segundo a moça do Raixo X, à primeira vista tudo normal. Ah, a normalidade. Teria Marília suportado encontrar uma raiz? No dia seguinte, buscou, enfim, imagem e laudo. Sem razão aparente, chorou ao ler a primeira linha: Ausência dos dentes 18, 28, 38 e 48. Na segunda linha, outra conclusão: Cabeças de mandíbula assimétricas.

    O maxilar direito de Marília dói já faz dias. E é dor outra. Se a remoção daqueles dentes foi causa da maior dor física de sua vida, pensando bem, Marília não descarta tenha sido o prelúdio de sua maior dor de alma.

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Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

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