Aquarius, o filme. Ri e chorei. Chorei e ri. Menos pela oscilação entre o feliz e o triste do que pelo catártico que uma alternância sutil entre maravilhas e horrores pode proporcionar. Seja um edifício, a “era de aquário” ou aquele aquário-de-sala-de-dentista o que coloquemos em questão, fica a inquietação sobre o que possa ser para nós a diferença a ser finalmente construída a respeito do que seja o excêntrico e o bizarro. Num cotidiano bizarro no qual quem deseja é excêntrico, quais serão os limites entre defesa e ataque, entre ironia e perversão?

Kleber Mendonça Filho nos desafia. E a personagem Clara, vivida por Sônia Braga, desafia, sem dúvida, não apenas os interesses imobiliários mas o modo como estruturamos nossa rotina e fazemos laços. E o que mais choca é constatarmos que, em tempos difíceis, cativar o ódio do outro é simples: basta desejar. Desejar pode ser – e é – um modo de tornar-se alvo, porque desejar é um ato político e transgressor. Tanto assim que, a certa altura, Clara – em sonho – vê-se ferida e tendo jóias roubadas por uma antiga empregada doméstica da família – aquela pessoa e sua demanda um dia tornadas invisíveis, mas sempre presentes (em fotos e no repetido presságio de ter em sua vida a passagem de alguém que não se consegue nomear mas cuja presença, cedo ou tarde, retorna).

Se a ordem é ceder irrefletidamente às pressões da sociedade voltada ao consumo [da vida], quem encontra um jeito de contorná-las com delicadeza em busca de um sentido faz mesmo retornar um recalcado – e essa irrupção é cruel: não acontece propriamente por aquilo que se faça de reprovável, senão por aquilo que simplesmente se faça em nome de representar o próprio desejo. Talvez a gramática dos nossos tempos não seja mais pensar que os conflitos sejam causados porque querem coexistir num mesmo espaço desejos inconciliáveis, mas questionar a possibilidade que temos de vida entre extremos: habitar o desejo ou a ausência dele. A consequência, na primeira hipótese, é sermos pessoas que vivem suas vidas. Na segunda hipótese, entretanto, mais parecemos uma espécie de zumbis. As irrupções punitivas vistas no filme vêm ao encontro do que seja uma repressão à fruição – e têm como função impedir que o outro sinta prazer, e têm como função reivindicar que o outro renuncie à si. O que Clara faz é frustrar essa reivindicação e, quase sem querer, colocar em contradição as certezas daqueles que a cercam – este é outro de seus “pecados”. A cena na qual entrevistadora e fotógrafa querem arrancar dela a confissão de que gosta de MP3 talvez trate-se disso: certificar-se de que o que temos agora é bom; de que os discos colecionados por Clara são um detalhe.

Na força de vida que percorre o corpo de Clara o que é de morte passa ao largo. O edifício-fantasma, tantas vezes reforçado como tal, não causa medo ou angústia – porque o desejo ausente dos outros, aqueles que um dia abandonaram seus apartamentos, não é capaz de fazê-la duvidar do próprio. Salvo àquilo que diga respeito ao que de fato Clara deposita ali – seu lar – o prédio é um real de mera alvenaria, mas a sua demolição, essa sim, é um real simbólico contra o qual a personagem deseja lutar. Na força de vida que percorre o corpo de Clara, o que é de morte passa ao largo: porque até mesmo a orgia presenciada por ela no andar de cima – articulada pela construtora como símbolo de decadência – é tomada, novamente, como força criativa – o sexo como delícia e não terror. Com isso, destinada à construtora a limpeza da sujeita concreta no dia seguinte porque a sujeira simbólica foi a única a ser apropriada por Clara – e enquanto farra, não como repulsa. Clara sobrepõe à música eletrônica o som de seu rock e só permite que o prazer do andar de cima entre em seu apartamento-universo. Trata-se, portanto, de impor um limite ao outro e a si mesma. Trata-se, também, de funcionar como espelho a quem busca confrontá-la. A mesma apropriação positiva dos fatos que chegam a si de forma maliciosa acontece quando a repetição dos cânticos de um culto religioso invade o prédio – as vozes e corpos avolumando-se e disputando espaços não assustam Clara que, naturalmente, se deixa acolher por eles ao permitir que carreguem o carrinho de passeio de seu neto. A personagem nos desafia a construirmos a nossa própria identidade nos apropriando do que nos chega após um filtro autoral que para existir precisa desafiar o medo – logo o medo, a força propulsora (ou paralisante) mais forte em nossa sociedade. Este é o jeito encontrado por ela para não adoecer o corpo e o espírito mesmo quando seu desejo e seu lar já são considerados inexistentes por muitos. Sequer esse dado parecer lhe causa terror porque importa o que está do lado de dentro, vivo e modernizado como a pintura da fachada e do interior da sua unidade.

O verdadeiro terror para Clara é uma mãe da periferia ter de transformar a presença do filho em uma fotografia de banner juntando-a à mesa junto aos convidados-vivos durante a celebração de aniversário – porque a cidade cresce para cima e encurrala os pobres na injustiça. Mas esse nonsense doloroso no qual os mortos podem ser removidos das covas dos cemitérios e/ou viver como avatares que nos sorriem passa como mais um dia normal na orla enquanto Clara e sua rotina discreta não passam desapercebidas – e isso nos revela o olhar do bombeiro salva-vidas.

Terror para Clara é precisar denunciar que a simpatia de uns – imagem – não basta para se avaliar o caráter de alguém. Mas esse grito é mudo porque o caráter está localizado na fumaça que se faz dos colchões que, depois das chamas, não deixam provas. Porque o caráter de alguém, talvez, possa ser medido pelo quanto esse alguém suporta, de fato, que o outro – o vizinho – exista. Mesmo que esse outro seja um, seja sozinho e traga notícias de um outro tempo.

Aquarius é sobre coexistir mas, antes, sobre existir. É sobre a diversidade e sobre como temos pervertido esse conceito – porque a diversidade que aceitamos é apenas aquela que caracteriza a contradição: a diferenciação de uns em prejuízo de outros. A diversidade que pressupõe a igualdade entre todos continua a soar como um impossível, uma falácia, um incômodo – como toda falta. Como a falta do seio a persistir interdito.

A crítica feita pelo filme, acredito, também pode dizer respeito à nossa parca capacidade de continuar a produzir memórias autênticas e/ou conservar as que temos. Quando o sobrinho de Clara procura fotos de família para possivelmente reproduzi-las em seu telão de casamento, a homenagem surge como um filme a ser veiculado na festa feito pura sustentação de uma imagem a respeito do que se queira apresentar como família – mas esse recorte é editado, ainda, por um filtro de celular e o afeto entre alguns dos personagens pode já nem ser o mais importante. Ou seja, o filtro que hoje fazemos a respeito de onde viemos e dos fatos de nossa existência já não passa tanto pelo filtro da nossa própria subjetividade (como quando numa festa de família todos tem direito à construir algo sobre o outro familiar pelo uso da palavra-aberta), senão pelo filtro da imagem que, desejamos, o outro espere ou faça de nós. Ao mesmo tempo, parece que já não podemos suportar – com a mesma resignação de tia Lucia nos anos 80 – que a imagem que os outros façam de nós não corresponda ao modo como nós nos enxergamos ou não ressalte as peculiaridades que consideramos merecer maior destaque. Talvez porque a nossa visão sobre nós mesmos ande um tanto frágil demais, balizada pelos olhos que nos olham de fora e precisamos impô-la de um modo tal que a imagem que fazemos de nós perde-se naquilo em que nos transformamos para reafirmá-la. E assim, reafirmo: Aquarius é sobre coexistir mas, antes, sobre existir.

Ao se recusar a vender seu apartamento na orla de Boa Viagem por considerá-lo incrível, Clara é vista como excêntrica e individualista. Ironicamente, o empreendimento que se pretende construir no lugar é que, cheio de itens de segurança e indiferente à adequação paisagística de uma orla, deseja crescer para fazer sombra e ampliar ainda mais as distâncias entre vizinhos e entre a calçada – fora – e o dentro. A construtora Bonfim soa aos ouvidos como bom fim, mas sua grafia denuncia tratar-se, provavelmente, de um sobrenome. O sobrenome que nos falta criar, talvez, para melhor dizer do que (ou de quem) somos – ao menos enquanto não pudermos com um mero nome próprio nos batizar, como faz Clara, tão bem, cabelos negros, soltos e coração aberto diante do mar.





Texto: Andressa Barichello
Foto: Luigi Barichello
Mais em: Aquarius



Comentários no Facebook

comentários

Sobre o Autor Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014). Além de escrever, é também mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.

comentários no fotoverbe-se (0)

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode utilizar estas tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>